Betty Almeida
Os puritanos ingleses que saíram da velha Inglaterra para o Novo Mundo achavam que sua missão, de natureza divina, era construir uma nova sociedade, pura e perfeita. Isto implicava em ter reconhecida sua superioridade sobre o resto da humanidade, em especial as populações nativas, que deveriam ceder espaço à ocupação civilizadora. Os descendentes dos nativos até hoje são considerados subalternos, sujeitos ao primado dos colonizadores do mundo. Essa ideia prosperou e predominou através dos séculos, até chegar ao estágio em que os Estados Unidos consideram-se a polícia do mundo, incluindo os europeus em sua jurisdição hegemônica, noção reforçada depois do papel na vitória contra o nazismo na segunda guerra. Mas essa polícia age, como muitas polícias, como bandidos da pior espécie. A lista dos crimes dos governantes dos EUA é extensa e assustadora.
Em 1953, o primeiro-ministro nacionalista do Irã, Mohammed Mossadegh, que não queria entregar a exploração do petróleo do país aos EUA, foi derrubado pela CIA e os serviços secretos britânicos e mandado para a prisão. O presidente dos EUA era Dwight Eisenhower. No Brasil, em 1964 um golpe militar apoiado pelos EUA, governados por Lyndon Johnson alijou do governo o presidente João Goulart, que foi substituído por uma ditadura militar. Em 1965 o general Sukarno foi derrubado do governo da Indonésia e substituído pelo general Suharto, que em uma semana assassinou mais de meio milhão de membros do Partido Comunista Indonésio, o maior do mundo na época. A guerra contra o Vietnã arrastou-se de 1955 a 1975, entre Kennedy e Lyndon Johnson. O exército dos EUA não conseguiu vencer militarmente guerrilheiros mal alimentados e seminus e sua derrota política levou os EUA a deixar o país. Em 1973 os Estados Unidos governados por Lyndon Johnson derrubaram e mataram o presidente Salvador Allende, eleito segundo os processos e rituais democráticos. Os EUA, sob o governo de George W. Bush, invadiram o Iraque em 2003 e prenderam Saddam Hussein, o presidente, conduzido aos Estados Unidos, onde foi julgado e condenado à morte. Saddam foi executado em 2006. Muhammar Khadafi, chefe de estado da Líbia, foi assassinado em 2011 (quando o presidente dos EUA era Barack Obama) e seu cadáver vilipendiado na rua, por uma multidão enraivecida, instigada diretamente pelos EUA.
No século XIX James Monroe, então presidente dos EUA estabeleceu uma política que ficou conhecida como Doutrina Monroe, sintetizada pelo slogan: A América para os americanos. Há uma questão de linguagem envolvida: o continente inteiro se chama América, em homenagem a Américo Vespucci, ou Américo Vespúcio, o navegador italiano que primeiro teria mostrado a existência daquela terra. Mais tarde, depois da independência dos habitantes da região norte do continente, um país ali se estabeleceu e foi chamado de Estados Unidos da América. América então, passou a ser o nome do continente e do país. O continente tem um estreitamento ao centro, que praticamente o divide em dois: um é a América do Norte e o outro a América do Sul, existindo ainda um trecho no meio, chamado América Central. A hegemonia política e econômica dos Estados Unidos da América, consolidada depois do papel desempenhado na vitória sobre o nazismo na segunda guerra mundial, é também cultural e faz com que os nacionais do país sejam denominados “americanos”. Determina ainda que os naturais dos países da parte central e sul do continente, em alusão à ocupação pela Espanha e Portugal, sejam chamados “latino-americanos”. América Central e América do Sul juntas transformaram-se em América Latina. Atualmente, procura-se não usar o nome de “americano” para designar os naturais dos Estados Unidos da América. Eles passaram a ser nomeados “estadunidenses”.
Os Estados Unidos, desde o século XVIII, têm uma influência importante sobre a economia dos países da América do Sul. Essa influência inclui interferir nas economias desses países, obstaculizando sua industrialização e tornando esses países reservatórios de recursos naturais a serem, quando necessário, utilizados pelos EUA. A referência insultuosa à América do Sul como “quintal dos EUA” reflete a visão dos EUA em relação aos países da parte sul do continente. Países rebeldes, como Cuba e Venezuela, sofrem sanções que inibem o comércio com outros países do mundo. Seus cidadãos, especialmente em Cuba, sofrem a falta de diversos produtos, o que prejudica imensamente a vida de suas populações. Cuba sofre a falta de medicamentos devido ao bloqueio econômico imposto pelos EUA há 66 anos.
Os governantes dos países da América do Sul e América Central que tentam estabelecer políticas nacionalistas sempre encontram a violenta resistência dos governos dos EUA. Militares nacionalistas no Peru e na Bolívia foram depostos e o mesmo acontece recorrentemente com governantes civis em outros países. Outras modalidades de controle são o assassinato, o golpe institucional ou parlamentar, como aconteceu com Manuel Zelaya em Honduras em 2009, com o presidente Fernando Lugo no Paraguai em 2012, e com Dilma Roussef no Brasil em 2016. Candidatos com programas políticos que não apoiam os EUA sofrem frequentemente derrotas eleitorais, pois seus adversários sempre dispõem de recursos muito abundantes, que lhes garantem a vitória.
