Ivanisa Teitelroit Martins
Diante das guerras culturais
vivo daquilo que o outro não sabe sobre mim,
vivo daquilo que nem eu mesmo sei de mim.
A cultura não é um elemento acessório na luta política; ela é o campo onde se constroem as bases da hegemonia. Quem controla a cultura não apenas domina narrativas, mas define os limites do possível, orienta valores e molda a percepção da realidade. Enfrentar a guerra cultural, portanto, exige mais do que reação ou denúncia: é necessário um esforço estratégico e de longo prazo que trate a cultura como o principal território de disputa política. Apenas ao disputar a cultura de forma propositiva e estruturada será possível reverter a hegemonia conservadora e resgatar a capacidade de a cultura funcionar como uma ferramenta crítica, capaz de ampliar os horizontes do debate público e transformar a sociedade.
A guerra cultural não é um desvio da política real, mas uma de suas formas mais sofisticadas de disputa pelo poder. Ela opera no longo prazo, reconfigurando percepções, deslocando os termos do debate público e redefinindo o que é socialmente aceitável ou inaceitável. Enquanto a direita utilizou esse mecanismo para consolidar sua influência, a esquerda demorou a reconhecer a cultura como um território central na luta política.
O resultado é um cenário onde o debate público foi capturado por discursos que naturalizam desigualdades, reforçam hierarquias e deslegitimam o pensamento crítico. A guerra cultural não se limita ao enfrentamento direto de ideias políticas; ela transforma valores e comportamentos em campos de batalha permanentes, onde o que está em disputa não é apenas a argumentação, mas os próprios limites do que pode ser imaginado, dito e aceito na sociedade.
Com isso, a política cede à administração de necessidades sociais que não podem modificar o quadro das relações socioeconômicas já existentes e que continuarão, assim, perseverando.
O hipercapitalismo dissolve também a existência humana completamente em uma rede de relações comerciais. Hoje não há mais domínio da vida que se despojaria do aproveitamento comercial. O hipercapitalismo faz com que todas as relações humanas se tornem relações comerciais. Toma da pessoa humana sua dignidade e a substitui por valor de mercado. Vivemos em uma sociedade orientada completamente pela produção, pela positividade. Ela suprime a negatividade do outro do estrangeiro para acelerar a circulação de produção e de consumo. O que se permite são apenas as diferenças consumíveis. O outro, a quem foi retirada a alteridade, não se pode amar, apenas consumir.
Na hipercomunicação digital tudo se mistura com tudo. Os limites entre o interno e o externo se tornam cada vez mais permeáveis. Pessoas humanas tornam-se interfaces de um mundo totalmente conectado. Essa desproteção digital é estimulada e explorada pelo hipercapitalismo.
Um grau maior de informação não cria, sozinho, uma renovação ou modificação sistêmica. A transparência da verdade digital é um fator que estabiliza o sistema de maneira efetiva. Falta à transparência a negatividade que coloca em questão o sistema político-econômico preexistente.
A sociedade da transparência é uma sociedade do positivo. As coisas ficam transparentes quando se despojam de toda e qualquer negatividade, quando se tornam lisas, niveladas, quando se inserem sem resistência na corrente lisa do capital, da comunicação e da informação. As ações se tornam transparentes quando se subordinam ao processo contável, governável e controlável. As coisas se tornam transparentes quando perdem suas particularidades e se expressam apenas por seu preço. As imagens se tornam transparentes ao se alijarem de toda e qualquer profundidade hermenêutica, no limite, de todo e qualquer sentido. Em sua positividade, a sociedade da transparência é um inferno do igual.
Segundo Freud, o eu nega justamente aquilo que o inconsciente afirma e deseja ilimitadamente. O “isso” fica continuamente oculto ao eu. Passa pela psique humana, portanto, uma fenda que impede o sistema psíquico de concordar e coincidir consigo mesmo. Essa fenda fundamental na condição de lugar da intransparência faz com que a autotransparência do eu seja impossível. Somente como uma ilusão necessária ela seria, talvez, pensável. Há uma fenda aberta também entre as pessoas. O ser humano precisa de esferas em que possa estar em si mesmo sem se preocupar com o olhar dos outros. A iluminação total, a transparência total leva a um tipo de esgotamento. Segundo Peter Handke: “vivo daquilo que o outro não sabe sobre mim”, vivo daquilo que nem eu mesmo sei de mim.
Apenas a máquina é inteiramente transparente. O psiquismo não é uma máquina. A interioridade, a espontaneidade e a capacidade de gerar acontecimentos são opostas à transparência.
O poder smart se adapta à psique, adulando-a, em vez de oprimi-la ou de discipliná-la. Ele não nos impõe silêncio. Ao contrário, exige que permanentemente compartilhemos, partilhemos e participemos, que comuniquemos nossas opiniões e necessidades e que contemos da nossa vida. Temos que lidar hoje com uma técnica do poder que não nega ou oprime nossa liberdade, mas que a esgota. É nisso que consiste a crise atual da liberdade. A avaliação algorítmica de uma pessoa contradiz a ideia da dignidade humana. Nenhuma pessoa deveria ser degradada a um objeto de avaliação. Mistério, segredos, estranheza ou outridade representam obstáculos para uma comunicação ilimitada.
O outro, que é também o objeto, o que fica contra e o que está presente, a decência. Temos a capacidade de perder a decência de ver o outro em sua alteridade, pois estamos todos inundados com nossa intimidade. O outro é algo que me questiona, que me arranca de minha interioridade narcísica.
O desejo se alimenta do impossível. Mas se aparece constantemente, como na propaganda, “você pode” e “tudo é possível”, então é o fim do desejo erótico. Não há mais amor, pois nos supomos livres, pois escolhemos entre demasiadas opções. O outro é naturalmente o inimigo. Mas o outro também é o amado. É como o amor cortês medieval do qual falou Jacques Lacan, é um buraco negro, é um “trou” em torno do qual o desejo se adensa. Não conhecemos mais esse buraco.
Ivanisa Teitelroit Martins é psicanalista, cientista social e gestora pública federal. É autora de “Psicanálise: Uma Experiência Do Inconsciente” (Ex Libris, 2023).





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