Apesar da demonstração de força na Venezuela, Trump terá muitos problemas

Robério Paulino

A ação espetaculosa de Trump na Venezuela deu uma demonstração de muita força do imperialismo norte-americano para o mundo, mas as coisas não serão bem como eles querem, não serão fáceis para eles também. Nada como um dia atrás do outro.

Como nos ensinaram Hegel, Marx e Engels, a realidade se move por contradições. As coisas não serão fáceis para nosso campo, mas tampouco para Trump e o imperialismo ianque. Várias são essas contradições:

1 – O regime chavista ainda não está desmontado. Houve toda uma educação nacionalista das FFAA e do povo nas últimas décadas. Eles agora vão aceitar se ajoelhar perante Trump, entregar toda riqueza do petróleo do país, abrir mão de qualquer soberania nacional e aceitar calados as exigências e ditames dos EUA? Difícil. Vai ter muito conflito, muitas contradições.

Trump disse que iria montar um novo governo dele, gerir a Venezuela diretamente. Agora Marco Rubio e o representante dos EUA na ONU já mudaram o discurso, dizendo que querem sim que o governo chavista, que continuaria, acate suas exigências. Temem um novo atoleiro, como no Iraque.

Eles haviam dito também que iriam governar a Palestina diretamente, com Tony Blair na cabeça. Não vingou.

2 – As contradições no aspecto econômico para as ambições de Trump são imensas também. Hoje, o maior parceiro comercial da maioria dos países latino-americanos é a China, não mais os EUA, como acontecia há 30 anos. A pergunta é: eles querem limitar a presença chinesa, mas vão comprar tudo que a AL exporta hoje para a China? Claro que não, porque o protecionismo deles está exatamente buscando reduzir o imenso déficit comercial dos EUA com o mundo. E os países latino-americanos aceitarão não vender e comprar mais da China, afundando sua economia? Claro que não. O próprio empresariado de direita não vai concordar com isso.

Os próprios EUA foram obrigados a recuar das barreiras que impuseram à China e ao Brasil no início de 2025, porque não conseguem mais produzir os itens embargados e os preços internos dispararam, obrigando-os a recuar. Será muito difícil para eles darem marcha ré completa na desindustrialização do próprio pais feita pelo liberalismo radical, de 1980 para cá.

3 – China e Rússia estão observando, mas aceitarão caladas serem expulsas desses mercados na AL? O México e o Canadá aceitarão facilmente serem subjugados como colônias submissas? Difícil. A Europa aceitará perder a Groelândia? Isso pode romper ou levar a muitas fissuras na própria OTAN. Vai ter muita confusão, muitos rachas. Não vai ser um passeio para Trump.

4 – A maior contradição, no entanto, será a reação do movimento de massas. Com certeza, há muita gente apoiando as ações de Trump, pelo perfil ditatorial do regime de Maduro. Mas a maior parte da população do mundo e da AL estará cada vez mais contra essas ações de violência imperialista. Uma pesquisa divulgada no dia 05/01 pela Reuters/Ipsos, revelou dois terços dos norte-americanos não apoiam a ação de Trump na Venezuela. Na Europa é provável ser igual, talvez mesmo entre grande parte do público de direita. A posição de Marie Le Pen na França não foi a toa. Essa questão da Groelândia está soando muito mal aos ouvidos dos europeus. Na América Latina, provavelmente a maioria das populações não apoia o que Trump fez, com exceção de setores muito pró-imperialistas de direita radical. E muita gente vai para a rua, indignada. Vamos esperar as pesquisas. Soa muito mal às populações ações de desrespeito, arrogância e ameaças como essa dos EUA na Venezuela.

Por fim, a maior contradição é o que vai se passar nos EUA, com a população, o movimento de massas, que se levantou nos últimos anos e historicamente se opõe a ações bélicas no exterior. Domingo (04/01) houve manifestação em dezenas de cidades dos EUA e da Europa, que devem crescer nas próximas possíveis investidas de Trump contra outros países como Colômbia, Cuba, Dinamarca/Groelândia. A intelectualidade norte-americana não apoia Trump. Há vozes dissonantes no Congresso. A reação interna é o que poderá amarrar as mãos de Trump.

Com esses elementos, o que quero dizer é que será difícil para nós. Não teremos uma semana de sossego esse ano. Mas tampouco tudo será fácil para Trump e os imperialistas. As contradições movem a realidade.


Robério Paulino

Economista formado pela USP, Professor Doutor no Instituto de Políticas Públicas da UFRN. É militante socialista há 50 anos, tendo sido um dos fundadores do PSOL. É também um dos  idealizadores do Projeto Arboriza Natal



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