Brasil em Colônia

João de Paula

_Faço o show de graça, só não quero que coloquem cartaz político no palco.

Foi o que disse o compositor, cantor e instrumentista Raimundo Fagner, ao ser convidado pela Cristina Buarque, do Comitê Brasileiro de Anistia-CBA de Colônia, para fazer um show na Semana de Solidariedade pela Anistia no Brasil, naquela cidade da Alemanha, cuja renda seria destinada aos prisioneiros e perseguidos políticos no nosso país. Nós, organizadores do evento em Colônia, achamos que ele tinha toda razão naquele posicionamento, pois não fazia sentido criar um problema desnecessário em sua volta para o Brasil. Naquele ano de 1978, Fagner, que já era um dos principais nomes da música popular brasileira, além de nada cobrar por uma apresentação que lotou um imenso auditório, fez tudo ao seu alcance para não onerar a sua organização, aceitando, inclusive, hospedar-se na casa onde morava a Cristina, para poupar gastos com hotel. Conscientemente, ele fez daquele seu show, além de uma primorosa exibição de arte, um ato de ajuda à redemocratização do Brasil. O público daquele evento memorável realizado na última semana de junho de 1978, ficou encantado com o artista e com a MPB. Além da maioria alemã, de Colônia e cidades vizinhas, havia naquela vibrante plateia um bom número de portugueses, espanhóis, brasileiros e de outros latino-americanos. A apresentação do Fagner ficou marcada na história dos grandes espetáculos musicais de Colônia.

O movimento pela anistia aos presos e perseguidos políticos espalhava-se pelo Brasil e pelo mundo depois que fora criado em fevereiro daquele ano no Rio de Janeiro, por um grupo de mulheres o primeiro CBA – Comitê Brasileiro pela Anistia. A atriz Ruth Escobar, que havia participado de um seminário pela anistia em São Paulo, difundiu esta ideia na Europa, incentivando a criação de comitês. Depois de criado o CBA de Paris, tendo participado de um evento deste comitê, Cristina Buarque organizou uma reunião em Colônia com Ruth Escobar, em sua residência, a partir da qual foi criado um CBA e surgiu a ideia de realização ali da Semana de Solidariedade pela Anistia no Brasil.

Colônia reunia muitas condições positivas para sediar um evento de peso sobre o Brasil. Por suas origens, é certamente a mais latina das grandes cidades alemãs. Àquela época, muitos brasileiros trabalhavam na Deutsche Welle e na Transtel, duas emissoras sediadas ali que, respectivamente, faziam transmissões de rádio e vídeo para países de língua portuguesa. Sua universidade possuía um prestigiado centro de estudos e ensino do idioma português e a cidade era um dos centros culturais mais importantes de uma das regiões mais industrializadas da Alemanha, onde trabalhavam muitos latinos e latino-americanos. A Semana de Solidariedade pela Anistia no Brasil objetivava chamar a atenção dos habitantes da quarta maior cidade da Alemanha e das que ficam em seu entorno para o nosso país, mostrando suas dimensões cultural, artística, econômica e política, denunciando os crimes da ditadura militar e buscando angariar apoio para as forças internas que começavam a rearticular-se na luta pela democracia. Jornais alternativos como o Pasquim, Opinião e Movimento e órgãos da grande imprensa tais como o Estadão, a Folha de São Paulo, o Globo, Correio da Manhã e o Jornal do Brasil, abrindo brechas na censura, noticiavam as primeiras greves operárias após o AI-5, protestos de estudantes, declarações de Bispos Católicos e manifestações de movimentos sociais contra a ditadura.
Entre as atividades artísticas da Semana Brasil em Colônia o show do Fagner foi o ponto mais alto, mas a programação incluía muitas manifestações culturais, como eventos com danças, bebidas e comidas típicas e ações políticas por meio de debates e palestras sobre os problemas mais relevantes do nosso país naquele momento.

Além das falas do físico José Leite Lopes sobre ciência e tecnologia e do jornalista e escritor Alfredo Sirkis sobre questões ambientais, uma palestra de destaque foi a de Leonel Brizola, que governava o Rio Grande do Sul na ocasião do golpe de 1964 e se encontrava no exílio desde então. O político gaúcho tornara-se uma liderança nacional ao resistir a uma tentativa de golpe em 1961, quando os comandantes das Forças Armadas tentaram impedir a posse de João Goulart como Presidente da República, após a renúncia de Jânio Quadros àquele cargo. De acordo com a constituição brasileira, João Goulart, que havia sido eleito vice-presidente, era o seu sucessor. Enfrentando aquela absurda pretensão golpista, Brizola, a partir do seu estado, comandou uma mobilização dos brasileiros por meio do que se chamou a Cadeia da Legalidade. Este movimento foi parcialmente vitorioso, tendo João Goulart assumido a presidência do Brasil, mas com poderes reduzidos por conta de uma manobra de implantação de um regime parlamentarista no Brasil. Os golpistas perderam os anéis, mas salvaram os dedos e continuaram conspirando até serem vitoriosos em 1964. A propósito, convém não esquecer que a história da extrema direita no Brasil é uma sequência de golpes exitosos e fracassados. Aos interessados em aprofundar-se na compreensão do modo de atuar destes golpistas renitentes, sugiro pesquisar o que eles fizeram em 1930, 1937,1938,1945, 1954, 1955,1956,1959,1961, 1964 e 2022.

Em 1978, Brizola estava exilado em Portugal, depois de anos no Uruguai e de uma breve estadia nos EUA. Vivendo em Lisboa, ele tentava articular uma frente ampla de oposição à ditadura militar e lutava para recriar o PTB, partido que representara o trabalhismo no Brasil, até ser dissolvido após o golpe de 1964.

Em sua palestra em Colônia, Brizola analisou o cenário econômico e político do Brasil, denunciou os crimes cometidos pela ditadura e fez um chamamento às diversas forças políticas brasileiras para unirem-se pelo restabelecimento do regime democrático no nosso país. Além da palestra para um grande público, Leonel Brizola participou de várias reuniões com grupos de brasileiros interessados em discutir as mais diferentes questões nacionais. Eu que, então, só o conhecia por meio dos discursos de rádio da Cadeia da Legalidade, fiquei impressionado com sua firmeza de princípios, apreço pela democracia e manifestações de amor pelo Brasil.

Dona Neusa, esposa do Brizola, que o acompanhou na viagem a Colônia, adorou a cidade. Ciceroneada pela Ruth, ela fez pequenas compras e conheceu aqueles lugares mais encantadores que quase toda cidade tem e que só são conhecidos por quem mora nela. Como é frequente ocorrer entre gaúchos e cearenses, criou-se uma boa química entre as duas e Dona Neusa fez questão de visitá-la em nosso apartamento, onde foi servida com um café da tarde, o mais próximo do estilo da Pedra Branca que a carência relativa de ingredientes originais possibilitava.

A conferência Internacional pela Anistia no Brasil em julho de 1979 em Roma e a conquista da anistia em agosto daquele ano, beneficiando os perseguidos, mas engolindo um jabuti que beneficiou também os perseguidores, ficam para outra historieta.


João de Paula Monteiro Ferreira

Ex-presidente do DCE da UFC, ex-diretor da UNE, médico especialista em psicoterapia e psicologia organizacional, formado pela Medizinische Fakultæt der Universitæt zu Kœln, República Federal da Alemanha



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