Lígia Bacarin
Na última semana, mergulhamos no “Panteão de Sombras” de Jeffrey Epstein para entender como o capital financeiro opera em zonas de exceção. Vimos que, na lógica de séries como Devils, o poder reside na invisibilidade das redes e na extraterritorialidade das ilhas e jatos. Contudo, para que essa infraestrutura de luxo e impunidade funcione, o capital exige algo mais do que números em uma conta no JP Morgan: ele exige trabalho vivo.
Se na Parte I analisamos o esqueleto financeiro dessa rede, nesta segunda etapa precisamos olhar para a sua engrenagem humana. O capital é, por definição, trabalho morto que só ganha vida ao sugar a vitalidade do outro. No centro desse processo de “sucção” e recrutamento, não encontramos apenas um vício individual, mas uma gestão técnica impecável personificada em Ghislaine Maxwell.
Condenada em 2021 a 20 anos de prisão, a historiografia oficial muitas vezes a reduz ao papel de “namorada dedicada” ou cúmplice passiva. No entanto, sob a lente do materialismo feminista, Maxwell emerge como algo muito mais sistêmico: ela foi a gestora logística de um complexo sistema de extração de valor sobre o corpo feminino.
Enquanto Epstein provia o lastro financeiro, Maxwell operava a divisão sexual do trabalho, transformando a vulnerabilidade de jovens em mercadoria política e sexual para o deleite do panteão global. Se o capital é o mestre, Maxwell era a gerente de controle de qualidade da barbárie.
Me proponho a entender como uma mulher de alta classe se torna a peça-chave de uma engrenagem de abuso? Para isso, abandono explicações psicologistas para focar na base material: a gestão da exploração. Usando o referencial de Heleieth Saffioti e Silvia Federici, analiso como Maxwell operou a “precarização da vida” de jovens vulneráveis transformando corpos em moeda de troca diplomática.
O objetivo é entender por que a figura de Maxwell é o espelho real das “Tias” de The Handmaid’s Tale e como o capital utiliza o gênero para disciplinar e explorar.
I. Ghislaine Maxwell: A Gerente da Reprodução da Exploração
Historicamente a divisão sexual do trabalho não se limita ao ambiente doméstico, mas se estende a todas as formas de prestação de serviços e manutenção do poder. A condenação de Ghislaine Maxwell em 2021 a 20 anos de prisão por tráfico sexual revelou um papel que vai além da simples “cúmplice”. Maxwell atuava como a gestora da infraestrutura afetiva e logística do esquema.
Silvia Federici, em Caliban e a Bruxa, argumenta que o capitalismo exigiu a cooptação de certas mulheres para disciplinar outras:
“O corpo feminino foi transformado em um instrumento para a reprodução do trabalhador e para a expansão do capital. Aquelas que facilitam esse processo ocupam uma posição de classe específica na hierarquia da exploração.”
Maxwell não era uma vítima de Epstein; ela era um quadro técnico da elite. Sua função era o grooming (aliciamento), um trabalho imaterial que exigia capital cultural (seu status como filha do magnata Robert Maxwell) para normalizar o horror. Ela transformava o sequestro subjetivo de meninas em um “serviço” palatável para a alta burguesia.
Maxwell desempenhou o papel das “Tias” (Aunts) na obra The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), de Margaret Atwood. No livro, as Tias são mulheres que, em troca de migalhas de poder dentro de um sistema patriarcal brutal (Gilead), tornam-se as principais disciplinadoras e recrutadoras das outras mulheres. Maxwell era a “Tia Lydia” do jet-set global, provendo a mercadoria humana necessária para a manutenção dos laços de fidelidade entre os homens do poder.
II. Os Documentos de 2024: A Materialização do Bloco Histórico
A liberação de milhares de páginas de documentos em janeiro de 2024, oriundos do processo de Virginia Giuffre contra Maxwell, não trouxe apenas fofocas, mas a prova documental da rede de influência.
Os documentos detalham menções a figuras como o ex-presidente Bill Clinton, o Príncipe Andrew, Donald Trump e o cientista Stephen Hawking. Do ponto de vista dialético, a presença dessas figuras nas propriedades de Epstein ilustra o que Marx descreveu como a “fraternidade da classe dominante”. Quando interesses de classe estão em jogo, as diferenças políticas (democratas vs. republicanos, monarquistas vs. liberais) dissolvem-se em prol de um locus de prazer e impunidade compartilhados.
