Nota breve sobre a ideia de formação teológica em Juan Luís Segundo

Romero Venâncio (UFS)

Um teólogo/intelectual de rara envergadura. Um cristão de profunda espiritualidade. Um dos mentores da teologia da libertação. Soube como poucos enfrentar o processo de secularização que nos seu Uruguai chegou ao ponto mais alto na América Latina. Lembrar Juan Luís Segundo é lembrar um teólogo que marcou minha formação e me fez repensar quase tudo em termos de catolicismo/cristianismo (sem medo, sem niilismo, sem ilusões com hierarquia e convencido do potencial libertário da mensagem evangélica).
Dois de seus vários livros foram de importância fundamental em minha geração nos anos 80 quando estávamos fazendo teologia no ITER (Instituto de Teologia do Recife):

  • “A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré. Dos Sinóticos a Paulo”
  • “Libertação da Teologia”

Esse “A história perdida…” parecia uma espécie de manual, que junto com o livro de Joaquim Jeremias sobre o Novo Testamento, liamos com empolgação. No meu caso, era momento de grandes descobertas e compreensão da fé numa chave que em nada parecia com aquele aprendizado paroquial que parecia infantil. Talvez estivesse errado, mas era assim que pensava naquela época ao ler o Juan Luís Segundo. Quanto ao impactante “Libertação da teologia”, até hoje me inquieta a tese de que era preciso mudar radicalmente a maneira de se fazer teologia numa teologia da libertação, caso contrário, a palavra libertação seria apenas um “Flatus vocis”, um adjetivo sem força substancial. Um dos livros mais “seculares” em teologia que li… Uma exigência rigorosa de se viver uma fé adulta (termo clássico de Juan Luís).


Agora, nada tornou o teólogo uruguaio tão conhecido entre nós, quanto os cinco volumes da “Teologia aberta” em que o foco era o que ele e seu “grupo de reflexão” chamou de “para leigo adulto”. Uma obra volumosa e fruto daquilo que marcou a vida, a pastoral e a capacidade intelectual de Juan Luís Segundo: uma teologia fruto de um grupo de reflexão que se reunia sistematicamente e estudava teologia pra valer… No mundo secular se faz cada vez mais necessário “dar razão da fé”. E o Concílio Vaticano II foi fundamental nessa caminhada. Juan Luís Segundo foi um teólogo conciliar com os pés fincados na América Latina…


Neste ano de 2025 em que celebramos os 100 anos de nascimento de Juan Luís Segundo e os 60 de encerramento do Concílio Vaticano II, seria bom fazermos uma reflexão ligando esses dois acontecimentos. Há uma extrema direita católica já toda armada para desqualificar o Concílio e todas as suas conquistas para a Igreja. A teologia de Juan Luís Segundo torna-se uma teologia de combate importante na defesa do Concílio Vaticano II e para além dele.

Romero Venâncio (UFS)

Professor associado da Universidade Federal de Sergipe desde 1998. Graduado em Teologia pelo ITER. Graduado em Filosofia. Mestre em Sociologia pela UFPB. Doutor em Filosofia pela UFPE. Pesquisador em pensamento Católico no Brasil.


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