Lígia Bacarin
O objetivo deste artigo é iniciar uma série sobre o “Caso Jeffrey Epstein” para além da superfície do escândalo midiático e da crônica policial. Proponho aqui uma reconstrução historiográfica pautada pelo materialismo histórico-dialético, compreendendo Epstein não como um indivíduo isolado dotado de uma maldade excepcional, mas como um sintoma patológico necessário das estruturas do capital financeiro contemporâneo.
Para navegar pelas águas turvas desse sistema, utilizaremos como bússola a série televisiva Devils, baseada no romance de Guido Maria Brera. Na trama, o poder não reside em governos visíveis, mas na capacidade de manipular fluxos de informação e dívidas de forma soberana. O mundo da alta finança é apresentado não como um mercado de trocas, mas como uma guerra onde “o segredo mais bem guardado do diabo é que ele não existe”. Epstein operou exatamente nessa zona de sombra: o “vácuo” entre a legalidade e a influência, onde o corpo humano é reificado e transformado em capital político.
A série de artigos está dividida em três partes fundamentais, que buscam dar conta da totalidade desse fenômeno. Na Parte I, o foco está na base material do seu império. Analisamos como ele se inseriu no âmbito da elite global, utilizando jatos particulares e ilhas como infraestruturas de poder. Neste cenário, a analogia com Devils nos ajuda a entender a figura do “facilitador” financeiro que se torna indispensável para a manutenção da hegemonia da burguesia.
A conexão com o caso real é imediata e cortante. Assim como os personagens da ficção, Epstein não era um produtor de bens; ele era um nó em uma rede de fluxos de capital. Ao entendermos que “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem” (MARX, O 18 de Brumário de Louis Bonaparte), percebemos que o financista construiu seu império nas fissuras das relações de produção tardo-capitalistas, onde a fronteira entre o público e o privado é deliberadamente obscurecida para permitir a acumulação por espoliação. Ele é o “Dominic Morgan” da vida real: um homem que compreendeu que o poder real no século XXI reside na posse de informações e segredos sobre aqueles que gerem o Estado.
Essa engrenagem humana só se sustenta devido a uma estrutura que conceituarei como acumulação primitiva de influência. Através do capital financeiro, Epstein não buscava apenas o lucro monetário, mas a construção de uma rede de dependências e favores. Ao financiar o luxo e os desejos de figuras do alto escalão, ele transformava dinheiro em proteção jurídica, consolidando um capital social forjado na exploração e no silêncio alheio.
Ao historicizar seu surgimento no cenário global em meados dos anos 80 e 90, percebemos que ele não é fruto de “genialidade”, mas da própria financeirização da economia. Como aponta Marx no Volume III de O Capital: “O sistema de crédito […] desenvolve-se como a forma mais colossal de jogo e fraude.” Epstein utilizou a Tower Capital e sua associação com Leslie Wexner para criar uma base material de riqueza. No entanto, seu verdadeiro trunfo era o que Pierre Bourdieu chamaria de capital social e simbólico, convertido aqui em uma ferramenta de coerção.
A rede documentada através dos infames “Registros de Voo do Lolita Express” revela a infraestrutura da classe dominante. Figuras como Bill Clinton, o Príncipe Andrew e Donald Trump não eram apenas “amigos”, eram componentes de um bloco de poder que mantinha a hegemonia através da mútua proteção. Essa acumulação exigia um insumo material constante: a reificação do corpo, onde o tráfico humano opera sob a lógica da mercadoria.
Devemos, portanto, olhar para a base econômica desse abuso. O corpo feminino — especificamente o de jovens vulneráveis do proletariado — foi transformado em valor de troca. Marx afirma nos Manuscritos Econômico-Filosóficos: “A prostituição é apenas uma expressão particular da prostituição geral do trabalhador.” No esquema de Epstein e Ghislaine Maxwell, a exploração sexual funcionava como uma moeda de troca diplomática. O recrutamento de meninas, prometendo “carreiras de modelagem”, reflete a promessa ilusória de ascensão social sob o capital, resultando na reificação total do ser. A “ilha” (Little St. James) funcionava como um espaço de exceção soberana, onde as leis da metrópole eram suspensas em favor da libido do capital — dinâmica que remete ao filme Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick.
