Amaury Monteiro Junior
Introdução: A Engenharia no Seu Devido Lugar Histórico
É comum encontrarmos nos círculos acadêmicos e profissionais uma visão de mundo que poderíamos classificar como pan-tecnocrática: a crença de que a Engenharia é o eixo central em torno do qual gravita o desenvolvimento civilizatório. Nessa perspectiva, a sociedade seria um subproduto da inovação técnica.
Contudo, uma análise fundamentada no materialismo histórico e nas experiências de planejamento central do século XX — como as da URSS e da China pós-1949 — revela o oposto: a Engenharia não é o centro, mas a grande integradora e executora das demandas gestadas pelas ciências sociais, humanas e da saúde. Para desconstruir a ilusão do engenheiro como fim em si mesmo, devemos recorrer ao conceito de Forças Produtivas.
Segundo a tradição marxista-leninista, a técnica é a materialização do conhecimento científico aplicado à transformação da natureza. Como afirmava V.I. Lenin em 1920, a técnica só adquire sentido quando subordinada a um objetivo social superior. Para Lenin, a engenharia era o braço armado da ciência para viabilizar a nova organização social; sem a diretriz política e social, o cálculo estrutural é um exercício vazio de propósito.
O Embasamento Filosófico: Técnica, Plano e Sociedade
Essa visão foi aprofundada por Stalin ao formular que “a técnica decide tudo”. A máxima referia-se à necessidade de os trabalhadores dominarem a ciência para cumprir o planejamento econômico elaborado por sociólogos e economistas. Aqui, a Engenharia aparece no seu devido lugar: a disciplina que resolve os problemas complexos impostos pelas necessidades biológicas, sociais e econômicas da população.
Ainda mais incisiva é a contribuição do pensamento chinês sob a liderança de Mao Tse-Tung ao propor a política de “Caminhar com as Duas Pernas”, combatendo o elitismo técnico e estabelecendo que o engenheiro deve ser simultaneamente “Vermelho e Especialista” (Hong yu Zhuan). Isso significa que a competência técnica é estéril se não estiver imbuída da consciência social. Na China de Mao, a Engenharia foi definida como a ferramenta para atender às demandas das ciências agrárias e da saúde pública, jamais como uma entidade soberana isolada.
A Vivência Brasileira: Do DNA Soberano ao Desmonte Neoliberal
No Brasil, a falácia da Engenharia como centro torna-se evidente quando confrontada com a nossa história. Os grandes saltos da técnica nacional foram respostas a necessidades coletivas e pressões populares. É imperativo lembrar que a histórica campanha “O Petróleo é Nosso” foi anterior e fundante para a criação da Petrobras; foi esse espírito de mobilização dos operários e da sociedade brasileira que forçou a integração das Geociências e da Engenharia de Reservatórios para conquistar a autossuficiência.
Esse DNA soberano deveria ser a bússola permanente do planejamento da empresa, mas com o aprofundamento do projeto neoliberal desde os anos Collor, a Petrobras tem sido fatiada e vendida aos poucos para investidores que não se interessam pelo projeto nacional, mas apenas por lucros imediatistas. Este facto foi drasticamente agravado durante a operação Lava Jato e após o golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff. Sob a máscara do combate à corrupção, desestruturou-se a engenharia nacional e a Petrobras foi afastada da sua missão social. Atualmente, utilizamos tecnologia de ponta para localizar o petróleo e alienamos esses campos para estrangeiros. Com o povo detendo hoje apenas 50,26% do capital da empresa, as prioridades são sequestradas para o retorno de acionistas, abandonando o motor do progresso nacional.
Da mesma forma, a Embrapa deve resgatar o seu foco na pequena e média agricultura. É preciso que a agroecologia e a agricultura regenerativa se tornem os pilares de uma nova visão para a nossa produção, deixando de priorizar apenas insumos exportáveis. O modelo atual, focado em commodities, pauta o preço do prato do brasileiro pelas cotações internacionais, gerando insegurança alimentar. A técnica da Embrapa deve estar a serviço de uma agricultura que regenere o solo e a sociedade, garantindo alimento com preço justo e qualidade biológica.
A Urgência da Reestatização: Eletrobras e Sabesp
A defesa da reestatização de empresas estratégicas como a Eletrobras e a Sabesp é urgente e está na ordem do dia. A transposição para a iniciativa privada de empresas que fornecem de modo exclusivo produtos essenciais e estratégicos, como energia elétrica e saneamento básico, não deveria estar atrelada à busca de lucros e à satisfação de ganhos por parte de acionistas em bolsas de valores internacionais.