Em todo o mundo, e em especial na América do Sul e América Central, os EUA usam a política do Big Stick, de seu presidente Theodore Roosevelt, que acreditava em usar a diplomacia mas principalmente em impor a política de interesse dos EUA pela força, inclusive militar, em caso de resistência local.
A situação atual, entretanto, ultrapassa as visões mais inacreditáveis. Os Estados Unidos, encurralados pelo fim da supremacia do dólar e ameaçados com a ascensão da China socialista e da Rússia, potências econômicas e militares que rivalizam hoje com seu poderio decadente, decidem, sob o comando insano do seu presidente Donald Trump, ocupar a Venezuela, país onde se encontram as maiores reservas de petróleo conhecidas no planeta. A decisão não foi resultado de consulta ao Congresso, nem passou por consulta ao Conselho de Segurança da ONU: foi tomada arbitrariamente pelo presidente.
Quando decidiram invadir o Iraque, os EUA inventaram um pretexto: o Iraque estaria construindo armas atômicas. Os Estados Unidos possuem um arsenal atômico suficiente para destruir o mundo várias vezes, mas em sua posição de polícia do mundo, acham que têm o direito de impedir outros países de possuir armas atômicas para se proteger (Irã e Coreia Popular desafiaram os EUA). A acusação contra o Iraque era falsa. O pretexto para invadir a Venezuela e sequestrar seu presidente é igualmente absurdo e grotesco: o presidente Nicolás Maduro é acusado de ser traficante de drogas. Ele e Cilia Flores, sua esposa, deputada, foram sequestrados pelo governo dos EUA, que segundo Trump, promoverá seu julgamento pelas leis dos EUA.
A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, foi declarada pelo Tribunal Supremo de Justiça presidente em exercício durante a ausência forçada de Maduro, que continua a ser o presidente do país. Delcy manifestou sua lealdade a Maduro, que ela reconhece como presidente legítimo, apesar de sua ausência forçada. Donald Trump proclama que assumirá a exploração de petróleo da Venezuela, confirmando que o motivo do sequestro do presidente e de sua esposa e da intervenção na Venezuela foi de fato a exploração do petróleo.
O ato de Trump, além de violar a soberania da Venezuela, e atentar contra a autoridade de seu presidente, abre um precedente gravíssimo na América Latina. É de se temer, a partir de agora, que toda vez que um país da América do Sul tiver riquezas cobiçadas pelo governo dos EUA, seus chefes de estado estarão sob o risco de serem sequestrados e o país poderá sofrer a intervenção dos EUA. Nicolás Maduro, eleito segundo os rituais democráticos em 2023, é tratado de ditador. Na época de sua eleição, a oposição, inconformada com a derrota, promoveu uma onda de agitação contra a vitória de Maduro, confirmada pelos tribunais eleitorais. Sua adversária Corina Machado, em claro acinte, foi agraciada com o prêmio Nobel da Paz, apesar de pedir a intervenção militar dos EUA em seu país, o que agora foi concretizado. Diante do destino de Saddam e de Khadafi, deve-se temer pela vida de Maduro e assegurar sua defesa à luz do direito internacional e da carta da ONU.
Vários países, como Colômbia, Bolívia, Peru (que rompeu o tratado de cooperação militar com os EUA, firmado em 6 de dezembro de 2025) e Cuba, declararam seu repúdio ao ato dos EUA e exigem a devolução de Nicolás e Cilia Maduro. China e Rússia condenaram o ataque à Venezuela e o sequestro, A França apoia a ação contra Maduro, a Alemanha faz críticas tímidas. Países como o Irã afirmaram que continuarão o apoio tecnológico para que a produção de petróleo na Venezuela não sofra obstáculos e descontinuidades. Lula condenou o ataque e conclamou a ONU a “responder de forma vigorosa” ao episódio.Os Brics devem apoio à Venezuela, mas enfrentam o risco da retaliação dos policiais do mundo, com seu big stick que já se abateu sobre a Venezuela e recentemente, sobre a Nigéria. Mas a ação de Trump é indefensável, e mesmo uma ONU fraca, como se mostrou na recente guerra de Israel contra Gaza, tem o dever de tratar com seriedade o problema, e evitar que a América Latina sucumba sob o big stick de Trump.
À luz da geopolítica, um aspecto da ação de Trump não pode ser ignorado: é uma provocação aberta à China e Rússia, que aumentam sua influência na América Latina. Donald Trump, desesperado, não hesitaria em lançar o mundo em uma terceira grande guerra para tentar recuperar sua hegemonia mundial e barrar a multipolaridade que avança.Podemos considerar ainda que, no quadro da luta de classes em escala internacional e na reorganização da divisão de trabalho no mundo, surge um novo impulso nos anseios de independência dos países da América Latina, que não querem, definitivamente, continuar a ser “quintal” dos Estados Unidos e compreendem que, sem remover os obstáculos ao seu desenvolvimento impostos pela dominação econômica dos Estados Unidos, estarão sempre relegados à subalternidade, apesar de seus diversos e abundantes recursos naturais, capazes de garantir um desenvolvimento econômico que permita o fortalecimento de suas classes trabalhadoras e abra perspectivas para a transformação social sob a direção dessas classes.
Betty Almeida

Professora aposentada do Departamento de Química da Universidade Federal da Paraíba, onde participou do sindicato nacional dos professores universitários (ANDES). Escreveu uma biografia do líder estudantil Honestino Monteiro Guimarães e é militante por direitos humanos, em especial dos mortos e desaparecidos da ditadura de 1964.




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