Estratégia, Tática e a Construção do Projeto Revolucionário

Amaury Monteiro Jr.

O portal Geração 68 (68naluta.blog) cumpre um papel imprescindível ao manter acesa a chama da memória e, simultaneamente, servir de laboratório para o pensamento crítico brasileiro. É nesse espaço de convergência que tomo a liberdade de dialogar com o instigante artigo de meu amigo e companheiro de lutas, Francisco Celso Calmon, intitulado “O dever de todo revolucionário é fazer a revolução”.

Calmon nos convoca a romper com o marasmo de uma esquerda que parece ter se “desquitado” de seu horizonte histórico. Concordo plenamente com seu diagnóstico: o reformismo institucional e o pragmatismo eleitoral transformaram a política em mera gestão do possível. Contudo, a atualização do debate estratégico exige que compreendamos o sujeito histórico da revolução em sua configuração contemporânea: diversa, tecnológica e, muitas vezes, invisibilizada pelas plataformas digitais. A audácia histórica, para ser vitoriosa, exige a mais rigorosa aderência à Estratégia e à Tática dentro de um projeto de mudanças efetivas e permanentes.

O Voluntarismo e a Eficácia Estratégica

Ao defender que a ação deve criar as condições revolucionárias, Calmon resgata um princípio fundamental da práxis. Entretanto, embora a bravura de movimentos históricos seja um patrimônio moral de nossa classe, precisamos analisar o voluntarismo sob a ótica da eficácia.

O voluntarismo parte da premissa de que a vontade da vanguarda pode substituir a maturação da consciência das massas. A história ensina que a audácia tática sem lastro estratégico leva ao isolamento político e ao sacrifício de quadros valiosos. A ação “pelo exemplo” só se torna motor de mudança quando o terreno está arado; caso contrário, é um movimento que o sistema absorve ou esmaga, sem alterar as estruturas do poder.

O Proletariado na Era Digital

Para organizações políticas marxistas-leninistas contemporâneas, o conceito de proletariado expandiu-se. O sujeito da revolução hoje se manifesta também na massa de trabalhadores “uberizados” e plataformizados, que operam sob um regime de alta produtividade tecnológica e profunda precariedade. Integrar essa visão ao nosso projeto significa entender que a vanguarda deve falar a língua da Quarta Revolução Industrial. Não abandonamos a centralidade da classe trabalhadora; nós a expandimos para os novos territórios virtuais onde o capital hoje extrai valor através do “autogerenciamento subordinado”.

A Preparação como Ato de Engenharia Social

Diferente do excesso de teoria que paralisa a ação, acredito que preparar a ação é a própria construção do projeto. Essa construção deve se basear em três pilares fundamentais de sustentação:

  1. A Formação como Base da Consciência Política: A preparação não é uma etapa burocrática, mas a construção de um projeto de nação. O revolucionário moderno deve ser um mestre do método, desenvolvendo quadros capazes de realizar análises rigorosas para que o proletariado — do chão de fábrica ao terminal de computador — tenha clareza de seus objetivos e não seja seduzido pelo falso empreendedorismo.
  2. A Organização como Engenharia da Mudança: A organização permite que a ação deixe de ser um “salto no escuro” para se tornar a execução de um planejamento coletivo. Cada movimento tático deve servir ao acúmulo de poder real. É preciso organizar as bases para que exerçam o controle popular sobre a máquina estatal, garantindo que o projeto sobreviva para além dos ciclos eleitorais.
  3. A Participação como Motor da Ação Direta: A participação materializa a teoria na prática cotidiana. Ela retira a política do campo do mero pragmatismo eleitoral. É através da participação das bases politizadas que se exerce pressão por mudanças qualitativas e estruturais, evitando que governos de esquerda se tornem apenas ciclos de conciliação e arranjos de cúpula.

Pressão Programática e Mudança Estrutural

Calmon aponta corretamente que a esquerda foi reduzida a um movimento eleitoral. Para que um eventual governo Lula 4 não seja apenas mais uma repetição de conciliação, a mudança precisa ser qualitativa.

A “elite burocrática” nos espaços de decisão só será confrontada por um proletariado com consciência formada e projeto próprio. O dever do revolucionário hoje é politizar as massas para que elas dominem a comunicação e a máquina estatal, transformando-as em ferramentas de um projeto permanente.

Chamado ao Bom Debate

Agradeço ao companheiro Francisco Celso Calmon pela provocação necessária. O dever do revolucionário é, de fato, fazer a revolução — mas fazê-la através da construção de um projeto sólido, capaz de gerar mudanças irreversíveis.

Convido os companheiros do Geração 68 a este diálogo: Como garantir que nossa prática cotidiana esteja rigorosamente a serviço de um projeto revolucionário permanente, e não apenas de táticas conjunturais?

O debate está aberto. Ousar lutar, preparar para vencer!

Amaury Pinto de Castro Monteiro Junior

Engenheiro Civil, Professor Universitário, ancora do programa A Política Nua e Crua do Canal Arte Agora, militante do movimento Geração 68 – Sempre na Luta.



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