Lígia Bacarin
Em pleno 2026, o Brasil assiste a um espetáculo de devoção que desafia a lógica formal, mas que faz todo o sentido sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e do materialismo histórico. O que chamamos de Bolsonarismo e Lulopetismo não são meras correntes políticas em disputa, mas ecossistemas de captura mental que operam como mecanismos de defesa de uma democracia burguesa exausta. De um lado, o Bolsonarismo consolidou-se como um ecossistema que premia a ignorância e transforma a arrogância em símbolo de autenticidade. Ao observar milhões de adultos ignorando provas e escândalos para marchar sob chuva em prol de uma entidade política sagrada, percebemos que não há defesa de ideias, mas sim a proteção de um vínculo emocional simbiótico. Aqui, o analfabetismo funcional — que atinge 3 em cada 10 brasileiros segundo o INAF — deixa de ser uma falha educacional para se tornar uma ferramenta de projeto. Sem capacidade de processamento metacognitivo, o indivíduo torna-se incapaz de perceber contradições lógicas, operando apenas pelo raciocínio emocional: “se eu sinto que ele é meu salvador, qualquer prova em contrário é um ataque pessoal à minha identidade”.
Entretanto, a captura não é exclusividade da extrema-direita. O fenômeno Lulopetista opera em uma frequência distinta, mas com resultados estruturais analogamente paralisantes. Se o primeiro ataca a ciência, o segundo utiliza uma máscara de “institucionalidade” para anestesiar o conflito de classes. O Lulopetismo, em sua essência conciliadora e reformista liberal, sequestrou a esperança de mudança estrutural para convertê-la em gestão do neoliberalismo. O problema cognitivo aqui se manifesta na interdição da crítica: qualquer tentativa de apontar que o partido mantém a estrutura de exploração da democracia burguesa é lida como “traição” ou “ajuda à direita”. Essa distorção cognitiva, que a TCC chama de pensamento dicotômico (o “tudo ou nada”), impede que o sujeito/militante/seguidor perceba que está defendendo migalhas enquanto o capital financeiro segue intacto. O ódio de classe, que deveria ser o motor de uma transformação radical, é diluído em políticas de “enxugar gelo”, onde lideranças carismáticas atuam como amortecedores sociais para impedir que a massa perceba o óbvio: a conciliação é a garantia de que nada mude de fato.
Psicologicamente, ambos os movimentos funcionam através da reestruturação de esquemas de identidade. Para o fanático bolsonarista, abandonar a narrativa, seja a da “salvação da pátria” ou a da “única solução possível”, não é apenas mudar de opinião, é sofrer uma morte simbólica. O cérebro, buscando evitar a dor da dissonância cognitiva, prefere o conforto da seita. A psicologia social explica que o grupo oferece um senso de pertencimento que a vida sob o capitalismo brutal destrói. Assim, o seguidor defende o líder não pelo que ele faz, mas pelo que ele representa na economia emocional do indivíduo. Marx já apontava que a consciência social é determinada pela existência material, mas no Brasil atual, a existência social precária é mediada por uma superestrutura de ilusões que impede a formação de uma consciência de classe autêntica. Enquanto a população marchar por promessas e se contentar com o reformismo que não toca na propriedade privada, as lideranças continuarão a desempenhar seu papel de gestoras da miséria, blindadas por exércitos de seguidores mentalmente capturados.
A superação desse impasse exige mais do que a simples denúncia de lideranças; demanda a retomada da agência política da classe trabalhadora sobre a tutela das figuras messiânicas. O desafio reside em romper o ciclo da captura cognitiva por meio de uma práxis que recuse tanto o irracionalismo fascista quanto a anestesia reformista. É preciso transitar do raciocínio emocional, que sustenta o personalismo, para uma consciência de classe crítica e organizada, capaz de identificar que a mudança estrutural não virá da conciliação com o capital, mas da sua superação radical. A verdadeira emancipação exige que cada indivíduo recupere sua autonomia intelectual para além das seitas, convertendo o descontentamento represado em organização coletiva real. Só assim a política deixará de ser um espetáculo de adoração para se tornar a ferramenta de transformação da base material da sociedade, devolvendo ao sujeito o papel de protagonista de sua própria história e das bases de uma nova democracia, não mais burguesa, mas efetivamente popular.
Referências Bibliográficas
- BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva: Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed. (Fundamentos sobre distorções cognitivas e esquemas de crenças).
- FESTINGER, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford University Press. (Sobre a manutenção de crenças mesmo diante de evidências contrárias).
- FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. (Sobre a consciência dominada e a relação entre opressor e oprimido).
- INAF (Instituto Paulo Montenegro). Indicador de Alfabetismo Funcional. (Dados estatísticos sobre a capacidade de processamento de informação no Brasil).
- MARX, Karl. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo. (Sobre a superestrutura e a falsa consciência).
- MÉSZÁROS, István. A Montanha que Devemos Escalar: Reflexões sobre o Estado e a Alternativa Socialista. (Crítica ao reformismo e à gestão do capital).
- TAJFEL, Henri. Social Identity and Intergroup Relations. Cambridge University Press. (Sobre o pertencimento a grupos e a formação de identidades sociais rígidas).
Lígia Bacarin

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação, pós-graduação em Educação Especial e doutorado em Fundamentos da Educação. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.





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