Amaury Monteiro Junior
A privatização da SABESP já começa a mostrar sua face mais perversa: a busca por soluções técnicas imediatistas e lucrativas para problemas que exigem, na verdade, uma abordagem socioambiental profunda e sistêmica. O projeto de transposição de águas do Rio Pequeno para o reservatório Taiaçupeba, no sistema Alto Tietê, é o exemplo acabado de uma gestão que ignora a vida das comunidades e a saúde dos mananciais em nome dos interesses eleitorais imediatos do governador Tarcísio de Freitas.
O Mito da Eficiência e a Realidade do Abandono
A solução para a escassez hídrica não reside em “sangrar” um reservatório para socorrer outro, mas sim em recuperar a capacidade de geração de água das nossas bacias. Como bem observa a Professora Marta Marcondes, especialista que tem acompanhado o tema, a crise atual é fruto de décadas de total falta de ações para recompor a cobertura vegetal e proteger as áreas de recarga que abastecem os principais reservatórios da Grande São Paulo. A SABESP privatizada foca no cano e na bomba, mas ignora a floresta e o solo que produzem a água.
Um Projeto que Atropela a Cidade e a Técnica
A reportagem publicada pelo jornal Repórter Diário em 27/01/2026 traz à tona a gravidade do cenário. O licenciamento, conduzido de forma açodada, tenta se sustentar em um Relatório Ambiental Preliminar (RAP) que o COMDEMA (Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente de Rio Grande da Serra), através do Parecer Técnico Ambiental nº 01/2025, já classificou como insuficiente.
Enquanto a SABESP alega que os danos serão “localizados e reversíveis”, o parecer técnico do COMDEMA é categórico: muitos dos impactos à nossa biodiversidade e à estrutura urbana são irreversíveis. A pressa em obter a Licença Prévia nº 3046 atropela a necessidade de um estudo mais profundo (EIA/RIMA) e ignora a fragilidade do nosso território.
O Cerceamento da Mobilidade e o Caos Social
O impacto na mobilidade urbana será devastador e humanitário. A previsão de abertura de valas de até 12 metros de largura cortando as principais artérias da cidade transformará Rio Grande da Serra em um canteiro de obras intransitável. O povo ficará cerceado em seu direito básico de locomoção por um longo período.
Não é apenas uma questão de trânsito; é uma questão de sobrevivência:
- Como os trabalhadores chegarão aos seus postos?
- Como os estudantes acessarão as escolas?
- O risco humanitário é real: em uma cidade sitiada por valas gigantescas, como garantir que uma ambulância chegue a tempo para uma assistência médica especializada? O projeto ignora que nossas vias são os únicos canais de socorro e vida para a população.
Injustiça Hídrica e Ambiental
Enquanto a SABESP busca números para exibir em propagandas de governo, Rio Grande da Serra sofre uma “injustiça hídrica” sem precedentes. O projeto prevê a retirada de até 80% da água do sistema local para exportação. Ou seja: o sacrifício ambiental e social é nosso, para que o lucro e o benefício político fiquem em outro lugar.
Este artigo não é uma convocação para o embate imediato, mas um chamado à conscientização. Nós não podemos nos calarmos diante de um projeto sem futuro, que sacrifica uma bacia hidrográfica e a rotina de uma cidade inteira para alimentar o marketing político do Palácio dos Bandeirantes. Precisamos de soluções sustentáveis, não de adutoras que enterram o futuro de nossos mananciais.
Referências: Reportagem do Jornal Repórter Diário (27/01/2026); Parecer Técnico Ambiental 01/2025 do COMDEMA/RGS; Notas técnicas da Profa. Marta Marcondes; Licença Ambiental Prévia CETESB 3046.
Amaury Pinto de Castro Monteiro Jr.

Engenheiro Civil, Professor Universitário, ancora do programa A Política Nua e Crua do Canal Ate Agora e militante do movimento Geração 68 – Sempre na Luta




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