Mariluce Moura
No fim desta manhã de domingo, 4 de janeiro, um velho companheiro de lutas me enviou um pequeno vídeo da Ação Popular Socialista/PSOL dentro de uma mensagem no WhatsApp, com o título “É hora de resistência ao imperialismo”. Li o texto, um dentre inumeráveis, curtos e longos, recebidos e lidos desde ontem, assim como vi o vídeo, e então respondi a ele: “É, não há outra saída! Vamos à luta”.
Vi a mensagem num momento em que sentara em minha poltrona preferida de pausas para tentar entender alguma coisa da vida e do mundo, enquanto me perguntava quem, afinal, poderia deter Trump e sua loucura contra o mundo. Pensava nisso e, ao mesmo tempo, percebia que me movia/me movo ainda naquela estranha atmosfera de incredulidade e assombro ante uma desgraça súbita que nos atinge (mesmo que seus indícios estivessem dados) e cujas consequências ainda mal conseguimos delinear com clareza. Entretanto, mais de 24 horas depois do acontecimento — o aterrorizante ato de guerra dos Estados Unidos contra a Venezuela —, é imperativo romper com o espanto, ou ao menos suspendê-lo temporariamente, em busca de clareza e de novas rotas de ação e superação.
Tal busca nos impõe falar, dialogar, ler e escrever — para entender melhor e agir. É o que tento, agora. Primeiro, concordando com o filósofo Vladimir Safatle, professor da Universidade de São Paulo (USP), em artigo para a Carta Capital, em sua percepção de que desde ontem nosso mundo mudou, dado que “o ataque norte-americano à Venezuela sela o começo definitivo da nova desordem mundial”.
Num texto em que observa os desdobramentos do colonialismo, com seu cortejo de genocídios, saques de riqueza, massacres administrativos e outras práticas miseráveis, Safatle diz aos que imaginavam estar tal lógica imperial restrita aos livros de história, que “o dia 3 de janeiro de 2026 está aí para desmentir” essa visão. “O recente ataque dos EUA à Venezuela é apenas a coroação definitiva de uma nova época colonial, a terceira que se abre diante de nós, depois da ‘descoberta’ das Américas e da ‘incursão civilizatória’ na África, com as velhas palavras grandiosas e cínicas de sempre”.
Li com atenção também o artigo “Invasão à Venezuela impõe nova era à América do Sul”, do cientista político Lucas Pereira Rezende, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na Folha de São Paulo, em que ele prevê “uma mudança global na política sul-americana e, mais ainda, nas relações internacionais, a partir do acontecimento de sábado. “Donald Trump, com a invasão à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, ambos ilegais sob quaisquer legislações que se escolha, e independentemente do quão urgente fosse o fim do regime autoritário venezuelano, já tem uma guerra —e uma vitória— para chamar de sua”, ele diz.
E na construção simbólica de vencedor, “que tanto permeia a paranoia política do presidente estadunidense”, pouco importa, segundo Rezende, uma eventual influência de questionamentos jurídicos à invasão criminosa sobre as eleições de meio de mandato — consolidem elas Trump como “um autocrata eleitoral” ou mostrem algum resultado do esforço da sociedade e das instituições estadunidenses “para frear sua ascensão totalitária. Um sacrifício de um peão para um avanço agressivo”. Seja como for, na observação do cientista político, “está consolidada a mudança de perfil político dos EUA. Não existe mais em Washington ou em seu posicionamento internacional qualquer visão sobre democracia liberal. É a política do poder em sua pura expressão, a realpolitik”.
A entrevista coletiva de Donald Trump na tarde de sábado, em seu desmedido cinismo — e especial desfaçatez, ao afirmar que governará a Venezuela por algum tempo e ao repetir insistentemente que serão os Estados Unidos os vendedores do petróleo venezuelano para outros países —, não deixou a mais ínfima dúvida a esse respeito. As formas de ação da nova etapa imperialista contra a América Latina também ficaram ainda mais claras nas ameaças explícitas feitas por Trump ao México e à Colômbia e, só ligeiramente veladas, ao Brasil.
Um ataque direto ao Brasil
Se os Estados Unidos, em seu longo caminho imperialista, alinham em seu histórico de relações com a América Latina a doutrina Monroe (América para os americanos, 1823), o “Big Stick” de Roosevelt (1901-1909), os inúmeros golpes de estado e ditaduras que patrocinou nos anos 1960 e 1970, entre outras iniciativas, o ambiente que se descortina a partir da invasão da Venezuela, para Rezende “significa um domínio sem precedentes sobre as lideranças políticas opositoras a Trump”.
Uma coisa, diz o cientista político, “é governos indesejados serem (também ilegalmente) derrubados e democracias funcionais, como a chilena e a brasileira, propositalmente terminadas, como houve nos anos 1960. Outra bem diferente é um precedente de um desafeto político, chefe de Estado incumbente, ter seu país invadido e ser sequestrado para ser julgado nos EUA. Isso muda qualquer cálculo político”. Assim, não há, por exemplo, mais lugar para o Brasil como mediador em questões do interesse de Trump. Rezende ainda acredita, entretanto, nas virtudes de acordos como o do Mercosul com a União Europeia para a manutenção de algum real jogo democrático na região.
Safatle nos apresenta uma outra proposta. Ele reitera que o ditatorial governo de Maduro foi, sim, catastrófico, “o que não muda em nada o fato de nenhum país ganhar com isso autorização de invasão e de tomada de governo”. Lembra que “faz parte da história das práticas imperialistas escolher qual governo autoritário será apoiado e qual será destruído. E o critério é simplesmente não estar mais alinhados aos interesses das potências coloniais”. E num trecho crucial de seu artigo, que destaco abaixo, afirma que está em cena “algo ainda mais dramático para nós, brasileiros”.
