A Política Nua e Crua: Um Ano de Ação Consciente entre a Solidão do Estúdio e a Vanguarda do Debate

Amaury Monteiro Junior

Completar um ano aproximadamente como articulista e âncora do programa A Política Nua e Crua, no Canal Arte Agora, impõe uma pausa para um balanço necessário, profundo e honesto. O programa é uma produção semanal, exibida todos os sábados, às 16h, com o objetivo de despir os fatos políticos de suas camadas de conveniência para entregá-los de forma direta e assertiva.

Toda sexta-feira, o ritual se repete: o isolamento do estúdio, a organização das pautas e a gravação. É um trabalho que, em sua execução cotidiana, revela-se solitário. Nesse período, o programa ganhou uma boa adesão de público, mas a interação com as pessoas ainda se mantém distante, apesar dos constantes apelos. Essa é a minha frustração: o silêncio do outro lado da tela em um mundo que urge por participação e engajamento real.

Entretanto, há uma dialética fundamental nesse processo. Quando recebo observações sobre o programa, elas são invariavelmente de excelente qualidade e profundidade. Esse é o meu orgulho. Como ensinou Lênin em Que Fazer? (1902), a consciência política não surge espontaneamente; ela exige o papel do organizador coletivo que, mesmo na “solidão” do estúdio, trabalha para formar uma vanguarda capaz de enfrentar as estruturas de poder. Essa distância que sinto é o reflexo da atomização social imposta pelo neoliberalismo, que tenta isolar o pensamento crítico para desmobilizar a classe trabalhadora.

O Combate ao Rentismo e à Esquerda de Fachada

Uma preocupação central deste ano foi buscar um debate maior: que Brasil projetamos para a construção de um país Democrático, Soberano e Socialmente Justo neste século XXI? Para responder a isso, é preciso coragem para denunciar a “esquerda de fachada”, comprometida com políticas econômicas que prejudicam o trabalhador. Marx, em O Capital, alertava sobre o capital financeiro como um parasita que drena o trabalho vivo. O rentismo que combatemos não apenas transferem capital para o exterior; eles asfixia a indústria nacional e condena o país ao atraso tecnológico. O respeito aos direitos trabalhistas conquistados através de lutas históricas será sempre uma pauta inegociável em nossas edições.

Contra o Imperialismo e a Conciliação Brasileira

O programa consolidou uma forte oposição à agressão imperialista de Donald Trump contra a soberania de Nações como Venezuela e Cuba. Condenamos o sequestro jurídico de lideranças e o bloqueio econômico que se torna um genocídio compulsório. Nossa crítica estende-se também à política de conciliação constante da classe dominante brasileira. Repudiamos a postura de governos que se limitam a “notas diplomáticas” e não transgridem as regras de Washington em relação ao petróleo — recurso vital para a sobrevivência de povos irmãos. Em contraposição, mantemos o respeito ao planejamento da economia chinesa, que prova que a soberania exige firmeza, não submissão ao agressor.

Memória, Verdade e Justiça: Contra o Entulho Autoritário

A defesa do tripé Memória, Verdade, Justiça e Reparação em relação às ditaduras do século XX é um pilar central. Esta não é uma pauta sobre o passado. Ao não punirmos adequadamente os torturadores de ontem, permitimos que o entulho autoritário permanecesse latente para os ataques fascistas atuais. Sem justiça plena sobre os crimes passados, a democracia de hoje permanece um simulacro vulnerável.

A Engenharia como Integradora e a Serviço da Vida

Neste percurso, reafirmamos a defesa de uma Engenharia que abandone a soberba tecnocrática para assumir seu papel de transformadora social. Combatemos a visão alienante que isola a técnica como um fim em si mesma. A Engenharia não é uma ciência autônoma, mas a grande integradora das demandas gestadas pelas ciências sociais, humanas e da saúde.

Para o Brasil ser Soberano, a técnica deve subordinar-se a um planejamento estratégico estatal e planificado, tornando-se o motor de uma reindustrialização que priorize o bem-estar da classe trabalhadora sobre os lucros de acionistas internacionais. Somente quando a Engenharia ouve o povo e se coloca a serviço da vida é que ela deixa de ser um instrumento do capital para se tornar uma ferramenta de libertação nacional.

Conclusão

Entre a frustração pela distância e o orgulho pela qualidade, sinto que cumprimos o papel de transformar a teoria em ação consciente. O Canal Arte Agora tem sido o espaço onde o pensamento crítico se recusa a ser domesticado. Continuaremos a tratar a política de forma nua e crua, pois a verdade, por mais dura que seja, é o único caminho para a construção do Brasil que projetamos para este século XXI.


Referências Bibliográficas (ABNT)

CHAUÍ, Marilena. Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

LÊNIN, Vladimir Ilich. Que fazer?: problemas candentes do nosso movimento. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

MARX, Karl. O capital [Livro I]: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Edusp, 2002.


Amaury Pinto de Castro Monteiro Junior

Engenheiro Civil, Professor Universitário, militante do Geração 68 Sempre na Luta, articulista do programa A Politica Nua e Crua no Canal Arte Agora, militante do movimento em defesa da Engenharia e da Soberania Nacional.



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