A profecia das barricadas: Dez anos da Primavera Secundarista frente ao colapso da escola-plataforma e à militarização do saber

Ligia Bacarin

O Fio Condutor da Degenerescência

A história da educação pública brasileira na última década não é uma sucessão de eventos isolados, mas o desenrolar de uma totalidade dialética onde o projeto de formação humana está sob ataque sistemático. Em 2015, o movimento de ocupação das escolas conceituado como a “Primavera Secundarista”, emergiu como a antítese política à tentativa de “reorganização escolar” e terceirização da gestão. Ao ocuparem as unidades de ensino, os estudantes não apenas defendiam prédios; eles reivindicavam o direito ao pensamento crítico e à gestão democrática.

Dez anos depois, o cenário de 2025 revela que a derrota temporária daqueles projetos em 2015 foi metamorfoseada pelo capital em estratégias mais sofisticadas e brutais. O que antes era uma “reorganização” física tornou-se uma plataformização da alma pedagógica e uma militarização da conduta estudantil. A relação entre esses temas é umbilical: a retirada do conteúdo científico e humanístico (esvaziamento) exige um modelo de controle (militarização) para silenciar a frustração social, enquanto a terceirização para as Big Techs converte a educação em mercadoria de dados. Este artigo analisa como o “adestramento escolar” atual é o desfecho de um projeto de classe que os secundaristas de 2015 tentaram, profeticamente, barrar.

1. Mordente e a Judicialização: A Raiz da Criminalização Atual

Para compreender a escola-quartel de 2025, é preciso olhar para as estratégias de contenção jurídica de 2015 analisadas por Giuliana Volfzon Mordente. Segundo Mordente, o Estado utilizou o aparato judicial não apenas para reintegrar à posse das escolas, mas para deslegitimar o estudante como sujeito político. A imposição de multas exorbitantes, a criminalização de lideranças e o uso de “interditos proibitórios” foram o laboratório para o que vivemos hoje.

Mordente demonstra que o sistema de justiça atuou para garantir que a escola voltasse à sua função de “reprodutora da ordem”, tratando o conflito pedagógico como uma questão de polícia. Essa transição do “direito ao protesto” para o “caso de polícia” é o alicerce jurídico que permitiu, anos mais tarde, a implementação em massa das Escolas Cívico-Militares. Em 2025, a militarização não é apenas uma escolha administrativa; é o estágio final da repressão judicial que Mordente denunciou em 2015: o fechamento de qualquer canal de diálogo democrático.

2. Militarização como Instrumento de Gestão do Conflito Social

De acordo com a pesquisa de Zanelato (2025), o avanço das Escolas Cívico-Militares (ECIMs) é a resposta autoritária ao potencial insurgente revelado em 2015. A militarização opera em duas frentes: a moral e a financeira. No plano moral, institui-se o “adestramento”, onde a disciplina militar substitui a disciplina intelectual. O aluno deixa de ser um sujeito de direitos para ser um corpo a ser moldado, silenciado por regulamentos que punem a dissidência e a estética periférica.

No plano financeiro, a tese de Zanelato revela que a militarização é um mecanismo de transferência de fundo público. Entre 2021 e 2025, o governo paranaense inflou os gastos com gratificações para militares da reserva nas escolas, enquanto congelava salários de professores e precarizava a infraestrutura básica. A escola não é mais um espaço de educação, mas um mercado para a corporação militar gerir a crise social.

3. Plataformização e o Esvaziamento Científico

Se a militarização controla o corpo, a plataformização controla o intelecto. A substituição de professores e livros didáticos por plataformas digitais geridas por Big Techs representa a subsunção real do trabalho docente ao capital tecnológico. O conhecimento é fragmentado em “pílulas de conteúdo” e quizzes gamificados que geram uma falsa sensação de aprendizado.

Esta “escola-aplicativo” promove o que chamamos de aprovações fake. Zanelato (2025) denuncia que a busca incessante por índices levou o Estado a mecanismos de exclusão de alunos com baixo desempenho e à redução drástica de vagas no ensino noturno e EJA. Cria-se uma “escola vitrine”: estatisticamente perfeita, mas pedagogicamente morta. O esvaziamento dos conteúdos clássicos e das ciências humanas é o objetivo final; quer-se um trabalhador que saiba operar uma interface, mas que seja incapaz de ler a realidade social.

Conclusão: Do Colapso à Reocupação do Futuro

A análise dialética nos permite ver que o colapso da educação em 2025 é o triunfo temporário da mercadoria sobre o ser social. A junção do controle militar (analisado por Zanelato) com a criminalização institucional do dissenso (analisada por Mordente) criou o cenário perfeito para a privatização final. O adestramento que visa a produtividade imediata e a obediência cega é a antítese da educação defendida pelos secundaristas em 2015. A degenerescência da escola hoje é o resultado de décadas de um projeto que substituiu a autonomia pela vigilância, o professor pelo algoritmo e o debate pela ordem unida.

Para superar essa encruzilhada, o caminho da esquerda, dos sindicatos e dos movimentos em defesa da escola pública exige o que Mordente identifica como a retomada da escola como território de conflito e de direito inalienável. A solução não reside na reforma das plataformas ou na “humanização” do quartel, mas na ruptura radical com a lógica da judicialização punitiva. É preciso restabelecer a escola como espaço de comum, onde a gestão democrática não seja apenas um termo jurídico, mas uma prática cotidiana de autogoverno estudantil e docente. O caminho para barrar a degenerescência passa pela construção de frentes amplas que vinculem a luta pedagógica à luta contra o capital, denunciando que a “aprovação fake” e o controle biométrico são faces da mesma desumanização que precariza a vida fora dos muros escolares.

Inspirados pelo legado de 2015, a reconstrução da escola pública exige uma pedagogia da insurgência que confronte a “paz dos cemitérios” imposta pela militarização. Como aponta Mordente, a resistência deve ser jurídica, mas sobretudo popular, transformando cada tentativa de silenciamento em um novo fórum de debate político. A solução para o esvaziamento de conteúdos é a reafirmação do saber científico, histórico e artístico como ferramenta de libertação, e não como dado estatístico. Somente uma educação que se reconheça como parte da luta de classes poderá reverter o adestramento e devolver à juventude o direito de não apenas ocupar a escola, mas de projetar um mundo onde o conhecimento não seja uma mercadoria, e a disciplina não seja uma algema.


Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin 

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da Educação, pós-graduação em Educação Especial e doutorado em Fundamentos da Educação. Militante do Fortalecer PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.


Referências Bibliográficas:

  • ZANELATO, Italo Ariel. “Nossa escola não é caso de polícia”: uma análise histórica da militarização dos colégios públicos e civis do Paraná (2019-2025). Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Estadual de Maringá, 2025.
  • MORDENTE, Giuliana Volfzon. A luta secundarista e a repressão estatal: entre a ocupação e o tribunal. [Referência à obra/análise de Mordente sobre a judicialização e criminalização de 2015].
  • MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
  • ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
  • HARVEY, David. O Novo Imperialismo. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

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