Almerico Lima
Para todas as pessoas que não consegui desejar feliz 2025 na virada (e para as que consegui também…)
Todo ano pode ser caracterizado por seus principais eventos. Porém , a escolha destes eventos depende da ideologia, objetivos e interesses que se espelham nas escolhas .
Sem fugir desta obviedade, mas com foco em processos, afirmo que 2024 se caracteriza por ter evidenciado, de forma contundente, algumas questões cruciais. Muitas pessoas (me incluo) as têm levantando há alguns anos, por diversos meios . As que considero principais são :
1. As mudanças climáticas , expressas por eventos extremos como secas , inundações , furacões/tufões se configuram no novo normal , afetando milhões de pessoas , sobretudo as mais pobres. . As medidas paliativas , quase nunca cumpridas pelos países (ainda mais com a ascensão de negacionistas como Trump), não parecem ter efeito . Mais uma vez se coloca sobre as pessoas, enquanto individuos, as tarefas de utilizar , reutilizar e descartar , ou seja ,consumir de forma diferente. Uma verdadeira hipocrisia , diante de um sistema baseado no consumo e na criação incessante de desejos de consumo.
Parafraseando o filósofo japonês Kohei Saíto, o capital no antropoceno se comporta da mesma forma que sempre se comportou: predatório da natureza e das pessoas. A luta ecológica tende a ser cada vez mais anticapitalista e exige estratégias coletivas potentes para fazer alguma diferença.
2. Os limites da democracia representativa , com a extrema direita se beneficiando das regras democráticas para ascender , tal como fez Hitler há mais de 90 anos e, no poder , eliminar por quaisquer meios qualquer forma de expressão democrática que inspirasse resistência . A armadilha de se colocar todas as fichas nas eleições periódicas , com cada pleito pautando o seguinte, gerando expectativas e narrativas desencontradas . Cada vez menos as eleições expressam as movimentações sociais e cada vez mais as manobras , acordos e financiamentos.
A oscilação entre a esperança de eleger progressistas e a resistência das elites a mudanças profundas , seja por golpes ou controle parlamentar e midiático , tem levado a decepções que favorecem a direita. As concessões e recuos quanto a bandeiras históricas levam ao descrédito , criando uma sensação de capitulação frente ao pensamento hegemônico, que evolui para a mágoa de uma traição. Enquanto não entendermos as eleições como momento da luta e não como a luta em si , estamos condenados a repetir ciclos, perdendo a capacidade de rompê-los.
A formação de novos quadros e a renovação das direções partidárias e de movimentos sociais não é uma questão meramente etária . O novo já nasce velho se a prática repete aquela que já abominamos e passamos a considerar “normal “. Não podemos permitir que relações capitalistas de exploração e competição que se instalaram em muitas organizações populares se alastrem. Uma rigorosa autocrítica é essencial para que estas sejam instrumentos de transformação e não de reprodução .
3. A hegemonia da educação subalternizante , que se consolida nas gestões , recuperando o papel de aparelho privado , característica da escola pública no sistema capitalista . A questão não é (apenas) a figura jurídica , mas “a que será que se destina ” . O polo hegemônico adquiriu tal força que a crítica a ele, mesmo embasada em pesquisas científicas é, não só ignorada como são “canceladas” as pessoas que apontam as contradições entre discurso e resultado , entre objetivo manifesto e as práticas instituintes.
Segundo os passos de Bourdieu , se o número de defensores do pensamento hegemônico (“sacerdotes”) aumentou e se eles se apropriam e deformam para seus fins, concepções , termos e teorias , precisamos ser “hereges” , sem temer as fogueiras da inquisição .
Se décadas de lutas por educação emancipatória , experiências históricas importantes agora só existem na memória e nas práticas nos chãos-de-escola, graças a elas, o campo acadêmico pode fazer mais que denunciar , anunciando as possibilidades de uma outra formação humana, verdadeiramente integral e emancipatória.
Para isso “ir onde o povo está ” é essencial para aprender e ensinar , para construir a resistência com os pés no chão, as mãos unidas e as mentes em rede .
4. As possibilidades imensas da ousadia social, a começar pelo debate da distribuição de renda , impostos dos ricos , aumento do salário mínimo
e outros questionamentos da realidade social , mas avançando para o cerne da exploração : a jornada de trabalho em geral e das mulheres em particular. Para usar uma palavra da moda, são disruptivas
a) a luta pela extinção da jornada 6×1 (redução da jornada de trabalho), ainda não compreensível para quem sempre trabalhou 5×2, mas com um poder de atingir a base trabalhadora da sociedade , gerando mais emprego e renda e abrindo espaço para o lazer e fruição da vida ;
b) a implantação da política de cuidados, ao mesmo tempo reconhecimento do valor social do trabalho de cuidados e doméstico remunerado e não remunerado, expansão do emprego e garantia de direito social . O debate sobre o trabalho de cuidados , desempenhados principalmente por mulheres negras , vincula classe ,gênero e raça de forma inequívoca ;
c) a compreensão crescente que, se não dá para entender as questões de gênero, étnicas, discapacidades, juventudes, velhices, orientação sexual, sem discutir as questões de classe, também não dá para discutir classe de forma isolada sem vincular a exploração a outras formas de clivagem social.
As possibilidades de maior unificação dos grupos e pessoas subalternas em um programa comum de defesa e avanço de direitos individuais e coletivos é crucial para as futuras batalhas .
“Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível e os delírios, outra razão.”
Eduardo Galeano
Se você chegou até aqui , certamente nos veremos em algumas destas trincheiras de luta , em 2025 e além!
Almerico Lima

Educador Popular , Doutor em Educação Professor Adjunto de Currículo e Didática do Centro de Ciência e Tecnologia em Energia e Sustentabilidade da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (CETENS/UFRB). Foi diretor de Qualificação Profissional do Ministério do Trabalho e Superintendente de Educação Profissional da Bahia .





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