É o petróleo, estúpido!

Jean Marc von der Weid, março de 2026

Donald Trump está dando uma aula de estratégia de sobrevivência para a humanidade com seus tarifaços e com a guerra contra o Irã. A afirmação deve surpreender a todos, mas é bem explicável.

Faço parte dos que acham que vai ser preciso desglobalizar a economia do planeta se quisermos sobreviver à catástrofe anunciada pelas crises simultâneas que nos assolam: aquecimento global, mudanças climáticas, destruição da biodiversidade e dos habitats, pandemias, poluição de solos, águas e do ar, déficits de água potável e em especial, o fim do uso de combustíveis fósseis e muitas outras. É claro que a salvação do planeta dependerá de muitas medidas radicais para além da desglobalização, todas elas apontando para a substituição do sistema capitalista que organiza (ou desorganiza) a economia mundial há dois séculos ou mais.

O que o psicopata da Casa Branca vem fazendo, ataca o modo dominante do capitalismo desde o último quarto do século passado, chamado por alguns de hiper globalização. Obviamente, o todo poderoso (mas cada vez menos) chefe do imperialismo americano parece não ter a mínima ideia do que está fazendo, mas o efeito é o mesmo: um tiro certeiro no coração do sistema globalizado.

Ao criar a ilusão de trazer de volta as indústrias para o território americano através dos tarifaços, Trump ignora a profunda interdependência dos empreendimentos econômicos globalizados, que passaram a ignorar fronteiras para buscar as maiores margens de lucro das empresas. As empresas globalizadas aumentaram seus lucros exponencialmente, relocalizando mundo afora tanto os seus fornecedores, como as próprias fábricas que finalizam os produtos.

Tomemos como exemplo a produção do café para o consumo dos americanos, os maiores bebedores deste produto no planeta. As empresas americanas, ou de outro país que entregam o produto final para os gringos, compram café em vários níveis de processamento em diferentes partes do mundo, já que as condições climáticas dos EUA não permitem o seu cultivo local. Algumas compram café em grão, apenas secado. Estas compras podem vir do Brasil, Colômbia, Vietnam. África, América Central. Em geral, as compras incluem tipos diferentes de café, grosso modo os gêneros Robusta, Arábica e um tipo menos conhecido, chamado tecnicamente de Arábicas não Lavados. Estas empresas fazem a torrefação, moagem, mixagem e embalagem nos EUA, ajustando a composição em função dos gostos do público. Muitas fazem ainda um processamento extra para produzir cafés solúveis. Outras empresas têm diferente estratégia e compram produtos semitransformados, já torrados e moídos, fazendo apenas a mistura e embalagem nos EUA. Quando Trump taxou as importações de café em bloco, ele prejudicou mais as empresas que importavam o café menos processado, sobretudo as que compravam o produto brasileiro exportado em grão, que receberam a maior taxação no plano internacional devido às tramoias de Eduardo “bananinha” Bolsonaro. As empresas que importavam café processado do México ou da Colômbia saíram ganhando na concorrência, ameaçando fechar suas concorrentes em solo americano.

Este é um exemplo bastante simples, já que em indústrias mais complexas o número de componentes adquiridos em outros países e até finalizados em outros países pode chegar a milhares. Fábricas americanas se transferiram para a China, entre outros lugares do chamado sul global para aproveitar a mão de obra mais barata e mais disciplinada ou com uma legislação ambiental menos restritiva ou impostos mais baixos ou ainda taxas de câmbio mais favoráveis. Além disso, elas compram seus componentes e insumos seguindo o mesmo critério, preços mais baixos.

Ficou para o território americano o controle das finanças, do know how e das patentes e a realização dos lucros com vendas para os próprios americanos ou outros consumidores no mundo. É esta a raiz do gigantesco déficit comercial americano que Trump quis derrubar com seus tarifaços. Obviamente, não podia dar certo e o todo poderoso teve que ceder em muito da sua estratégia ou a consequência seria uma inflação pesada para o bolso do consumidor (e eleitor) americano.

No coração da globalização encontra-se um elemento chave da economia. A multiplicação das compras de componentes de cada produto colocado no mercado por países espalhados em todo o planeta aumentou em muito o peso dos transportes no custo final. Hoje em dia existem organizações especializadas em calcular a “milhagem” de cada produto de mercado, somando o quanto cada parte teve que viajar até chegar à forma final e sua compra pelo consumidor. Os números são estonteantes, seja para uma lata de tomate ou para um computador.

