SE VÁS PARA CHILE… (PARTE 9)

Jean Marc von der Weid, julho de 2023

Escrevi vários textos contando uma dezena de episódios protagonizados por companheiros e companheiras, eventualmente com filhos e filhas, refugiando-se em embaixadas. Evitei distribuí-los um por um e foi uma prudente decisão. Ao reler o conjunto fui me dando conta de que eram muito repetitivos, quase que burocráticos. É claro que para os e as que viveram a experiência, com seus riscos maiores ou menores, cada evento foi um drama. Lidos 50 anos depois, entretanto, a repetição de situações não acrescenta nada e não retrata a permanente tensão que viveram, eles, eu e as outras pessoas que me ajudaram. Decidi fazer uma seleção, apresentando os casos mais dramáticos ou com alguma singularidade, poupando os leitores de alguns bocejos.

Escolhi relatar as “fugas” do Luizão Sanz, Didi e a filha de colo; a do Betinho e a do Samuca, com a Irene e um bebê.

  • De como a família Sanz entrou na embaixada da Argentina.

Com os dias passando intensos e tensos, os brasucas que foram ficando para trás se tornaram raros e eu me acostumei a buscar aconchego entre alguns deles. O irmão do Luizão, Sérgio, morava nas Torres de Tajamar, se é que me lembro do nome exato deste conjunto residencial, onde também vivia ainda o poeta maranhense Ferreira Goulart, que a nossa turma comum de praia de Ipanema nos anos 80/90 apelidamos de “índia velha” (pode não parecer, mas o apelido era carinhoso). O apartamento onde o Sérgio vivia com a companheira Regina e uma filinha recém-nascida era no térreo e com as portas abertas para pássaros errantes, como eu. Sérgio foi um dos dois brasileiros, (ao que eu soube), que obedeceram a ordem do Pinóquio (Pinochet), ameaçando os estrangeiros que não se apresentassem à polícia. O outro foi o almirante —–, que vestiu farda e colocou medalhas e foi mandado de volta para casa pelos carabineiros. Como o Sérgio e Regina não eram refugiados e tinham a “proteção” do passaporte brasileiro, ele preferiu correr o risco e, logo no segundo dia do golpe, foi se entregar em um retém de carabineiros. Deu ruim. Foi levado para o estádio de Chile, onde ficou por quatro dias que me relatou em detalhes. Entre outras coisas, ele contou o episódio em que os policiais identificaram o Vitor Jara no meio dos presos. O cantor foi imediatamente agredido a coronhadas que esmagaram uma das suas mãos, algo simbólico para um tocador de violão. Segundo contou, Jara reagiu cantando o hino da unidade popular, o Venceremos, seguido em coro por todos os presos. A reação dos milicos foi disparar as metrancas para o alto e impor o mais total silêncio no estádio, enquanto levavam o cantor para seu destino fatal em outro lugar. Sérgio voltou para casa em estado de choque, comprou uma caixa de vinho Tarapacá (ex-Zavalla), e passou dias enchendo a cara, alguns em minha companhia. Lá pelas tantas, ele acordou para o fato de que não tinha notícias do irmão, que morava em uma casa em um bairro pituco que não me lembro, talvez Vitacura. Fomos até lá na citroneta do Sérgio e encontramos a casa fechada e às escuras. Deixei o Sérgio no carro e dei uma volta entorno da casa, chamando pelo Luizão. O silêncio era total e eu ouvi alguns ruídos no interior. Bati nas portas e janelas até que ouvi a voz do Luizão mandando eu calar a boca. A porta entreabriu-se e eu tomei um susto quando vi o meu companheiro dos setenta se arrastando de quatro. “Está ferido?”, perguntei, entrando na sala. Ele mandou eu me abaixar e disse que estava há vários dias fingindo que tinha abandonado a casa, para evitar alguma perseguição dos vizinhos momios. “Vamos embora”, disse eu logo, “levo vocês para a embaixada da Argentina”. Didi já tinha uma maleta com o necessário para o bebê e em três tempos estávamos no carro a caminho do apartamento do Sérgio, onde eles passaram a noite antes da fuga na manhã seguinte. Depois de um jantar tenso e algum vinho expliquei a manobra já muito utilizada para entrar na embaixada. “Vocês vão caminhando pela calçada assim como quem está passeando em um domingo comun y corriente”, como diziam os chilenos. “Os dois pacos que ficam no portão não conseguem bloquear a passagem. Passem entre eles correndo de surpresa. Eles não podem entrar no jardim atrás de vocês para fazê-los sair.” Até então não tinha havido nenhum caso de refugiados agarrados no portão, bastava serem rápidos na manobra de esquiva e estariam a salvo. Luizão ficou nervosíssimo pois o risco não era só dele, mas de toda a família. “Não dá para negociar a entrada?”, perguntou. Fiquei atônito. “Tá louco?, se parar para conversar eles te agarram”. Luizão tomou várias pílulas de tranquilizante e foi tentar dormir, sem sucesso. Na manhã seguinte, o Sérgio e eu fomos levá-los até a Irrarrazabal e nos postamos do outro lado da rua. Era um domingo cedo e a rua estava vazia, ou quase, com alguns transeuntes passeando a alguma distância do portão. Quando os Sanz se aproximaram, um dos pacos se juntou-se ao outro para acender um cigarro e eu comentei com o Sérgio: “haja sorte, a entrada está escancarada”. Inexplicavelmente, Luizão parou na entrada e olhou para nós, em vez de entrar. Os pacos vieram correndo, Didi arrastou o Luizão, paralisado pelos muitos tranquilizantes que tomou e pelo terror do risco de sua família, e deram uns passos para dentro do jardim. Eu e o Sérgio nos torcíamos de apreensão e nos horrorizamos quando os pacos entraram no jardim e agarraram o Luizão, puxando-o para fora. Era uma cena dantesca, os dois chileninhos fardados com as metrancas nos ombros, tentando arrastar o enorme Luizão e levando uma saraivada de bolsadas da Didi. Neste momento, o portão ficou totalmente desguarnecido e os “serenos transeuntes” que passeavam pela rua dispararam para a embaixada. Três deles entraram correndo e deram de cara com os pacos no jardim. Eles se desviaram e sumiram na embaixada. Um dos pacos abandonou o Luizão e voltou para o portão para impedir outras fugas. O entrevero entre os Sanz, com Didi abraçada na filha e puxando o Luizão, e o paco restante que gritava “salga señor, salga!”, agarrado no outro braço, estava sendo perdido e eu estava em pânico sem saber o que fazer, quando um funcionário da embaixada apareceu e obrigou o guardinha a soltar o nosso querido compa. Os Sanz sumiram na embaixada e eu e Sérgio fomos para as Torres comemorar. Lembro de chegar no apartamento e ir direto para o banheiro, quase mijado de tensão. Foi a fuga mais perigosa dentre as dezenas que ajudei a fazer acontecer.

