Caso Epstein-Parte III

Lígia Bacarin

Neste encerramento da nossa série, deslocamos o olhar da infraestrutura econômica para a superestrutura política. Investigamos como o Estado, longe de ser um juiz imparcial, atuou como o garantidor final de um sistema de silenciamento. Se Epstein e Maxwell eram os operadores, os aparelhos ideológicos do Estado foram os escudos que permitiram que a barbárie permanecesse invisível aos olhos da lei, mas plenamente funcional para o panteão global.

Com base nas revelações de 2024 e 2025, analisamos o caso não como uma falha burocrática, mas como uma “limpeza de arquivos” sistêmica. Ao desconstruir o espetáculo midiático que reduz o debate à disputa entre democratas e republicanos, percebemos que o que está em jogo não é a moral individual de um político, mas a integridade de um bloco de poder que não pode permitir que suas entranhas sejam expostas.

A morte de Jeffrey Epstein em uma cela de segurança máxima levanta o véu sobre a natureza do poder soberano. Na teoria de Louis Althusser, os aparelhos ideológicos — entre eles, a mídia — têm a função de garantir a reprodução das relações de produção. No caso Epstein, observamos a fragmentação da verdade para alimentar o binarismo ideológico: enquanto Bill Clinton é emoldurado como um estadista em missões “filantrópicas”, Donald Trump é ora pintado como o homem que o baniu de Mar-a-Lago, ora como um entusiasta do seu estilo de vida.

Focar na disputa “Clinton vs. Trump” é um desvio fenomênico. Ambos representam frações da burguesia que utilizavam o mesmo “nó” de rede para manutenção de seu capital social. O espetáculo transforma uma falha sistêmica em uma guerra cultural personalizada, impedindo a percepção de que a infraestrutura de abuso é inerente à elite capitalista. Conforme afirma Althusser, a ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência.

Para além da cortina de fumaça midiática, a morte de Epstein sinaliza um mecanismo de defesa biopolítico. Em um sistema baseado no crédito e na confiança entre pares, a sobrevivência de um indivíduo com provas materiais contra o núcleo do Estado torna-se uma contradição insustentável. Epstein deixou de ser um ativo (facilitador) para tornar-se um passivo (risco de contágio). Sua liquidação física é o equivalente corporativo a queimar livros contábeis antes de uma auditoria: a transição do “sujeito perigoso” para o “arquivo morto”.

A ilha de Little St. James funciona como o “Estado de Exceção” de Giorgio Agamben. Ali, as fronteiras geográficas coincidiam com a suspensão da norma jurídica para que o poder soberano se manifestasse em sua forma mais crua. Enquanto o trabalhador é vigiado por biometria e leis restritivas, o capital cria santuários onde o crime é a própria base da sociabilidade. Os documentos mostram que a ilha não era apenas um bordel, mas um centro de operações onde a chantagem (kompromat) era a moeda corrente.

Essa rede alcançava até o desejo de controle sobre a própria vida. O interesse de Epstein pelo transumanismo e pela eugenia — financiando cientistas em Harvard e no MIT — representa a tentativa do capital de superar os limites biológicos. Marx aponta que o capital busca constantemente superar barreiras naturais; o apoio de Epstein a pesquisas sobre a “semeadura” da raça humana com seu DNA reflete a megalomania da acumulação: o burguês que, tendo acumulado valor material, busca agora acumular a eternidade.

Se a verdade reside nos registros contábeis, a responsabilidade recai sobre quem os autentica. O papel do capital financeiro como cúmplice é evidente na atuação do JP Morgan e do Deutsche Bank. Ambas as instituições operaram como o suporte vital que garantiu a extraterritorialidade de Epstein, validando transações que o sistema de justiça comum teria bloqueado. As multas milionárias pagas por esses bancos em 2023 não representam uma “vitória da justiça”, mas a monetização do crime. No capitalismo tardio, a violação de direitos humanos é um risco calculado. Como Marx aponta: “com 300% de lucro, não há crime que o capital não se atreva a cometer, mesmo sob o risco da forca.”

A liberação dos nomes pela juíza Loretta Preska em 2024 mapeia como o poder se organiza para garantir a impunidade. Figuras como o Príncipe Andrew e Stephen Hawking ilustram o uso do corpo feminino como mercadoria diplomática e o uso da ciência como capital simbólico para “lavar” a imagem da exploração. Essa rede só prosperou porque o custo humano é invisibilizado em favor do lucro político: o trauma, sob esta ótica, é o subproduto necessário da reprodução do sistema.

Superar o horror de Little St. James exige que avancemos da denúncia à práxis. A reação do feminismo materialista ensina que o sofrimento causado por essas redes não é um problema privado, mas um sintoma da exploração sistêmica. A reação contemporânea não busca apenas justiça criminal contra indivíduos, mas justiça econômica, denunciando que não existe tráfico de pessoas sem a conivência do sistema financeiro.

Para as teóricas do feminismo classista, o caso confirma que o patriarcado é parte integrante do capitalismo. A resistência hoje foca na desfetichização do poder, no combate à precarização — entendendo que a pobreza é a porta de entrada para os predadores — e na reivindicação do corpo como território soberano.

O caso Jeffrey Epstein é um lembrete brutal de que a barbárie espreita nos salões mais luxuosos do mundo. Mas, onde há opressão, há resistência. As novas revelações serviram como combustível para uma nova onda de consciência de classe, onde o feminismo não busca apenas ‘um lugar à mesa’, mas a destruição da mesa que se sustenta sobre a exploração. Nossa tarefa é garantir que esse panteão de sombras seja submetido à crítica radical, revelando que a barbárie não é um desvio, mas a própria essência de um poder que só será destruído pela práxis organizada

Referências Bibliográficas (Consolidado da Série)

Para quem deseja aprofundar-se na análise teórica e documental desta trilogia:

Fontes Teóricas:

  • ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1970.
  • FEDERICI, Silvia. Caliban e a Bruxa: Mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Editora Elefante, 2017.
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2005.
  • POULANTZAS, Nicos. As classes sociais no capitalismo hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
  • SAFFIOTI, Heleieth. A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e realidade. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

Documentos e Referências do Caso:

  • COURTLISTER. Giuffre v. Maxwell (Case 1:15-cv-07433-LAP). Documentos desmembrados em 2024. Disponível em: courtlistener.com.
  • DEPARTMENT OF JUSTICE (USA). Ghislaine Maxwell Sentenced to 20 Years in Prison. Press Release, 2022.
  • U.S. SENATE. Review of the Federal Bureau of Prisons’ Custody of Jeffrey Epstein. Report, 2023.

Cultura e Mídia:

  • DRAGHI, Guido; PIETRO, Alessandro. Devils (Série de TV). Sky Italia/Orange Studio, 2020.
  • KUBRICK, Stanley. Eyes Wide Shut (Filme). Warner Bros., 1999.

Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.


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