Mariluce Moura
Sonhos são, por vezes, uma espécie de pensamento mágico, um lugar inexistente de realização de desejos, diria, seguindo na trilha do velho sábio Sigmund. Dormi pensando na morte precoce de Preta Gil, desfecho inescapável de sua grave doença, a despeito de sua luta épica pela preservação da vida.
Por longo tempo prestei pouca atenção nessa moça valente, antenada que seguia, desde os anos 1960, nos meus contemporâneos conterrâneos, Gil, Caetano, Betânia e Gal, e numa vasta constelação de grandes músicos dados à luz sob a turbulência dos céus que, a par de extraordinários talentos artísticos, recobriam também uma feroz ditadura a perdurar por 21 anos. Lá emergiram e continuaram/continuam a produzir peças magníficas pelas décadas seguintes.
Entretanto, ainda sem ter lhe descoberto a beleza da voz, admirei a firmeza e a coragem daquela bela mulher negra que provocava os execráveis ditadores de medidas e padrões rígidos para a nudez feminina — esquálidos ou opulentos só em determinadas partes — ao aparecer na capa de seu primeiro disco, “Prêt-a-porter”, “vestindo” apenas uma medida do senhor do Bonfim. Preta, na verdade, com seu sorriso de menina, posara nua para a fotógrafa Vânia Toledo, e a gravadora foi que, ao ver as fotos, propôs cobrir os seios da cantora com uma tarja preta, ao que ela contrapôs disfarçar a chamada parte pudenda com a fitinha do Bonfim. É mesmo impressionante como os moralistas voltam sempre a revelar seu profundo incômodo com esse detalhe da anatomia feminina! Estávamos em 2003 e um sem-número de revoluções feministas já tinham se desdobrado ao longo dos séculos contra opressões de todo tipo às mulheres e seus corpos. Mas…
Acompanhei um pouco de longe a presença midiática e real de Preta Gil na cena pública, em sua defesa das lutas dos movimentos negros, feministas, LGBTQIAPN+, e na exposição corajosa de suas escolhas, amores, caminhos e inflexões de rota. Pude vê-la cantar com o pai e com a família quase toda em diferentes momentos. Impressionei-me com o vigor, a vitalidade e a força da presença de Preta Gil. E então veio a doença e seu impressionante enfrentamento contra a finitude, a me lembrar de início a jornada de Cazuza e, logo adiante, a poder reconhecer seu trajeto singular, inclusive na admissão de que era por ser privilegiada que podia investir tamanha quantidade de recursos (financeiros) nas batalhas contra o câncer. Inclusive na estonteante coragem de se submeter a uma cirurgia radical que, como vimos, duraria 25 intermináveis horas.
De tão formidáveis batalhas, ela foi se levantando a cada vez, sem medo de exibir fragilidades e cicatrizes. Sem duvidar de que merecia voltar ao mar e à piscina de maiô, levando a bolsa de colostomia que fora obrigada a usar. Sem medo de estabelecer, artista que era, uma poderosa conexão íntima e amorosa com uma multidão de brasileiras e brasileiros, para além dos vínculos com a família e os amigos.
E foi assim que fez sua despedida do palco, cantando com o pai no Allianz Parque, em São Paulo, a belíssima canção Drão, sobre amores que ultrapassam as separações, composta por seu pai para sua mãe, Sandra Gadelha, quando o casamento de ambos chegara ao fim. E foi assim que Preta Gil, 50 anos, e Gilberto Gil, 83 anos protagonizaram em 26 de abril de 2025 uma das mais emocionantes cenas da história da música brasileira.
Dormi pensando nisso. E sonhei, não com Preta Gil, mas com meu primeiro marido, assassinado há quase 52 anos, aos 24 anos, pela ditadura militar. Ele retornava de algum lugar e espalhava alegria na família, e entre os companheiros e companheiras de jornada. Então, acordei dominada por essa alegria, pensando nos amores que ultrapassam as separações e a morte. Pronta, de novo, para minhas próprias batalhas. Era preciso começar o dia, agradecendo a quem me levara, por sua jornada heroica, ao sonho reconfortante. Consolador.
Muito obrigada, Preta Gil! Descanse em paz. Muito obrigada, Gilberto Gil!
Mariluce Moura

Jornalista e pesquisadora, Mariluce Moura, nascida em Salvador-Bahia em 03/11/1950, é diretora-presidente do Instituto Ciência na Rua, organização não governamental de pesquisa e jornalismo de ciência voltada ao público jovem. Atualmente é também pesquisadora do INCT Combate à Fome, vinculado à USP, em seu eixo temático de Comunicação-Difusão Científica e Ciência Cidadã, e do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (Sou Ciência), vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Atua no campo do jornalismo científico desde 1988, depois de duas décadas de trabalho no jornalismo geral e econômico em grandes jornais e revistas brasileiros. Criou e foi diretora, de 1999 a 2014, da revista Pesquisa Fapesp, editada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Deu início à implantação do setor de comunicação dessa fundação em abril de 1995 e foi sua gerente de comunicação de dezembro de 1995 a julho de 2002. É professora titular aposentada da Universidade Federal da Bahia, reintegrada em dezembro de 2015, por decisão da Comissão da Anistia/Ministério da Justiça, 40 anos após ter sido demitida por perseguições políticas da ditadura militar de 1964-1985. É graduada em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (1972), mestra (1987) e doutora (2006) em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e tem um pós-doutoramento pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp, 2019). Lançou no Memorial da Resistência de São Paulo, em outubro de 2023, por ocasião dos 50 anos do assassinato pela ditadura de Gildo Macedo Lacerda, seu marido, o livro A revolta das vísceras e outros textos, edição ampliada de seu romance premiado publicado em 1982. No mesmo ato, Tessa Moura Lacerda, sua filha, professora de filosofia da USP, lançou Pela memória de um paí[s]: Gildo Macedo Lacerda, presente!. Mariluce Moura foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.





Deixe um comentário