Ditadura nunca mais!

Berna Menezes

Era dia 3 de fevereiro de 1983. Já estava passando o horário da saída do ônibus. Íamos viajar eu, Francisco Cavalcante e Fernando Carneiro para um curso da Convergência Socialista em São Paulo. Eu, nervosa na rodoviária e nada dos dois chegarem. O motorista me disse que não esperaria mais e saiu. Eu não estava com a minha passagem, só me restava voltar para casa. Mas a indignação com os dois irresponsáveis, que não apareceram, me levaram até a sede da Convergência, em Belém, para xingar os dois.


Nossa sede era uma casa grande, com duas salas e uma cozinha e banheiro em baixo e 4 quartos em cima. Ficava em uma vila com 3 casas ao lado do Museu Emílio Goeldi. Neste dia estava marcada uma reunião grande de universitários para formar uma chapa para o DCE da UFPA. Quando entrei na vila, já de noite, na janela da casa do meio, estava um vizinho inconveniente que sempre mexia comigo. Neste dia ao invés de dizer as besteiras sobre mim, disse: “eu ficaria aqui fora, lá dentro está muito quente”. Eu com raiva dos dois e indignada com o vizinho, nem dei bola e cheguei na sede e abri a porta. Neste momento um homem do lado de dentro da sede segurou no meu pulso e me puxou para dentro da sala. Você está presa, nome completo. Aí me dei conta da situação. Na primeira sala estavam sentados junto as paredes nossos militantes e de pé vários policiais a paisana armados de fuzis e outras menores que não soube identificar. Quando fui falar meu nome, um dos policiais, que depois soube que era da Federal, disse:”Ela é a Berna Menezes e apontou para meus cartazes das eleições de 82, onde estampava uma foto grande e meu número.


Na outra sala mais militantes sentados, mais policiais, na cozinha montaram uma delegacia. Um delegado da PF, dois escrivães com duas máquinas de escrever, um fotógrafo. Nós éramos fotografados e seguimos para ser fichados. Éramos mais de 50 jovens. Ficamos presos até o dia seguinte.


Dos 50, 25 foram indiciados, 8 enquadrados na Lei de Segurança Nacional e julgados quase um ano depois. Acusados de subversão, aliciar jovens em fim de colocar em risco a segurança da nação. Foram inúmeras audiências, depoimentos até o julgamento onde tivemos como advogado o brilhante José Carlos Castro. Como o julgamento foi em 84, coincidiu com a campanha das Diretas Já! Lula esteve presente e denunciou no Ato, como 8 jovens poderiam por em risco a segurança da nação.


No final, fomos absolvidos e declarado ausência de crime. Obrigada a todos e todas que foram solidários. Em particular o Deputado do PCdoB e meu amigo Paulo Fonteles, assassinado anos depois por sua luta contra o latifúndio. Aos dirigentes de minha organização na época a querida Convergência Socialista. Aos nossos pais que sofreram mais que nós, mas principalmente aos meus e minhas companheiras que enfrentaram aquele momento difícil. Conchita Menezes, João Batista Araújo, Francisco Cavalcante, Fernando Carneiro, Luzio Horácio(já falecido), Maristela Lopes e Vinícius Teles. Éramos quase 100 militantes em Belém e muitos sumiram depois da prisão, com medo. Quero agradecer os que ficaram Lurdinha, Dina, Mirian, Zé Flávio, Cláudio, Pauline, querido”Qualhada”, Figueiredo e alguns poucos mais.


Nunca me arrependi do caminho de vida que escolhi. Fico muito feliz em ver que não foi em vão. Que o caminho pelo Socialismo ainda tem muita luta pela frente. Pelos que morreram para nós estarmos aqui, pelos que foram torturados, exilados, perderam familiares, empregos. Para vocês camaradas de batalha contra a ditadura eu ofereço as palavras do querido Mujica:

“Como seria a condição humana se não houvesse militantes?
Não porque os militantes sejam perfeitos, porque tenham sempre a razão, porque sejam super-homens e não se equivoquem. Não é isso. É que os militantes não vem para buscar o seu, vem entregar a alma por um punhado de sonhos. Ao fim e ao cabo, o progresso da condição humana depende fundamentalmente de que exista gente que se sinta feliz em gastar sua vida a serviço do progresso humano. Ser militante não é carregar uma cruz de sacrifício. É viver a glória interior de lutar pela liberdade em seu sentido transcendente”
(Pepe Mujica)

Berna Menezes

Berna é Secretária Geral do PSOL e dirigente nacional da corrente Fortalecer o PSOL.


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