Juacy da Silva
Apesar da vitória de Lula em 2022, por uma pequena margem de votos, percentualmente considerados, nas referidas eleições notamos o avanço tanto da direita tradicional quanto e, principalmente, da extrema direita.
A grande maioria dos governadores, com raras exceções, faz parte desse espectro ideológico, da mesma forma que o Congresso Nacional, Deputados e Senadores, formam a maioria dele. De forma semelhante nas Assembleias Legislativas o conservadorismo, enfim, a direita e a extrema direita estão dominando em todos os Estados.
Dando sequência neste avanço vieram as eleições municipais de 2024, onde os partidos de esquerda tiveram um desempenho frágil, podendo dizer medíocre em quase todos os Estados, deixando que a maioria das Câmaras Municipais e Prefeituras, fossem capturadas pelo PSD e pelo PMDB, além de um número significativo de prefeitos e vereadores dos partidos do Centrão e também, um crescimento do PL e seus aliados como o Republicanos e outros mais.
Notamos também que de uma forma clara a grande maioria da população evangélica e também do setor conservador da Igreja Católica, ou seja, a grande maioria das pessoas que demonstram filiação religiosa tem votado majoritariamente em candidatos desses partidos de direita e da extrema direita e o foco das críticas antes, durante e continuam após as eleições tem sido o PT e demais partidos de esquerda.
A estratégia tem sido a mesma de há décadas, como a questão do aborto, a ameaça do comunismo e socialismo dominar o Brasil, as questões de gênero e raça, as pautas econômicas e, também, o discurso contra a corrupção, associando esta prática nefasta sempre aos governos de esquerda, principalmente o PT; esquecendo que a corrupção existe há décadas ou séculos no Brasil, independente da esquerda estar governando.
Exemplos de inúmeros casos de corrupção praticadas por filiados ou quadros dirigentes dos partidos do Centro, Centrão, direita e extrema direita, como ocorreram em Mato Grosso, no Rio de Janeiro, no Amazonas, ou mesmo no Poder Judiciário, tribunais de contas, onde os partidos de esquerda não tem “representantes” nunca são mencionados. Isto é uma forma clara de macular a imagem dos partidos de esquerda perante a população, incluindo o uso das famosas “fake news” e discursos de ódio, tão em voga últimamente.
Outro fato que não podemos ignorar é a presença cada vez mais ostensiva e efetiva de representantes dos organismos de segurança, os chamados “aparelhos de repressão do Estado”, inclusive das Forças Armadas, elegendo “seus” representantes, principalmente para os Legislativos Federal e Estaduais, com uma agenda de defesa dos interesses dessas corporações e também pautas gerais ligadas as políticas internas e também da política externa, contaminando, ideologicamente essas corporações, que tem o monopólio do uso institucional da violência, a chamada violência do Estado, que se abate com maior ferocidade contra os trabalhadores, as massas, as minorias, principalmente a população afrodescendente.
Além disso, notamos também o crescimento da Bancada Ruralista , além das outras bancadas como a da Bala e da Bíblia, promovendo uma articulação conservadora que prima pelo desmonte e sucateamento das políticas públicas e dos organismos de controle do Estado.
Esses organismos deveriam estar voltados para resgatar a dignidade dos pobres, excluídos e também das camadas média e média baixa da sociedade brasileira Da mesma forma que o negacionismo ambiental/ecológico faz parte da ideologia conservadora desses partidos de direita e de extrema direita, o corolário não poderia ser outro que o sucateamento dos organismos de controle da Uniao, dos Estados e Municípios, e a “flexibilização” da legislação ambiental e trabalhista, propiciando que os crimes ambientais e o desrespeito aos direitos dos trabalhadores continuem de forma impune no país.
Nesta mesma linha, percebe-se o avanço da violência e a tentativa de criminalizar os movimentos sociais que defendem os trabalhadores, principalmente trabalhadores rurais, povos indígenas, quilombolas e grupos que defendem os direitos humanos e o meio ambiente. Prova disso tem sido o elevado número de assassinatos das lideranças desses movimentos nos últimos anos.
Além disso tudo, ainda tem o problema das alianças do Governo Lula, em nome da “governabilidade”, mas na verdade temendo que, por não ter maioria no Congresso nacional possa ter a mesma sorte ou azar que provocou o “impeachment” de Dilma, tem entregado não apenas diversos ministérios aos partidos do Centro e Centrão, todos de direita, diga-se de passagem e que poderão não estar com o Governo e nem com Lula em 2026, possibilitando mais uma derrota dos partidos de esquerda, alijando-os de qualquer parcela de poder. A eleição e posse de Trump nos EUA, além do fortalecimento da extrema direita em alguns países da Europa, principalmente, também é outro ingrediente que não podemos deixar de considerar, principalmente quanto o Governo dos EUA poderá “turbinar’ os movimenots e partidos de direita e extrema direita ao redor do mundo, principalmente na América latina e no Brasil.
