Alexandre Santos
Muita gente não sabe, mas Carnaval é uma festa de origem religiosa. Esta é a razão de o período de sua realização variar de ano para ano. Com efeito, sua realização é estabelecida a partir de uma contagem vinda do futuro, à partir da Quarta Feira de Cinzas – o dia da aposição das cinzas, que marca o início da Quaresma, um período de 40 dias até o início da Semana Santa, na Quinta-feira Santa, que é marcado pela chatice, pois, nos termos da Igreja Católica, tudo é (ou era) proibido e pecado. Pois bem. Já que as pessoas iriam passar 40 dias de marasmo, sem diversão, sem bebida, sem carne vermelha e só com o lenga-lenga permitido pela Igreja, os homens mais espertos recorreram à criatividade e resolveram fazer uma farra antes do início da tal Quaresma, passando a fazer uma ‘festa da carne’ na véspera do início do período das proibições. Surgiu, então, o Carnaval (que no começo se restringia à Terça-Feira). Acontece que a festa era tão boa que, em muitos lugares, começou a crescer para trás, alcançando inicialmente a segunda-feira e, depois, o domingo e o sábado. E, neste embalo, a festança ganhou vida própria e, além de crescer continuamente (muitas cidades adotam a chamada ‘semana pré-carnavalesca’ e outros, como Recife e Salvador, fazem a ‘abertura oficial’ do Carnaval já na 5ª feira da semana anterior), passou a ter episódios isolados ao longo do ano (as famosas Micaremes ou Carnaval-fora-de-época). Vale lembrar que, sendo uma espécie de espelho invertido da rigidez cultural da Quaresma, o Carnaval é uma festa da alegria, da permissividade, da irreverência, do sonho e do encanto, no qual as pessoas costumam fazer aquilo que são proibidas de fazer nos outros dias e ser aquilo que não são na realidade. Daí a prevalência da arte e a simbologia dos comportamentos. Assim, não é sem razão que as pessoas aproveitar o carnaval para encanar os poderosos (fantasias de papa, de cardeal, de faraó, de Napoleão, de almirante, etc.) e, como no ‘Judas’ sacaneado na Semana Santa, ridicularizar aqueles que as oprimem. Carnaval não é apenas uma festa da carne. É uma festa da alegria, da liberdade e, também, de sátira aos idiotas que passam o resto do ano a oprimir o Povo. Viva o Carnaval!!!
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Alexandre Santos

Engenheiro e escritor. Ex-presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco e presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Escritores, presidiu a União Brasileira de Escritores e faz a coordenação nacional da Câmara Brasileira de Desenvolvimento Cultural. Autor premiado com livros publicados no Brasil e no exterior, Alexandre é o editor geral do semanário cultural ‘A voz do escritor’ e diretor-geral do canal ‘Arte Agora’.




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