8 de março em fúria!

Lígia Bacarin

Que nesse 8 de março invoquemos a fúria feminina para derrubar o patriarcado.

O 8 de Março é frequentemente reduzido, em sua dimensão mais superficial, a uma data comemorativa ou a um ritual de flores e homenagens. No entanto, a data nasce das trincheiras da luta de classes, forjada no calor das fábricas por mulheres operárias que enfrentaram a exploração dupla: a do capital e a do patriarcado. Foi na reivindicação por dignidade, por melhores condições de trabalho e pelo direito ao voto que a mulher trabalhadora começou a rasgar os véus da submissão.

Mas, a história dessa luta é também a história da tentativa de controle não apenas sobre o corpo, mas sobre a própria alma feminina.

Para compreendermos a escalada da violência de gênero e contra as mulheres na contemporaneidade, é imperativo definirmos as categorias que estruturam essa opressão. O patriarcado não é um mero conceito abstrato, mas um sistema material de dominação. Ele é uma estrutura hierárquica de poder, anterior ao capitalismo, mas por ele absorvida e rearranjada, que estabelece a supremacia masculina sobre os corpos, a sexualidade e o trabalho das mulheres.

O machismo é o braço ideológico desse sistema, o conjunto de práticas, discursos e representações sociais que naturalizam a inferioridade feminina e justificam a violência simbólica e física. Já a misoginia é a face mais visceral e violenta do patriarcado: o ódio estrutural à mulher, que se manifesta como punição àquelas que ousam romper com o papel que lhes foi designado.

É importante entendermos que a opressão da mulher não pode ser dissociada da exploração de classe. O patriarcado oferece ao capital uma superexploração da força de trabalho feminina, remunerada abaixo da masculina para funções equivalentes, e ainda recai sobre ela o trabalho não pago dos cuidados domésticos, o que os italianos chamam de “reprodução social da força de trabalho”.

Nesse sentido, a violência contra a mulher se intensifica em momentos de crise sistêmica do capital, quando o controle social precisa ser reforçado. Os recentes dados sobre a escalada da violência doméstica, dos feminicídios e das agressões não são fatos isolados; são sintomas da pulsão de morte de um sistema que, ao sentir-se ameaçado pela autonomia feminina, reage com brutalidade para reafirmar seu domínio.

No entanto, há uma dimensão dessa luta que escapa à análise econômica e adentra o campo do imaginário, da cultura e do simbólico e é justamente aí que reside uma das mais poderosas trincheiras de resistência. O patriarcado, em seu projeto milenar de domesticar a mulher, não se contentou em controlar sua força de trabalho; ele tentou colonizar o seu inconsciente, moldar a sua psique e sequestrar as narrativas sobre o feminino.

Durante séculos, fomos ensinadas que a mulher “deveria ser luz. Ser boa. Ser calma. Ser compreensiva”. Forjou-se o mito da mulher como entidade exclusivamente maternal, doce e servil. Mas as mitologias mais antigas, anteriores ao monoteísmo patriarcal, nos contam uma história muito diferente. Nelas, existiam Deusas que não eram apenas luz, mas também fogo; não apenas acolhimento, mas também espada.

Por exemplo, figura como a irlandesa Morrigan, deusa da guerra e do destino; a egípcia Sekhmet, a leoa sanguinária que representa a força solar da vingança; a mesopotâmica Ereshkigal, senhora do submundo que não pede licença e submete até os deuses às suas leis; a indiana Kali, que dança sobre o demônio da ignorância com seu colar de caveiras; e a suméria Inanna em sua descida ao inferno, representam a totalidade do feminino.

Essas figuras carregavam em si o poder de destruir monstros, derrubar impérios e, sobretudo, de impor o fim de um ciclo para que o novo pudesse nascer. Elas não eram más; eram completas. Eram a personificação da dialética: a vida que só existe porque a morte a precede, a construção que só é possível após a demolição do velho.

O que o patriarcado fez foi um trabalho minucioso de demonização dessas figuras. As Deusas Negras foram transformadas em demônios; suas sacerdotisas, em bruxas perseguidas pela Inquisição; e as mulheres que ousaram encarnar essa força, em “histéricas”, “perigosas” e “loucas”. O aviso “Cuidado com a fúria feminina” não é um alerta contra o perigo da violência irracional, mas o reconhecimento, por parte do opressor, de que essa fúria é a única linguagem que o sistema entende quando todos os canais da negociação se esgotam.

A mulher que o patriarcado teme não é a que chora, mas a que luta. Não é a que pede, mas a que exige. Não é a que se cala, mas a que urra. Essa mulher carrega dentro de si o arquétipo da ancestralidade. Ela é a trabalhadora que, depois de uma dupla jornada, ainda encontra forças para ir às ruas. É a mãe que enfrenta a polícia para defender o futuro do filho. É a negra, a indígena, a periférica que não se curva diante do Estado genocida. É a fúria que “dilacera a carne da injustiça” e “beija as algemas e as leva embora”.

Talvez o mundo esteja exatamente onde está: em crise, violento e desigual, porque tentou, por séculos, silenciar essa fúria. Porque patologizou a resistência e medicalizou a revolta. O que estamos vendo despertar agora, nas ondas do feminismo contemporâneo, não é um movimento passageiro, mas o retorno do recalcado da história. É aquilo que o patriarcado sempre temeu: mulheres que não têm mais medo. Mulheres que lembraram quem são e de onde vieram. Mulheres que carregam dentro de si não apenas a luz idealizada da mulher cristã, mas também o fogo revolucionário da ancestralidade.

E quando essa força feminina coletiva desperta, como nos lembram os mitos, nenhum sistema injusto permanece de pé por muito tempo. Pois ela é a força que ceifa o que está morto, que destrói as estruturas podres para que a terra possa ser arada novamente.

Em tempos de escalada da violência e do avanço do conservadorismo, a resposta não pode ser a pacificação, mas a organização consciente dessa fúria. A fúria feminina, quando orientada pela análise material da realidade e pela solidariedade de classe, deixa de ser um grito abafado e se torna o motor da transformação social.

Que em 8 de Março, ao invés de pedirmos flores, exijamos o direito de florescer e de queimar tudo o que nos impede de brotar.

REFERÊNCIAS

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KOLTUV, Barbara Black. O livro de Lilith: o resgate do lado sombrio do feminino universal. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2017.

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Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.


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