Não vou tratar aqui de um outro calcanhar de Aquiles da globalização, mas que também é crucial: a logística cada vez mais complexa para permitir que uma fábrica “finalística” receba todos os seus componentes, vindos de toda parte, ajustando o fornecimento dos componentes em um cronograma preciso do processo produtivo. Qualquer perturbação no fluxo internacional de cargas (atrasos provocados por mau tempo nos oceanos, greves nos portos, infraestruturas inadequadas de armazenamento ou de embarque) tem um efeito cascata de atrasos na produção final, obviamente aumentando os seus custos.

Voltando ao problema do aumento da demanda de transporte de cargas, a chave é o preço do petróleo. E foi exatamente neste fator que Trump deu o seu passo mais infeliz. Ao atacar o Irã, achando que seria um passeio como na Venezuela, ele ignorou os avisos de seus aliados no Oriente Médio, os maiores fornecedores de petróleo do mundo quando tomados em conjunto. Ignorou também os avisos da inteligência militar e econômica dos EUA. Todos apontavam o risco do bloqueio do estreito de Ormuz (por onde passam 30% das exportações de petróleo no mundo) pelos iranianos e o risco de uma expansão da guerra para os países vizinhos e a destruição de infraestruturas de extração, processamento e embarque de petróleo e outros derivados como os fertilizantes.

Pois foi o que aconteceu. Apesar de pesadas perdas, os iranianos adotaram uma estratégia de guerra assimétrica e fecharam o estreito (bloqueando a passagem, até agora, de mais de mil navios) e agora atacam os poços, refinarias e portos dos vizinhos. O efeito imediato foi o estancamento das exportações de petróleo da região, aumentando em 60% o preço desta comodity em 3 semanas de guerra, sem que exista um horizonte previsível para o fim da escalada. Ainda não se pode calcular a queda mais prolongada das exportações de petróleo causada pela destruição do potencial produtivo de petróleo dos países árabes, pois isto ainda está em curso, podendo piorar muito com o prolongamento da guerra.

O tiro no pé dos americanos é ainda mais espetacular porque o Irã continua exportando petróleo, sobretudo para a China, com seus navios tanque cruzando o estreito interditado para as exportações de outros países. Mais ainda, o desespero de Trump com o caos que provocou e seu impacto nos postos de gasolina dos EUA (e no humor dos eleitores), levou-o a propor a suspensão dos embargos às exportações de petróleo da Rússia, para aliviar a pressão sobre os preços, para horror de Zelensky. Os eleitores de Trump devem estar amargando seu voto a cada vez que enchem o tanque de seus carros.

A estupidez de Trump, na verdade, está antecipando o golpe mortal na globalização anunciado por muitos analistas especializados no mercado petrolífero: a tendência inevitável da ocorrência do esgotamento do fornecimento de petróleo.

Já escrevi sobre este assunto em outros artigos e só vou lembrar que o pico de produção do petróleo dito convencional ocorreu entre 2005 e 2008 e hoje, apesar de investimentos maciços, o máximo que as empresas petrolíferas conseguiram foi manter um platô de oferta deste tipo de óleo no mesmo nível do volume alcançado no período citado acima. De lá para cá o que cresceu na oferta de petróleo foi a produção dos chamados óleos não convencionais, obtidos pelo “fraking” (Estados Unidos), pela exploração de areias betuminosas (Canadá), pelo petróleo pesado (Venezuela) ou pela exploração de petróleo em águas ultra profundas (Brasil e Suriname).

A produção americana do que eles chamam de tight oil e outros de shale oil disparou, com um forte apoio financeiro dos governos americanos desde 2010, reduzindo impostos e facilitando crédito com taxas de juros mínimas. Mas mesmo com todo o apoio e o sucesso no curto prazo desta produção americana, o máximo que se conseguiu foi adiar a crise de fornecimento de petróleo no plano mundial. A produção do tight oil estancou a partir de 2018 e já se aponta para um teto, a partir do ano passado ou, no cálculo mais otimista, para 2030.

Os analistas da geopolítica do petróleo vêm prevendo que um estancamento da oferta do “ouro negro”, sem que se tenham tomado medidas para uma transição que levasse à sua substituição paulatina, provocará um golpe definitivo na economia mundial globalizada, cuja demanda por este combustível só faz crescer. A expectativa é uma reação dos países mais poderosos buscando garantir o controle da produção remanescente no mundo.

Uma das “saídas”, necessariamente com curta duração será uma exacerbação da exploração dos combustíveis fósseis que ainda tem prazos maiores de esgotamento, como o gás e o carvão ou a ampliação da exploração dos óleos não convencionais como as areias betuminosas do Canadá, cujas reservas são imensas, ou o petróleo do pré sal, com reservas bem mais modestas.