O conhecimento técnico, quando privatizado nestes setores, deixa de buscar a universalização do acesso para focar na maximização de dividendos. É fundamental fechar a ponte entre estes factos e o desmonte da Petrobras e da Embrapa, deixando claro que não basta possuir tecnologia se ela não estiver sob controle estatal e a serviço do povo brasileiro. Abaixo, a tabela demonstra como a finalidade da técnica muda drasticamente dependendo do modelo de gestão:
| Aspecto da Gestão | Conhecimento Técnico sob Gestão Privada (Lucro) | Conhecimento Técnico sob Gestão Estatal (Povo) |
| Objetivo Central | Retorno sobre o capital e dividendos imediatos. | Bem-estar social e soberania nacional. |
| Acesso ao Serviço | Foco em áreas rentáveis; exclusão de periferias. | Universalização baseada na necessidade humana. |
| P&D | Redução de custos operacionais para lucro rápido. | Autonomia tecnológica e projetos de longo prazo. |
| Recursos Naturais | Exploração intensiva e frequentemente predatória. | Uso racional e preservação para gerações futuras. |
| Critério Técnico | Eficiência financeira (preço máximo). | Eficiência social (modicidade tarifária). |
O Paradoxo Energético: O Desperdício da Energia Limpa
É um absurdo técnico que projetos de geração de energia limpa estejam a ser descartados. O Brasil desperdiça anualmente o equivalente ao fornecimento de uma Belo Monte por não desenvolvermos técnicas de armazenamento de energia fornecida pelos sistemas eólico e solar. Como estes sistemas dependem da incidência solar e dos ventos, a falta de alternativas de estocagem faz com que essa energia seja jogada fora. Em contrapartida, dá-se preferência à construção de termoelétricas caríssimas, remuneradas a “peso de ouro”. Esta escolha não é técnica, é política, e demonstra o distanciamento abjeto entre o conhecimento técnico disponível e a implementação de melhorias em nome do interesse público.
Planejamento Estratégico e a Reindustrialização Solidária
Neste cenário de desmonte, surge o imperativo de uma reindustrialização solidária. Não se trata apenas de recuperar parques fabris, mas de reorientar a indústria brasileira sob uma ótica de cooperação e justiça social. Os conhecimentos advindos da Engenharia devem estar integrados ao planejamento estratégico do país, contribuindo para um processo onde o desenvolvimento industrial esteja acoplado à geração de empregos qualificados, à redução das desigualdades e ao fortalecimento da economia popular. Significa utilizar a nossa capacidade técnica para criar complexos industriais de saúde, energia e alimentos voltados para a autonomia nacional.
O Mito da Neutralidade Técnica e a Integração de Saberes
É preciso combater o Mito da Neutralidade Técnica. A Engenharia não é uma ciência por si só; ela é uma disciplina de síntese e trabalho humano aplicado. Na primazia das Ciências da Saúde, o saneamento nasce da necessidade epidemiológica, tornando a Engenharia serva da Biologia. Na primazia das Ciências Sociais, a construção de cidades responde a fluxos demográficos; o cálculo é o meio e a justiça social é o fim.
A Engenharia é um ecossistema indissociável que compreende a Arquitetura (diretriz espacial), as Geociências (suporte físico do território) e a Agronomia (soberania alimentar). Inspirada na Civilização Ecológica chinesa, os conhecimentos técnicos devem permitir o desenvolvimento das forças produtivas em harmonia com os limites biofísicos do planeta. Não há Engenharia de ponta sobre a destruição de biomas; ela deve estar a serviço da transição energética e da adaptação climática como missão social e de Estado.
Conclusão: Consciência de Classe e o Fim da Soberba Tecnocrática
O modelo chinês contemporâneo demonstra que a técnica pode ser a força motriz de Novas Forças Produtivas de Qualidade. Entretanto, os exemplos do desmonte da Petrobras, da privatização da Eletrobras e Sabesp e o desperdício criminoso de energia limpa dão a dimensão do distanciamento entre a técnica e o povo brasileiro.
A mensagem central é definitiva: a Engenharia não é o centro de tudo, nem a razão de existir do mundo moderno. Ela é um conjunto de conhecimentos que deve submeter-se e ser protagonista de mudanças para o fortalecimento do povo, estando integralmente a serviço de projetos de desenvolvimento planificados do país. O profissional deve abandonar a soberba tecnocrática para se tornar um formulador de políticas públicas.
Ao aceitarmos essa subordinação positiva às demandas sociais, biológicas e soberanas, deixamos de ser meros calculistas a serviço do capital para nos tornarmos construtores da libertação social. Daqui para a frente, tudo é acumulação; nada de sintetizar para diminuir, mas expandir para conscientizar.
Referências Bibliográficas
- CHIA, C. A revolução chinesa e o pensamento de Mao Tse-Tung. Pequim, 1968.
- ENGELS, Friedrich. A dialética da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
- LENIN, V. I. Sobre a eletrificação (Plano GOELRO). Moscou: Progresso, 1920.
- MARX, Karl. O Capital: Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
- MAO TSE-TUNG. Caminhar com as duas pernas. Pequim, 1958.
- SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Edusp, 2002.
- STALIN, Iosif. A técnica decide tudo. Moscou: Edições do Estado, 1935.
- XI, Jinping. A Governança da China. Pequim: Foreign Languages Press, 2022.
Amaury Pinto de Castro Monteiro Jr.

Engenheiro Civil, comunicador e militante histórico. Através do programa A Política Nua e Crua e do portal Geração 68 sempre na Luta, exerce uma prática política de esquerda humanista e soberana. Sua atuação une a defesa técnica da engenharia como motor do desenvolvimento nacional à resistência histórica contra o autoritarismo. Defende um Estado indutor, a justiça social e o combate rigoroso às opressões.




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