Diante deste quadro e tendo em vista as eleições gerais de 2026, o desafio para os cristãos católicos e evangélicos, e mesmo os não cristãos, enfim, para os integrantes de partidos de esquerda, enfim eleitores/eleitoras que não comungam com o conservadorismo, com a alienação, o neo pentecostalismo, a manipulação dos fiéis, como evitar que a extrema direita, o bolsonarismo e também a velha direita tomem conta e dominem as Igrejas, os sindicatos, os movimentos sociais, as Associações de Moradores e conquistem mais fatias nos Poderes Legislativo e Executivo, nas três esferas de Governo: Federal, Estaduais e Municipais, criando condições objetivos para promoverem suas pautas.
É neste contexto que entra a discussão sobre a Vanguarda Revolucionária e o Partido de Vanguarda e o necessário apoio das massas, mas aí perguntamos: Será que existe esta Vanguarda Revolucionária e este partido de vanguarda, em nosso país, em condições de conduzir uma luta ampla que possa, de fato, barrar o avanço da direita e da extrema direita em sua caminhada para apoderar-se do Estado brasileiro e a partir daí implementar políticas públicas que facilitem apenas mais acumulação de capital e fortalecimento das estruturas do sistema capitalista, em detrimento da dignidade e dos direitos dos trabalhadores e do restante do conjunto da população?
Mesmo que o contexto histórico e as realidades do final do século XIX, tanto na Europa quanto na América Latina e no Brasil, até meados do Século XX, sejam bem diferentes da atualidade, podemos ainda identificar a alienação como um fator que continua marcando tanto a classe trabalhadora quanto as massas, facilitando, assim, tanto a cooptação quanto a manipulação das mesmas, por parte de partidos que tem como base a ideologia conservadora e defensora do capitalismo “puro” ou do neocapitalismo/neoliberalismo.
Além disso, a cada dia observamos a influência religiosa, principalmente dos grupos evangélicos conservadores, pentecostais e neo-pentecostais, da mesma forma que também na Igreja Católica grupos semelhantes ganham protagonismo, contribuindo para o fortalecimento dos partidos e ideologias de direita e extrema direita, influenciando não apenas os resultados das eleições, como temos visto ultimamente, mas também promovendo a formação de quadros que assumem as pautas desses partidos, “demonizando” tanto os partidos de esquerda quanto o socialismo e o comunismo, ou até mesmo a social democracia, taxando-os como ameaças a liberdade, a democracia (burguesa),a propriedade privada etc etc, apesar de que a grande maioria dos trabalhadores brasileiros e das massas de nosso país não terem renda e nem salário que lhes proporcione atender suas necessidades básicas e muito menos sequer a propriedade de moradias, além de continuarem sendo excluídas do acesso aos serviços públicos, que possam garantir-lhes um mínimo de dignidade humana.
Isto pode ser observado com a ênfase que os partidos de direita e de extrema direita advogam a redução do “tamanho do Estado”, a privatização de todos os serviços públicos essenciais como saúde, educação, saneamento básico, água, energia, transporte, alijando cada vez mais as massas e os trabalhadores que não dispõem de renda e salário suficientes para suprirem tais necessidades.
Na verdade, o que esses partidos desejam é o Estado mínimo para as massas, para os trabalhadores e a classe média, e o Estado máximo, para continuarem usufruindo de renúncia fiscal, incentivos fiscais, crédito subsidiado, sonegação consentida, as moratórias e outras formas e privilégios mais.
Quando se fala em Vanguarda Revolucionária e partido de vanguarda, sempre é bom voltar as origens desses conceitos e ver como se pode adequá-los para a realidade atual, seja no Brasil ou qualquer outro país da América Latina, da África ou da Ásia.
Por exemplo, de acordo com Ademar Bogo, mencionado por CÉLIA BARBOSA DA SILVA PEREIRA, em seu artigo “NOTAS SOBRE O PARTIDO POLÍTICO EM LENIN” de 2018, “o partido, para Lenin, deveria ser de novo tipo, ou seja, ser de ação revolucionária, orientar e conduzir a luta de classes, reunir os revolucionários e organizá-los em torno de tarefas imediatas, visando o enfraquecimento da classe dominante para levar a classe trabalhadora ao poder”.
Aqui cabe uma indagação, será que existem condições objetivas, no Brasil de hoje, para a existência de um partido com tais características? Ou a esquerda deve continuar atuando como uma “frente ampla”, com os riscos de alianças com partidos do “centro” ser engolida na dinâmica política-eleitoral, tornando inviável a construção de tal partido?
Este deve ser o foco das preocupações, ações e mobilizações tanto das massas quanto dos trabalhadores de todos os setores e áreas, incluindo também os trabalhadores e trabalhadoras do setor público. Vamos pensar um pouco mais sobre isto?
Quem tiver ideias, favor compartilhar, para que seja possível iniciar as ações, principalmente no que concerne a formação política e formação de novos quadros dirigentes e militantes.
Juacy da Silva

Professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, Sociólogo, Mestre em Sociologia, Articulador da Pastoral da Ecologia Integral na Região Centro-Oeste, Ambientalista. Ex Delegado da CONTAG – Confederação dos Trabalhadores Rurais em Mato Grosso. Ex Secretário de Planejamento e Gestão e Ouvidor Geral da Prefeitura de Cuiabá. Email profjuacy@yahoo.com.br Whats App 65 9 9272 0052





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