DIA INTERNACIONAL DA MULHER: DESPERTAR DE UMA CONSCIÊNCIA DE LUTAS 50 ANOS ATRÁS – AMAURY MONTEIRO

Transcorria o final do mês de março de 1973, no DEOPS-SP, após passagem violenta pelo DOI-CODI SP, quando grande movimentação ocorreu nos corredores do cárcere, quebrando aquela pasmaceira e sensação de profundo abandono, onde os dias e as noites se confundiam com um eterno esperar a que eram submetidos os presos políticos no aguardo do seu destino: ou de voltar ao DOI CODI e recomeçar o ciclo de torturas ou de ser encaminhado ao delegado de plantão para a formalização do inquérito policial para julgamento por crimes contra a Segurança Nacional pela Justiça Militar.


Naquele dia, a valorosa companheira Amelinha Teles havia escrito num papel “Viva o dia Internacional da Mulher” ou algo semelhante, num momento em que não havia essa data instituída e comemorada, muito menos com flores… Faço aqui um hiato explicativo: flores, para mim constitui-se um grande desrespeito às mulheres e às suas lutas e conquistas, já que nós, os homens usamos esse ato como reafirmação de nosso poder machista. Mas isso não vem ao caso.


Fato é que os agentes da Ditadura Militar leram o cartaz e o interpretaram corretamente, era um chamado às companheiras de cela para se unirem na luta, para se enfileirarem, não se desesperarem, para cerrarem fileiras… e lá se foi a companheira Amelinha para responder a mais uma acusação de crime contra a Lei de Segurança Nacional, afinal ousou defender o Dia Internacional da Mulher, que apesar de ainda não estar instituído, representava enorme perigo para a Ditadura Militar e para todos aqueles que sempre sonharam e foram educados a achar natural que as mulheres fossem submetidas aos caprichos machistas da sociedade.


De lá para cá, faço sempre questão de lembrar que graças a essa valorosa companheira e a muitas outras o movimento das mulheres avançou muito, não tanto quanto era necessário, mas avançou e há de avançar muito mais porque esse é, e sempre será, um dia de muita luta que lembra as conquistas havidas, as lutas contra os retrocessos recentes, onde menino usava azul e menina rosa, e prepara para as lutas futuras que nossas próximas gerações haverão de travar.


Viva o Dia Internacional da Mulher, um dia de luta!

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Amaury Monteiro Junior, engenheiro civil, militante ambientalista, presidente Conselho Deliberativo Engenharia pela Democracia, participante da Comissão Facilitadora do Geração 68.


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