  • A fuga da família Aarão Reis (a do Samuca).

Não me lembro onde encontrei com o Samuel, meu contemporâneo de movimento estudantil no Rio de Janeiro, mas que eu mal conhecia. Ficamos amigos muito depois, quando voltamos a nos encontrar na Bahia, ambos atuando em ONGs junto a movimentos sociais. No Chile, eu discuti com ele e a sua companheira Irene a entrada na “embaixada do Panamá”, na verdade a residência do Teotônio e da Vânia, cedida ao embaixador como extensão da verdadeira, tomada por uma centena ou mais de refugiados.

Na hora de sair para a operação fuga, a Irene apareceu com uma enorme mala. “Deixe isso para trás”, disse eu. “Chama muito a atenção e há um grupo de pacos mais numeroso do que na embaixada da Argentina”. Irene insistiu pelas necessidades do neném e eu prometi levar a mala e entregá-la na embaixada depois que estivessem lá dentro. Mais uma vez fui me colocar do outro lado da rua para ver se tudo dava certo. Não entendi por que o portão estava fechado e guardado por outros refugiados, enquanto os pacos ficavam agrupados a pequena distância. Cheguei a propor ao Samuca deixar para outra ocasião, mas ele decidiu arriscar. Foram andando até o portão sem qualquer reação inicial dos pacos, mas houve um momento de hesitação e discussão com os refugiados antes de abrirem a cancela. Foi justo a tempo, pois os pacos já se dirigiam para eles.