“É claro que nesse novo colonialismo norte-americano da América Latina, os dois países que colocam problemas para tal estratégia são México e Brasil. E dentre esses dois o problema principal é o Brasil, que tem sua estratégia geopolítica própria e mostrou ser capaz de praticá-la sem precisar do aval dos EUA, isso enquanto o México tem uma economia muito dependente para pensar em voos maiores. Ou seja, o alvo principal nessa fase de retorno ao imperialismo explícito é o Brasil. O ataque contra a Venezuela, não foi apenas contra a Venezuela: foi contra o Brasil.”
Safatle vê à frente “um horizonte de guerra contínua”. Entende que antigas promessas de estabilidade e de governança mundial do capitalismo, que, na verdade, nunca foram reais, já não conseguem iludir ninguém. “Ao menos agora não vamos ter que lidar com tamanho cinismo. Nessa nova fase do colonialismo, as razões são claras. As defesas também terão de ser.”
Faço uma pequena volta: enquanto lia comentários e análises mais acuradas sobre a ação criminosa dos Estados Unidos na Venezuela, havia insistentemente, num segundo plano de minha atenção, um pequeníssimo vídeo de 28 segundos da filósofa Marilena Chauí que, há pouco mais de uma semana, começou a circular nas redes, no qual ela diz: “Não tem capitalismo ético, isso é impossível por definição, é uma contradição nos termos! Na medida em que o capital só existe porque ele explora o trabalho, porque ele se apropria da mais-valia pelo trabalho não pago, e porque ele reduz os trabalhadores ao chão mínimo da existência, como se pode esperar que o capital seja o portador da ética? Ele é o impossível para a ética!”
Ora, procurando referências, descobri que ele é um pequeno extrato de uma entrevista de Marilena Chauí (https://share.google/dy777A6WjrXM243Wo) justamente para Vladimir Safatle – uma conversa entre filósofos —, com data de 30 de outubro de 2025. Em determinado momento dessa conversa, ela diz, “com Trump, o que nós entendíamos por política, vai desaparecer”. Tal percepção clara ela teve em dois momentos: primeiro, quando viu o presidente dos Estados Unidos, ante a pergunta de um jornalista sobre por que decidira adotar o tarifaço, responder apenas, “porque posso”. Se ele já tinha sido eleito na forma do espetáculo, ela pondera, “agora estava em cena a forma da vontade tirânica, individual, pessoal”. E a sua leitura foi a de que, se isso se tornar hegemônico no mundo ocidental, a política tal qual conhecíamos desaparecerá.
O segundo momento de reiteração dessa percepção foi quando ela viu nas páginas centrais da revista espanhola Vanguardia, a imagem de Trump cercado pelos empresários do Vale do Silício que fazem parte de seu governo. “Todos, das armas aos medicamentos, tudo! É uma coisa assustadora!”
O olhar de Marilena Chauí, onde cabem ao mesmo tempo uma consideração lapidar sobre o capital e a ética e sobre o que há de assustador na vontade tirânica de Trump, nos leva de volta, sem muitos solavancos, à pergunta do título desse artigo. E, simultaneamente, a pensar na provocação de Vladimir Safatle: as nossas defesas terão que ser claras, se as razões dessa etapa do imperialismo em que entramos estão às escâncaras.
Em outras palavras, somos nós, começando com as multidões organizadas nas ruas, no Brasil, na América Latina e no mundo inteiro, que podemos deter Trump e tentar enfrentar com outra política a política mortal do imperialismo. A política crua do capital. O horizonte possível responde pelo nome de socialismo, e é preciso tentar de novo, certamente com os movimentos sociais e todas as minorias incluídas, criar os caminhos para construí-lo.
Mariluce Moura

Jornalista e pesquisadora, Mariluce Moura, nascida em Salvador-Bahia em 03/11/1950, é diretora-presidente do Instituto Ciência na Rua, organização não governamental de pesquisa e jornalismo de ciência voltada ao público jovem. Atualmente é também pesquisadora do INCT Combate à Fome, vinculado à USP, em seu eixo temático de Comunicação-Difusão Científica e Ciência Cidadã, e do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (Sou Ciência), vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atua no campo do jornalismo científico desde 1988, depois de duas décadas de trabalho no jornalismo geral e econômico em grandes jornais e revistas brasileiros. Criou e foi diretora, de 1999 a 2014, da revista Pesquisa Fapesp, editada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Deu início à implantação do setor de comunicação dessa fundação em abril de 1995 e foi sua gerente de comunicação de dezembro de 1995 a julho de 2002. É professora titular aposentada da Universidade Federal da Bahia, reintegrada em dezembro de 2015, por decisão da Comissão da Anistia/Ministério da Justiça, 40 anos após ter sido demitida por perseguições políticas da ditadura militar de 1964-1985. É graduada em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (1972), mestra (1987) e doutora (2006) em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e tem um pós-doutoramento pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp, 2019). Lançou no Memorial da Resistência de São Paulo, em outubro de 2023, por ocasião dos 50 anos do assassinato pela ditadura de Gildo Macedo Lacerda, seu marido, o livro A revolta das vísceras e outros textos, edição ampliada de seu romance premiado publicado em 1982. No mesmo ato, Tessa Moura Lacerda, sua filha, professora de filosofia da USP, lançou Pela memória de um paí[s]: Gildo Macedo Lacerda, presente!. Mariluce Moura foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.




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