Ligia Bacarin
No palco do Globo de Ouro, ao ser premiado por sua atuação em O Agente Secreto, Wagner Moura fez um discurso que transcendeu a etiqueta da Indústria Cultural. Ao afirmar que “se o trauma pode ser passado através de gerações, os valores também podem”, o ator não apenas tocou em uma ferida psicológica, mas convocou uma reflexão necessária sobre a materialidade da nossa história. Para entender o que Moura chama de “trauma geracional”, é preciso despi-lo de qualquer verniz puramente subjetivo e encará-lo sob a luz da história: o trauma, no Brasil, é uma ferramenta de dominação de classe.
Diferente das abordagens “psicologizantes” que tratam o trauma como um evento isolado na psique individual, o trauma transgeracional em países periféricos é um subproduto direto da acumulação primitiva de capital. A escravização de povos africanos e o genocídio indígena, por exemplo, não foram “excessos” morais, mas o motor econômico que estruturou o Estado brasileiro.
A desestruturação de laços familiares, a supressão de línguas e o apagamento de rituais, processos citados por Moura como parte da perda de memória, serviram a um propósito objetivo: a transformação do ser humano em mercadoria despojada de identidade. Um povo sem memória é um povo mais fácil de ser explorado, pois a alienação de sua própria história impede o reconhecimento de sua condição de classe.
O filme, ambientado em 1977, retrata o auge da repressão da ditadura militar brasileira. Ali, o trauma geracional foi manufaturado pelo Estado. A tortura e o desaparecimento forçado não visavam apenas o corpo do militante, mas a mente da classe trabalhadora.
O “legado de medo” que ainda ecoa em nossas periferias e sindicatos é uma forma de alienação ampliada. O trauma atua aqui como uma força de desmobilização: ele naturaliza a precariedade, internaliza narrativas de inferioridade e fragmenta a solidariedade orgânica entre os oprimidos. O trauma é, portanto, o resíduo psíquico da luta de classes, utilizado pela hegemonia para garantir que a resistência do passado não se organize no presente.
A máxima de Wagner Moura sobre a transmissão de valores é o ponto de virada dialético desta análise. Se a classe dominante transmite o trauma para paralisar, a classe trabalhadora transmite a resistência para emancipar.
A recuperação da memória histórica, seja através do cinema, da literatura ou da ocupação de espaços de poder, não é um exercício de nostalgia, mas um ato de consciência de classe. Entender que nossa dor possui raízes na exploração econômica permite-nos mover o debate da vitimização para a ação política.
A cura para o trauma geracional no Brasil não se dará apenas em consultórios, mas na esfera pública, através da destruição das estruturas que continuam a produzir essa violência. O “Viva o Brasil” e o “Viva a cultura brasileira” bradados por Moura devem ser lidos como um grito de resiliência de uma classe que se recusa a ser apagada.
Se o trauma geracional é a cicatriz da luta de classes, a Indústria Cultural é o aparato que decide como essa cicatriz será exibida ou escondida. No capitalismo periférico, a memória histórica corre o risco constante de ser transformada em mercadoria cultural, esvaziada de seu potencial de mobilização política.
A Indústria Cultural possui uma capacidade voraz de absorver a dor das classes oprimidas e transformá-la em conteúdo de entretenimento. Quando o trauma geracional, a dor da escravidão ou da ditadura, é retratado apenas pelo viés do sofrimento individual ou do melodrama, ele é despolitizado. O espectador consome a catarse emocional, mas a estrutura econômica que gerou aquela violência permanece intocada.
Nesse sentido, a obra de arte que se pretende crítica enfrenta um dilema material: ela precisa do financiamento e da distribuição das grandes corporações para existir, mas essas mesmas corporações tendem a “limpar” o conteúdo radical para torná-lo palatável ao mercado global.
O Agente Secreto, inserido no circuito de premiações globais, exemplifica essa contradição. Por um lado, utiliza a infraestrutura da Indústria Cultural para romper o silêncio e denunciar a repressão de 1977. Por outro, o sistema de premiações (como o Globo de Ouro) funciona como um validador de prestígio que, muitas vezes, coopta o discurso de resistência para fortalecer a imagem “liberal e progressista” da própria indústria cinematográfica.
No entanto, a atuação de Moura e seu discurso marcam uma insurgência no coração do sistema. Ao politizar o trauma geracional em um espaço de elite, ele subverte a lógica do puro entretenimento, transformando o evento cultural em uma tribuna para a consciência histórica.
Uma das funções mais insidiosas da Indústria Cultural é a produção do “eterno presente”. Através do bombardeio constante de informações descartáveis, ela dificulta a construção de uma narrativa histórica contínua para a classe trabalhadora. O trauma é mantido no campo do “passado distante”, impedindo que os sujeitos percebam que a exploração sofrida pelos seus antepassados é a mesma que, sob novas roupagens, precariza suas vidas hoje.
A fala final de Moura, “Viva a cultura brasileira”, deve ser entendida como uma defesa da cultura produzida pelo povo e para o povo, em oposição à cultura de massa imposta de cima para baixo. A verdadeira cultura nacional é o registro material da nossa sobrevivência. Ela é o repositório dos valores de resistência que o ator mencionou: as táticas de sobrevivência quilombola, as greves operárias silenciadas e as estratégias de organização clandestina.
Recuperar esses valores através da produção cultural não é apenas fazer arte; é realizar uma contraofensiva ideológica. É utilizar os meios de produção cultural para devolver à classe trabalhadora sua própria imagem e sua própria memória, transformando o trauma herdado em consciência revolucionária.
A Indústria Cultural tenta gerir o trauma geracional para que ele seja apenas um “tema” de temporada. Nossa tarefa, enquanto intelectuais e trabalhadores, é garantir que a memória histórica atue como um elemento desestabilizador. A cultura não deve ser o ópio que nos faz esquecer a dor, mas o espelho que revela as raízes de classe dessa dor e nos aponta o caminho para a superação definitiva das estruturas que nos traumatizam.
Entender o trauma geracional sob a ótica materialista é reconhecer que a justiça precisa ser integral: psicológica, cultural e, acima de tudo, econômica. A luta pela memória e pela verdade é indissociável da luta pela superação do capitalismo.
Os valores que Moura sugere que passemos adiante devem ser os de organização, de combate à alienação e de construção de uma nova narrativa histórica onde o trabalhador seja, finalmente, o sujeito de sua própria história e não apenas o herdeiro de suas cicatrizes.
Enfim, o papel de sujeitos históricos como Wagner Moura deve ser compreendido sob a ótica do intelectual orgânico, conforme definido por Gramsci: aquele que, embora inserido nas engrenagens da Indústria Cultural, utiliza sua posição de prestígio para articular os anseios e a memória histórica da classe trabalhadora. Ao pautar o trauma geracional em fóruns globais de elite, o artista atua como um mediador que retira a dor coletiva do campo do silenciamento privado e a projeta como uma questão política pública, desafiando a função anestesiante da cultura de massas. Essa atuação é fundamental para que a produção cultural deixe de ser mera mercadoria e passe a ser um instrumento de contra hegemonia, permitindo que a classe trabalhadora reconheça suas cicatrizes não como destinos inevitáveis, mas como evidências materiais de uma exploração que precisa ser superada pela organização e pela retomada do protagonismo histórico.
Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação, pós-graduação em Educação Especial e doutorado em Fundamentos da Educação. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.




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