Tomás Togni Tarquínio
Assumir identidade falsa, outro nome, local e data de nascimento, dar outros nomes a pai e mãe talvez seja uma circunstância próxima da esquizofrenia. Com a vantagem de não ser patológica. A enfermidade cessa ao mesmo tempo que a clandestinidade. Minha doença prolongou-se por quase dois anos e desapareceu de madrugada quando o ônibus que me levou ao exílio atravessou a fronteira do Chuí. Uma rua anódina separava o Brasil do Uruguai. A ambiguidade que carregava até então desapareceu. Os vários cartazes contra a guerra do Vietnã que vi da janela enquanto o ônibus percorria as ruas de Montevideo me pareciam irreais, impossível ver algo semelhante nos muros do Brasil.
Embora sendo dirigente estudantil sem folha corrida carregada, o período de clandestinidade me fez refletir, ainda jovem, sobre a fragilidade da vida, tal como ocorre com algumas pessoas diante de pandemias. O medo nos deixa com os cinco sentidos afiados, exige a mesma cautela com a qual o funâmbulo se equilibra na corda bamba atravessando o abismo. A clandestinidade nos obriga a ficar à espreita durante as vinte quatro horas do dia, o inimigo pode surgir aqui, ali, acolá, a qualquer hora, a qualquer dia, em qualquer lugar.
Ocultar a própria identidade me conduziu por pistas desconhecidas. As decisões presentes e futuras me ficaram vagas, imprevisíveis. Sobrevivi a experiência aos trancos e barrancos, graças a solidariedade de companheiros de militância, de simpatizantes da causa, de relações pessoais, não apenas familiares, de amigos, inclusive de infância que vieram viver em São Paulo, até de desconhecidos. Além da sorte, parte do jogo, que me ajudou a sair ileso, sem deixar profundas sequelas.
A Organização estava muito aquém de suas ambições. A Ação Popular (AP) não tinha logística capaz de preservar militantes de escalão médio para dias incertos. Era incapaz de fornecer documentos “frios” indispensáveis às pessoas procuradas, condenadas ou não.
A clandestinidade começou quando a Justiça Militar decretou minha prisão preventiva; prosseguiu após minha condenação meses mais tarde e terminou com a fuga do país. Condenado à revelia em um primeiro processo, recebi uma pena de 18 meses por distribuir panfletos contra ditadura durante a greve de Osasco.
O fato de pertencer a raia miúda, não impediu a repressão de vir ao meu encalço. Em duas ocasiões, ela se deu ao trabalho de mobilizar policiais a minha procura em São Paulo e Poços de Caldas, casa de meus pais e vasculhar, na capital paulista, residência de parentes e três outros locais onde morei.
Durante esse período difícil, eu alimentei a expectativa de prosseguir meu ativismo político em outra região do país. Tomar distância do movimento estudantil de São Paulo me parecia ser uma decisão importante. Eu e a Organização, ambos, seríamos menos vulneráveis às investidas policiais.
À medida que a intensidade repressiva aumentava, após o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5 decretado em dezembro de 1968 pelos militares, escancarando as portas para as prisões, torturas, sequestros e assassinatos, a busca de lugares onde pousar a carcaça ficou cada vez mais fadada ao fracasso. Minha vida clandestina passou a ser precária e incerta.
O suporte dado aos militantes e simpatizantes pelas pessoas próximas à Causa encolhia a olhos vistos. Era inversamente proporcional à intensidade com a qual a repressão se abatia sobre os grupos revolucionários. Em ditadura, a clandestinidade não é tarefa fácil em qualquer parte do mundo. No Brasil, tampouco foi diferente.
No início e por inexperiência, confesso que o peso da clandestinidade me parecia menor ao que foi. Isso não significa que minha introdução na ilegalidade tenha sido marcada pelo signo da leveza, nada disso. Como em qualquer ritual iniciático, minha admissão à condição de proscrito também foi animada pela circunspecção, mas, não foi similar às liturgias com a qual outros entram em Ordens, sejam profanas, ornados de farda e toga, sejam sagradas, com a sotaina paramentada.
Mas voltando ao tema, em termos teóricos e abstratos, o clandestino político nunca pode estar só. Sua sobrevivência depende de uma entidade que o apoia, seja ela partido, organização, assim como de um tecido de relações pessoais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os “maquisards” franceses ou os “partigiani” italianos agiam penosamente em grupo com forte apoio popular. Mas não foi o que aconteceu no caso da Ação Popular. Durante mais de ano e meio, enfrentei a clandestinidade sem apoio material, financeiro ou político. Ora, a clandestinidade não é para amadores, pois a resistência ao opressor se organiza na penumbra. Trata-se de uma forma de ação política que, na maior parte dos casos, prospera na ausência de liberdades. Ela se estende por um terreno amplo e diz respeito a todo tipo de ação ilegal contra o opressor, porém legítima.
Em condições ideais, o clandestino faz parte de um coletivo de militantes organizados. Ele depende desse suporte interno, bem como de uma rede externa de simpatizantes legais com quem compartilham afinidades políticas. Graças a essa identificação, os circuitos de apoio externo ousam abrigar os proscritos, alimentá-los, curá-los, vesti-los por dias, semanas, até meses, entre outras tarefas, todas arriscadas.