Horas depois fui até a embaixada com o meu passaporte e papéis da embaixada suíça e levando a mala da Irene. Conversei com os pacos que, depois de alguma vacilação, me deixaram fazer a entrega depois de uma revista. Abri a mala e um paco a revirou, encontrando muita coisa de bebê, fraldas, mamadeiras, roupinhas. Eu estava tranquilo até que o paco apertou uma meia de bebê e achou algo duro. Ao investigar encontrou um rolo de dólares que ele segurou e ficou me olhando. “Esta família vai precisar disso para sobreviver em outro país”, argumentei, já dando as verdinhas por perdidas. Para minha surpresa o paco olhou para seus parceiros e, verificando que não tinham visto o dinheiro, colocou-o de volta dentro da meia e virou-me as costas. Entreguei a mala na embaixada e fui embora, pensando que havia humanidade mesmo entre estes agentes da repressão.

  • A fuga do Betinho.

Este episódio embaralhou-se na minha memória e peço aos que assistiram que me corrijam, se for o caso.

Foi em um encontro com o Serra que fiquei sabendo da situação do Betinho. Ele tinha se refugiado em seu local de trabalho, na FLACSO, que estava cercada por uma forte guarnição de pacos. Eles não podiam entrar por ser a FLACSO uma entidade internacional, mas não deixavam ninguém sair sem ser inspecionado. Serra tinha um passaporte italiano, que ele, macaco velho, tinha pelejado para conseguir há algum tempo antes do golpe. O Serra estava fazendo algo parecido com o que eu fazia, mas correndo riscos muito maiores por ser uma persona política conhecida no Chile, dirigente do MAPU Gasmuri e vice-ministro da economia do governo Allende. Sei que muita gente não gosta do Serra pelo que ele se tornou depois da volta ao Brasil, em particular ao aderir ao governo golpista de Temer. Mas no Chile ele teve um comportamento solidário e ousado, quando poderia ter se metido na embaixada da Itália e ficado em segurança. Preocupado com o Betinho, o Serra topou levá-lo para a embaixada do Panamá. Tirá-lo do prédio da FLACSO cercado de pacos é algo que não vi. Fiquei na citroneta (quase todos os brasileiros motorizados tinham citronetas) esperando e soube apenas que o Serra e o Airtom Fausto tinham conseguido levar o Betinho por uma saída meio oculta que dava em uma rua discreta. Seguimos os três para a embaixada, a verdadeira, a entulhada de gente (foi antes da incorporação da residência de Teotônio ao patrimônio da Panamá).

Eu tinha visitado o embaixador mais de uma vez para negociar a entrada de refugiados no pequeno espaço da modesta embaixada. O personagem era um poço de contradições. Abriu a embaixada para os perseguidos, mas frente à maré de gente, trancou as portas e ameaçou fechar a embaixada em várias ocasiões. No caso do Betinho ele foi taxativo, as portas ficariam fechadas e se ele achasse jeito de entrar seria posto para fora. No caminho da saída encontrei a Maria do Carmo (Lia) e expus o problema. Ela me indicou uma janela lateral e me disse para levar o Betinho para lá e ela organizaria um grupo para mantê-la aberta e facilitar a entrada. Nada como uma pessoa decidida para resolver os problemas! Assim foi feito e deu certo. Não sei se o embaixador ficou sabendo da manobra. Na confusão da multidão que não tinha nem onde todos se sentarem talvez ele nem tenha percebido o contrabando humano pela janela. Ou talvez tenha feito vista grossa, apesar das ameaças.

No caminho para a embaixada atravessamos uma praça, acho que foi a Itália, e subitamente estourou um tiroteio. Serra e eu nos abaixamos para evitar uma bala perdida, ele dirigindo com um olho acima do volante e eu com a cabeça entre as pernas. No meio da confusão, olhei pelo retrovisor e vi o Betinho ereto, impávido, olhando os pacos que atiravam de um e outro lado. “Abaixe-se Betinho”, gritei apavorado com o risco que corria. A resposta veio calma, como sempre foi o jeito do Beto: “não tenho medo de bala. Se levar um tiro eu morro de hemorragia rapidamente. Tenho medo é de pedra. Uma pedrada abre um cortezinho e sangra por horas. Muito mais sofrido. Coisas de hemofílico”. E não se abaixou. Não sei se apreciei a bravata naquelas circunstâncias, mas a tranquilidade do Betinho na hora do perigo foi impressionante. Não só a calma, mas a pachorra de fazer piada com sua grave condição física no meio do vendaval.