A Petrobras acredita que pode chegar a uma produção de 7 a 8 milhões de barris por dia se todos os investimentos previstos no plano atual derem certo, mas isto não será alcançado antes de 2035, quando a crise já deverá estar instalada. Embora esta seja uma produção importante para nós, ela fica longe de compensar a queda de oferta prevista de outras fontes, sendo menos de que 8% do consumo mundial projetado para meados da próxima década, de 105/110 Mb/dia. Já a produção canadense cobrará investimentos gigantescos para se expandir e implicará em uma espetacular destruição ambiental em uma área superior ao estado de Minas Gerais naquele país. Por outro lado, o petróleo obtido do betume é o de pior qualidade e de maior custo em toda a história do petróleo.

Alguns países poderão se voltar para explorar jazidas de carvão e processá-lo para gerar um sucedâneo líquido do petróleo, mas com custos muito mais altos e com uma fortíssima emissão de gases de efeito estufa, salvando a economia por um lado e ferrando o planeta por outro. Deve ser o caso da China e da Índia, mas os hoje poderosos países da União Europeia vão ficar a descoberto já que sua dependência de importações de combustíveis fósseis é total.

O que se espera é um movimento de disputa que vai levar a guerras mais ou menos localizadas. Os analistas gostam de lembrar que a disputa pelo petróleo foi definidora da maior parte das guerras travadas no século passado e no início deste em que estamos.

A história mostra que a Segunda Guerra mundial foi ganha pelos dois países com acesso às maiores reservas de petróleo, os Estados Unidos e a União Soviética, com a Alemanha e o Japão tentando tomar conta de áreas capazes de fornecer petróleo para o esforço de guerra, a primeira tentando chegar aos poços de Baku (e travada pela derrota em Stalingrado) e a segunda tentando destruir a frota americana em Pearl Harbor para garantir o acesso ao maior produtor da Ásia naquele momento, Sumatra. Mais recentemente, a queda do regime do apartheid na África do Sul só ocorreu quando o embargo internacional de petróleo levou à capitulação dos dirigentes brancos daquele país. E não esqueçamos das ações bélicas americanas no Kuwait, no Iraque, na Líbia e no Afeganistão, todas relacionadas a esforços de controle de fontes de petróleo ou (no último caso) de gás. Ou ainda, apenas dias atrás, o ataque de Trump à Venezuela.

Tudo isso levanta a preocupação sobre o futuro da nossa exploração no pré sal. Independentemente da correção ou não das intenções expansionistas da Petrobras (acho que os quase 100 bilhões de dólares previstos poderiam ser mais bem utilizados para financiar a transição para uma economia descarbonizada) não duvidemos que os nossos irmãos do norte” não deixarão de mirar na nossa riqueza subaquática, explorada ou a explorar.

O choque de oferta de petróleo atual pode ficar catastrófico se a guerra se prolongar a ponto das reservas estratégicas existentes, sobretudo nos EUA, se esgotarem. Com a oferta de petróleo caindo abaixo da demanda os preços vão subir para níveis estratosféricos, batendo os 150 dólares por barril do auge da crise de 2008. Os primeiros a pagar pela crise vão ser os países mais pobres e os sem recursos energéticos próprios, no primeiro caso a maior parte do Sul Global e, no segundo, a União Europeia.

Uma diminuição brusca da oferta de combustíveis replicaria em escala mundial o impacto do fim do bloco soviético em 1989. Em países que dependiam inteiramente do petróleo russo subsidiado por razões políticas, como Cuba e Coreia do Norte, o baque na economia, nos transportes e na produção agrícola foi brutal e a fome tornou-se endêmica, enquanto as pessoas passaram a se deslocar em bicicletas e a iluminação passou a ser racionada.

Nunca é demais lembrar que o petróleo não é “apenas” a base de todo o transporte no mundo, mas está presente em inúmeros objetos de consumo corrente: alimentos, produtos eletrônicos, tecidos, plásticos, cosméticos, medicamentos, outros. Raros são os objetos que não são produzidos (e transportados) graças ao petróleo. O essencial do modo de vida contemporâneo repousa sobre a oferta abundante de petróleo. Para resumir, o peso do petróleo no mundo atual basta saber que a energia contida em um galão de 50 litros corresponde à força física fornecida por mil pessoas ao fim de uma diária de trabalho árduo.