A organização é conduzida por um grupo dirigente oculto e centralizado. A direção define a linha política e as ações que militantes e simpatizantes devem levar a termo para alcançar objetivos táticos e estratégicos. Subordinados ao comando dirigente, os militantes são responsáveis pela criação e manutenção de células do partido, bem como da manutenção do círculo de simpatizantes e áreas próximas.
Essa complexa estrutura piramidal pode ser organizada a nível nacional, regional ou municipal, por bairros e setores de atividade econômica e social. Sem militantes disciplinados e aguerridos dificilmente a organização clandestina consegue ampliar seu raio de ação, recrutar pessoas e garantir logística indispensável ao cumprimento de seus propósitos.
Mas, a clandestinidade enfrenta problemas sérios. A fragilidade diante de um inimigo muito mais poderoso, dispondo de recursos humanos e materiais superiores, coloca diariamente a arquitetura clandestina em perigo. Para fazer face a essa desvantagem, a ordem clandestina é insaciável consumidora de recursos materiais e humanos. Exige uma coordenação abstrusa, regras e disciplina estritas para operar em situação adversa. Respeitar as regras de segurança faz parte do dia a dia, particularmente por ocasião de deslocamentos e encontros.
Dinheiro, por exemplo, nunca é suficiente, seja para preparar e executar ações, seja para o custeio do quotidiano. Manter casas e apartamentos como moradia, refúgio, intendência, os “aparelhos”, como eram conhecidos os esconderijos no jargão brasileiro da época, além do alto custo econômico, implica firmar contratos de aluguel com o nome, endereço e renda de locatários e fiadores.
Dispor de locais para reuniões e congressos é mais um aspecto das dificuldades. Como a repressão está diariamente ao encalço da organização, os aparelhos podem ser rapidamente abandonados por razões de segurança ou abruptamente invadidos pela polícia.
A rotatividade de aparelhos é um problema grave com o aumento da repressão. Não é difícil imaginar a quantidade de recursos necessários para manter gráficas, publicações, confeccionar documentos de identidade, dispor de veículos, armas, munições, explosivos, roupas, disfarces que devem estar disponíveis em locais diferentes. Um conjunto de circunstancias necessários para assegurar a existência da organização, de seus militantes e simpatizantes.
A circulação de informações interna e externa é o calcanhar de Aquiles das organizações clandestinas. Para alcançar os objetivos políticos é necessário divulgar a orientação política, promover ações de agitação e propaganda, armadas ou não. Vive-se assim uma situação contraditória, na qual os atores se mantêm à sombra, enquanto procuram sensibilizar a população para sua causa política.
Mudar a própria identidade usando documentos falsos com “nomes de guerra” é um imperativo de sobrevivência das pessoas visadas pela repressão. Na ordem clandestina, quanto menos um militante souber da vida pregressa dos demais, mais seguro a organização permanece. Desconhecer nome, o estado civil, profissão, residência, local de trabalho, afinidades culturais e afetivas, onde nasceu, estudou, enfim, hábitos dos companheiros, faz parte das regras de segurança.
Confundir-se no meio da massa anônima, construir uma aparência anódina, aparentar ser uma pessoa qualquer sem predicados e relevâncias perceptíveis é condição indispensável à sobrevivência individual e coletiva. Ao passar por aquilo que não é, o clandestino encarna um personagem como os atores no tablado, sem a vantagem do reconhecimento da plateia.
Com o tempo, o militante clandestino desenvolve uma capacidade de antecipar situações adversas. A vida irregular amplia essas habilidades, artifício que proporciona uma ilusão de segurança. Por maior que seja a precaução, ela é inútil diante do imprevisível, diante do imponderável. Aliás, o número de quedas por razões alheias a luta política é muito maior do que se pode imaginar.
Contrariamente a clandestinidade dos revolucionários europeus, chineses, vietnamitas, que contavam com vasto apoio da população, as organizações clandestinas Latino-americanas dos anos 1970 tinham efetivos reduzidos e estavam distantes da população. Evoluíam com o sentimento de estarem sitiadas pelos inimigos. Não sem razão. Como subproduto dessa situação desconfortável, a unanimidade deve prevalecer entre todos membros. Não há lugar para divergências. A coesão é percebida como um fator decisivo à sobrevivência do grupo.
Desviantes, contestadores, discordantes são identificados como pessoas passíveis de comprometer a harmonia do grupo. A exclusão, eliminação, inclusive física, cisão, fracionamento são consequências desta exigência de unidade. Cada elo da cadeia de relações é ao mesmo tempo a força e a fraqueza da organização clandestina.
Com a repressão mais intensa após o AI-5, as ações junto à população foram cerceadas pela condição clandestina. Ao aumentar o isolamento entre a organização e a população, o objetivo político de sua existência anulou-se. Fato agravado pelo número pouco significativo de militantes.
A Ação Popular era uma organização inexperiente, voluntarista e irresponsável que não tinha condições de operar com um mínimo de segurança aos seus membros.
Tomás Togni Tarquínio

Formado em Antropologia e Prospectiva Ambiental na França. Desde 1977, trabalhou em diversas instituições francesas e europeias pioneiras sobre: energia, ecologia política, meio ambiente, decrescimento e colapso da sociedade termo-industrial. Foi Secretário do Governo do Amapá, por ocasião da execução do pioneiro Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA); trabalhou no MMA e Senado.





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