À vista disto, em vez de olharmos para as vítimas como um “resíduo social”, devemos enxergá-las como o estrato mais vulnerável dessa equação. Como observa Heleieth Saffioti em A Mulher na Sociedade de Classes: “O capitalismo não apenas explora o trabalho, mas utiliza as hierarquias de gênero para empurrar a mulher para as margens da produção”. Epstein e Maxwell procuravam jovens cuja pobreza sistêmica as tornasse invisíveis. Na série Succession, essa invisibilidade é o que permite que os crimes ocorram: se a pessoa não tem “peso” no mercado de capitais, ela é tratada como um incidente “NRPI” (No Real Person Involved).
Para que a mercadoria humana circulasse sem entraves, o Estado atuou como o comitê de gestão da burguesia. O “acordo de não persecução” de 2008 na Flórida, onde Epstein cumpriu apenas 13 meses em regime aberto, torna literal a tese do Manifesto Comunista. O sistema jurídico não falhou; ele funcionou para proteger um gestor de segredos da elite contra as consequências de seus atos.
Nada exemplifica melhor esse controle do que a dialética do silêncio imposta pelo seu desfecho. A morte de Epstein em 10 de agosto de 2019, no Centro Correcional Metropolitano de Nova York, permanece como o ápice da contradição sistêmica. Oficialmente um suicídio ocorrido sob circunstâncias inexplicáveis, o evento serviu para interromper o processo de descoberta (Discovery) que poderia desestabilizar instituições fundamentais do capitalismo global. Epstein tornou-se um passivo que precisava ser liquidado para a preservação do sistema.
Ele era o reverso sombrio do sonho americano: a prova de que a concentração de riqueza leva a uma forma de feudalismo tecnológico e sexual. Sua relação com Ghislaine Maxwell ecoa a dinâmica de cumplicidade vista em The Handmaid’s Tale, onde mulheres de certas classes colaboram com o patriarcado para manter seus privilégios.
Em decorrência destes fatos, o caso não é um “erro”, mas um sintoma. A liberação dos documentos em 2024 e 2025, revelando conexões com o Vale do Silício e nomes como Jean-Luc Brunel, confirma que a rede era uma estrutura orgânica. Como disse Rosa Luxemburgo: “A justiça das classes burguesas foi novamente como uma rede que permitiu que os tubarões assassinos escapassem, enquanto prendia as pequenas sardinhas.”
Contudo, nenhuma estrutura de poder se sustenta apenas com capital; ela exige uma logística da dominação humana. No próximo artigo, mergulharemos na Parte II: A Gerente da Barbárie, onde analisaremos Ghislaine Maxwell. Através do feminismo materialista, investigaremos como a divisão sexual do trabalho foi distorcida para criar uma “gerência da exploração”. Não perca a continuação desta análise.
Referências Bibliográficas e Fontes de Consulta
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro III. Boitempo Editorial.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Penguin Companhia.
BROWN, Julie K. Perversion of Justice: The Jeffrey Epstein Story. Dey Street Books, 2021.
U.S. DISTRICT COURT. Case 1:15-cv-07433-LAP (Giuffre v. Maxwell) – Unsealed Documents 2024. Acesse aqui via CourtListener.
THE GUARDIAN. The Epstein Files: What we learned from the unsealed documents. Link para o artigo.
SAFFIOTI, Heleieth. A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. Editora Expressão Popular.
SÉRIE: Devils (I Diavoli). Criada por Ezio Abbate, Sky Italia/Orange Studio.
FEDERICI, Silvia. O Ponto Zero da Revolução: Trabalho Doméstico, Reprodução e Luta Feminista. Editora Elefante.
DOCUMENTOS JUDICIAIS (Atualizados 2024): Consulta via DocumentCloud – Caso Epstein/Maxwell.
ANÁLISE ECONÔMICA: “The Financial Networks of Jeffrey Epstein” – Financial Times (2019-2024).
Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.





Deixe um comentário