Além de substituir trabalho físico, o petróleo, como vimos acima, está presente em milhares de produtos de consumo corrente e temos a tendência a esquecer que, embora seja possível encontrar substitutos para o uso desta comodity como combustível, o seu papel nas indústrias é muito mais difícil de ser substituído. Devíamos estar economizando petróleo para este uso mais “nobre”, em vez de queimá-lo nos transportes e na produção de energia elétrica.  

Para um país como o Brasil, com acesso a petróleo suficiente para cobrir as necessidades do mercado interno, o problema vai ser a insuficiência da nossa capacidade de refino que nos faz exportadores de óleo cru e importadores de gasolina e diesel. Construir refinarias seria um caminho, se não fosse o tempo, quatro a cinco anos, para entrarem em produção.

Uma outra debilidade menos percebida é a nossa dependência da importação de fertilizantes, hoje da ordem de 80% do consumo. Podemos produzir fertilizantes nitrogenados (já o fizemos no passado, mas abandonamos este investimento), mas também neste caso há um delay entre a decisão de construir novas refinarias e a sua entrada em operação. Mais difícil vai ser resolver a falta de fosfatos e potássio, quase inexistentes na geologia do país.

A transformação em larga escala de lixo orgânico e lodo de esgoto em fertilizantes poderia resolver uma boa parte da nossa demanda de nitrogênio, fósforo e potássio, mas, mais uma vez, há prazos mais ou menos longos para se implantar biodigestores em várias escalas em todo o país e o agronegócio não pode esperar. Sem fertilizantes a produção agrícola convencional vai entrar em colapso e o impacto na oferta e nos preços dos alimentos vai ser gigantesco, exigindo importações de produtos básicos e derrubando exportações que tem sido uma âncora para a nossa balança de pagamentos. Para piorar, uma crise internacional do petróleo vai reduzir a oferta de alimentos no mundo e o custo do seu transporte vai fazer com que as exportações se dirijam para quem pode pagar preços bem mais altos. Neste caso, vamos disputar as compras com blocos mais ricos, como a União Europeia.

A solução estratégica para a produção de alimentos e outros produtos agrícolas vai ser a adoção de um modelo agroecológico que dispensa o uso de fertilizantes químicos, mas isso vai cobrar uma radical transformação agrária no país, pois a agroecologia opera na escala da agricultura familiar, hoje em queda no número e na participação no produto agropecuário total. Leva tempo fazer uma reforma agrária radical e mais ainda construir respostas técnicas diversificadas para os diferentes ambientes produtivos e a sua aplicação pelos agricultores familiares.

Todas estas considerações são hipotéticas e a crise imediata pode ser superada antes da catástrofe, se Trump arriar a bandeira e parar a guerra. Mas a ameaça fica apenas adiada e não superada, até a próxima crise. Faz falta pensarmos desde já em uma política de transição energética e do modelo produtivo agropecuário para escaparmos da dependência dos combustíveis fósseis e dos adubos químicos. Não é isso que estamos vendo no contexto atual do debate pré-eleitoral.

Para completar, o quadro fica ainda mais aterrorizante se introduzirmos na equação a ameaça muito concreta da emergência climática. A crise do petróleo pode levar à exacerbação das emissões de gases de efeito estufa (com o aumento do uso de combustíveis com emissões ainda maiores de GEE (como o carvão, o tight oil e as areias betuminosas) com todos os efeitos desastrosos que já identificamos em outros artigos. O que precisamos para escapar do desastre ou para minimizá-lo é pensar em um novo modelo de desenvolvimento de forma holística, sem querer tapar o sol com a peneira e sem buscar soluções paliativas.

No imediato, o governo está “esvaziando o oceano com um balde”, tentando impedir que o espetacular aumento de preços no mundo chegue aos nossos postos de gasolina e diesel. Seria mais racional elevar os preços internos dos combustíveis para os particulares e subsidiar os serviços essenciais. Isto exigiria outras medidas incontornáveis, como expandir os serviços de mobilidade urbana coletiva. E tudo isso leva tempo e custa dinheiro de investimentos pesados. Vamos pagar o preço da falta de visão estratégica do governo (e de todos os governos anteriores) que estimularam sistematicamente a expansão do transporte individual em automóveis e o uso de caminhões no transporte de cargas.

Precisamos de um plano de emergência para o Brasil com foco nas necessidades básicas do nosso povo e não na medíocre (e suicida) busca de gerir a crise terminal do capitalismo (Lula + esquerda) ou aprofundá-la (Bolsonaro + Centrão).


Jean Marc von der Weid

Presidente da UNE entre 1969 e 1971

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983

Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta



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