A inclusão de intelectuais e cientistas (como as doações de Epstein ao MIT e menções a Hawking) servia como capital simbólico. O capital não busca apenas prazer físico; ele busca legitimação intelectual. Epstein usava a ciência para criar uma aura de “transcendência” e filantropia que mascarava a base material de seus crimes.
III. A Vítima como Subproduto: A Reificação Total
As depoentes nos novos documentos descrevem um sistema de “massagens” que funcionava como uma linha de montagem fordista. Havia horários, metas de recrutamento e uma hierarquia rígida.
Aqui, a citação de Alexandra Kollontai é imperativa para entender a desumanização:
“A moralidade burguesa serve para manter a propriedade privada. Sob o capitalismo, o amor e o sexo tornam-se mercadorias, e o corpo da mulher pobre é o recurso natural mais barato a ser extraído.”
O esquema de Epstein era, portanto, uma indústria extrativista de trauma. Os documentos de 2024 revelam que a exploração não era um evento isolado, mas uma engrenagem que sustentava a coesão social da elite financeira. A ilha de Little St. James era o “espaço de consumo” final, onde o valor de uso do ser humano era totalmente aniquilado em favor do valor de troca do favor político.
O filme The Menu (O Menu, 2022) ilustra perfeitamente essa dinâmica. Nele, uma elite ultra rica consome não apenas comida, mas a própria vida e o esforço daqueles que servem, até que a própria existência do “servidor” seja consumida pelo “cliente”. Epstein oferecia o “menu” definitivo de poder: a posse total sobre o corpo do outro.
IV. A Justiça Burguesa e o Limiar do Escândalo
Por que o caso demorou tanto para vir à tona? O conceito de Aparelho Ideológico do Estado, nos ajuda na análise: A polícia de Palm Beach e o FBI possuíam evidências desde 2005. No entanto, como dizia Nicos Poulantzas, o Estado não é uma entidade neutra, mas a condensação material de uma relação de forças entre classes.
O fechamento do caso em 2008 foi uma decisão política para evitar o “contágio” da crise moral para as instituições. A reabertura em 2019 e a condenação de Maxwell em 2021 só ocorreram porque o custo político de manter o segredo tornou-se maior do que o custo de sacrificar dois indivíduos (Epstein e Maxwell) para salvar a classe.
Conclusão: Para além do Indivíduo
O caso Jeffrey Epstein, reforçado pelos documentos de 2024, prova que a barbárie não é o oposto da civilização burguesa, mas seu subproduto inevitável. Maxwell não foi uma “mulher cruel” em um vácuo; ela foi uma operadora logística eficiente em um mercado que demanda corpos jovens para azeitar as engrenagens da diplomacia paralela e da alta finança.
A luta contra esse tipo de rede não é apenas jurídica; é uma luta contra a estrutura que permite que o capital se torne soberano sobre a vida biológica.
A atuação de Maxwell prova que a barbárie não era um acidente, mas um projeto gerido com precisão logística. Contudo, uma rede dessa magnitude não sobrevive apenas com bons gerentes e capital financeiro; ela exige o silêncio e a proteção das instituições que, em tese, deveriam combatê-la. Se Maxwell operava a microfísica da exploração, o Estado garantia a macrofísica da impunidade. Na próxima semana, encerraremos esta série com a Parte III: A Engenharia do Silêncio, onde investigaremos como o aparelho estatal e a morte oportuna de Epstein funcionaram como o mecanismo final de autodefesa de um sistema que não pode se dar ao luxo de falar a verdade.
Referências Consultadas e Links para Aprofundamento
FEDERICI, Silvia. Caliban e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva. Editora Elefante.
KOLLONTAI, Alexandra. A Nova Mulher e a Moral Sexual.
UNSEALED RECORDS (2024): Documentos do caso Giuffre v. Maxwell. Disponíveis integralmente no repositório do DocumentCloud.
REPORTAGEM INVESTIGATIVA: “The Great Manipulator” – The New Yorker. Link para análise de influência.
TRANSCRITO DA CONDENAÇÃO DE MAXWELL: Departamento de Justiçados EUA (DOJ).
POULANTZAS, Nicos. As classes sociais no capitalismo hoje. Rio de Janeiro: Graal, 1990.
Lígia Bacarin

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação, pós-graduação em Educação Especial e doutorado em Fundamentos da Educação. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.




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