  • O caso do Ricardo.

Depois de levarmos o Betinho para a embaixada do Panamá, eu tive uma ideia de gerico e comentei com o Serra que tinha acabado de saber que o Ricardo Azevedo tinha sido preso nas Torres San Borja e levado para o Estádio Nacional. Sabia que uma gestão junto aos milicos poderia ter o dom de fazê-los vacilar em dar sumiço no Ricardo, naquelas horas perigosas de uma recém captura. Tinha havido um escândalo internacional recente com a prisão e assassinato de duas freiras francesas e os golpistas estavam preocupados com estes eventos. Propus ao Serra que usássemos os nossos passaportes estrangeiros para pedir informações sobre o Ricardo, indicando que havia uma preocupação internacional com este preso. Serra, que não gostava nada do Ricardo pelas muitas brigas na luta interna da AP, perguntou como é que faríamos isso e eu sugeri que fossemos, candidamente, pedir informações no comando da guarnição de Santiago, que ficava em um prédio na Alameda. Pensando melhor, aquilo não podia ser o comando da guarnição, por não ser um quartel, mas na minha memória ficou esta qualificação. A ideia era, como disse, de gerico, pois bastava que algum milico resolvesse verificar as nossas credenciais e teríamos que dar explicações que nos enrolariam e poderiam levar à nossa prisão. Mas eu estava inebriado com o sucesso das minhas ousadias e acreditando que era, como me apelidaram alguns amigos, “imortal”. Surpreendente, foi o Serra topar esta manobra insana, já que os riscos para ele eram muito maiores. Entramos no antro do exército chileno e fomos pedindo para ver um oficial superior. Passamos de sargento a tenente, a capitão e, finalmente, um major que se apresentou como o relações públicas da unidade. Fizemos o nosso pedido de informação dando o nome, data e local da prisão e cobrando que a resposta fosse encaminhada para as embaixadas da Suíça e da Itália. Assumi o papo com o oficial, adotando o meu espanhol esfarrapado e misturado com palavras francesas que disfarçava o fato de que falava a língua de Cervantes perfeitamente. Serra não abriu a boca. O oficial ficou aturdido com a nossa iniciativa e apenas pediu os nossos dados e assegurou que daria a resposta. Saímos dali encharcados de adrenalina até a raiz dos cabelos. Aos poucos fomos nos dando conta de que tivemos uma sorte dos diabos pela falta de reação do oficial de serviço e eu confessei ao Serra que nunca tinha acreditado que ele topasse a aventura. “Nunca deveria ter participado desta loucura”, disse ele, “mas não quis recusar para não parecer que não me importava com o destino do Ricardo, dadas as nossas muitas contradições”. Não sei se a nossa ousadia ou insanidade teve algum papel no fato de que o Ricardo escapou incólume da sua prisão. E fica aqui a minha admiração pela hombridade do Serra ao se arriscar por alguém que ele detestava.

(continua)

Jean Marc Von der Weid

Ex-presidente da UNE entre 1969 e 1971

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983

Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016

Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta


Respostas

  1. Avatar de Maria da Graça Nóbrega Bollmann

    Obrigada pela divulgação da luta pela democracia no Chile.

  2. Avatar de Maria da Graça Nóbrega Bollmann

    Uma descrição triste, porém necessária para a socialização da história da coragem dos companheiros presos no Chile durante aqueles tempos hostis caracterizados pela injustiça e violência na luta pela democracia.

  3. Avatar de Vilma Amaro

    Parabéns pela coragem e iniciativa .Serra teve uma atitude digna e as pessoas que ajudavam refugiados políticos podem ser considerados heróis diante dos perigos.Victor Jara foi martirizado ,apenas por ser um grande artista que defendia trabalhadores , camponeses e o povo pobre.O Chile foi um março jamais esquecido em.nossas vidas

  4. Avatar de Maria Selma de Castro Araujo

    Obrigada por nos presentear com histórias que desejamos nunca se repetirem. Somente ficou a dúvida: o que aconteceu para que o Serra mudasse tanto seu posicionamento político. Lamento por isso.

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