Em resposta ao artigo publicado nesse site: “Geração 68: Da Barricada Antifascista à Urgência das Ruas” em 20/10/2025
Cláudia Arruda Campos
Amaury começa por nos apontar a sensação de inércia do movimento. Logo mais fecha esse tema com: “Reconhecemos a sensação de ‘pausa’ pode se instalar após sairmos de um período de mobilização total”.
No meu entender não se trata de uma “sensação”, mas de pausa mesmo, o que não é apanágio do Movimento G68. Se eu tivesse competência para tal, faria um gráfico todo serrilhado a partir da Campanha eleitoral na qual despachou-se o capitão Massa de manobra. Posse, 8 de janeiro, tempos conturbados. Depois, planície. Julgamento dos golpistas: gráfico em ascensão. Com a condenação o pico se inverte. A escandalosa PEC da blindagem nova ascensão e seguinte descenso.
Não é desse tipo a inércia que se percebe (percebe, não sente) no Movimento Geração 68 Sempre(?) em Luta. No que se refere à motivação e organização dos ativistas, a fonte secou há um tempo. Vou lembrar um caso mínimo de organização: Manifestação no Anhangabaú, Grito dos Excluídos, se não erro. Alguns companheiros, foram examinar previamente o local, e estabelecer um ponto de encontro. Em seguida esse ponto foi divulgado e lá nos encontramos, como se fazia com o tradicional ponto da Ministro Rocha Azevedo/Parque Mário Covas. É o mínimo termos um canto onde nos ajuntar com as nossas camisetas e conversar com companheiros que não encontramos há tempo.
Parece pouco, coisa reles demais? Posso produzir um artigo só sobre isso. Aqui não me estendo, que já fui longa.
Ao tratar das eleições de 2022 Amaury termina por uma afirmação que já li antes com certo desgosto. Aí trago à tona a professora de redação, corretora de vestibulares para me dizer: Calma, é só uma ambiguidade. Tira ponto, e segue adiante.
Não dá mais para tratar assim afirmações que apontem cada acontecimento positivo como fruto da nossa luta. Já li e ouvi isso várias vezes. A insuficiente especificação faz soar algo de supervalorização do que representamos entre os diversos movimentos de esquerda neste momento.
Não adianto muito o que penso a respeito porque a escrita é traiçoeira e temo ser mal entendida, mas insisto na ideia de se discutir esse aspecto. Não implica diminuir o papel do MG68, mas ter mais claro o que podemos fazer no conjunto dos movimentos populares surgidos a partir dos anos 70, aos atuais estudantes, professores etc.
E me repito, é importante nos situar quanto ao ponto da mobilização popular nos inserirmos, qual a contribuição que – efetivamente – temos a dar. Amaury não se aprofundou o suficiente (num artigo – incitação não havia espaço, compreenda-se) mas enfrentou a questão. Que isso, seja bem-vindo. Escorrega, porém quando adiante afirma: Nossa contribuição primordial é a inteligência e a vontade de lutar sempre, sendo o farol a guiar as novas gerações.
Não aprecio muito a metáfora do farol. As marés mudaram muito depois das nossas lutas passadas que marcaram novas formas de enfrentar o desmanche da democracia. No fim dos anos 60, nos anos 70, a ditadura fez cavar um fosso entre as formas de luta, Somos, sem dúvida símbolo, ícones, mas nossas discussões deveriam elencar o que se pode aprender com nossos posteriores, os quais construíram suas formas de organização e luta inteiramente sob a ditadura.
Esclareço: não estou supondo que o Movimento Geração 68 esteja se julgando superior, ou iluminador em relação às novas gerações. Ocorre, sim, um mau uso da linguagem figurada, que leva a interpretações desagradáveis. E há que cuidar também da linguagem. Mas é preciso situar bem o nosso papel no conjunto das forças de esquerda – movimentos e partidos.
2 aspectos fundamentais no artigo de Amaury:
- A necessidade de estabelecer novas pautas, mantendo as pautas essenciais. Para mim, essencial só tem uma: a luta de classes traduzida de diversas formas conforme o momento tático.
- O Ecossocialismo como pauta inevitável para este momento.
Concordo, mas reivindicaria também outro pilar, ligado a esse e, no entanto, oposto a ele: o mundo digital, desde o excesso de informação que obstrui o acesso à verdade e ao pensamento reflexivo até os riscos ecológicos da IA.
Por fim (por enquanto) um destaque:
“A volta às ruas não é uma opção; é um imperativo fático e urgente!”
Certamente Amaury não fez essa afirmação por mero voluntarismo haja vista a mobilização PEC da blindagem, por ex. Toda semana vemos as grandes manifestações nos Estados Unidos, na Europa. Isso pra não falar de Ásia e África.
Cheguei a pensar que os eflúvios da comunicação digital amortecessem os volumes das ruas. Que nada, né? Só que nós temos (eu tenho) dificuldades a mais.
Já propus mais de vez a modalidade de ação de rua dos veteranos europeus. Os companheiros não gostaram, ou ficaram constrangidos, ou nem deram bola. Sei lá.
Precisamos, no entanto, definir pautas – e o precioso artigo do Amaury vem nessa direção, mas também as formas pelas quais os ativistas participem e/ou estejam inteirados dos eventos.
Volta a profa. de Língua Portuguesa Gentes, o Amaury tem um domínio de pontuação que só. Se me permitem o desalinho das observações.
Cláudia Arruda Campos

Kauê- Claudia de Arruda Campos. Ingressou no magistério público em 1968.
Só não pode encarar o que hoje se chama Fundamental I. De resto percorreu todos os níveis de ensino público, além algumas modalidades no ensino privado. Participou, o que muito lhe honra, do movimento que, em 1978, expulsou os pelegos da APEOESP .




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