A guerra de classes que a esquerda insiste em não ver: uma análise marxista da ofensiva da direita brasileira

Lígia Bacarin

Enquanto setores majoritários da esquerda brasileira ainda navegam nas águas turvas da conciliação de classes, a extrema-direita executa, com frieza e precisão, uma cartilha clássica da luta de classes. O recente espetáculo operacional no Rio de Janeiro, com sua retórica de “guerra” e “narcoterrorismo”, não é um fato isolado. É um movimento tático dentro de uma estratégia maior, um ensaio para uma nova e agressiva ofensiva da burguesia, que entende perfeitamente a natureza do momento histórico e age para preservar e ampliar seu poder.

Os conceitos marxistas não são relíquias de um museu; são ferramentas afiadas para desvendar o presente. A tabela abaixo resume as categorias fundamentais para esta análise:

Conceito Marxista  

Luta de Classes: Conflito central entre o projeto da burguesia (aliada ao imperialismo) e os interesses da classe trabalhadora e do povo oprimido.

Imperialismo: Estágio monopolista do capitalismo onde a dominação econômica e a ingerência política se fundem. A subordinação hemisférica aos EUA é um pilar da ofensiva direitista.

Antagonismo de Classes:  Interesses irreconciliáveis: a direita busca o lucro máximo via espoliação; a esquerda deve defender a soberania e os direitos sociais, impossíveis sob este modelo.

A Estratégia Orgânica da Direita: O Caos como Projeto

A direita brasileira, em sua fração bolsonarista de extrema-direita e nos governos estaduais aliados, não está “reagindo”. Está ofendendo. Suas ações seguem um roteiro claro, que bebe diretamente das fontes do que Lênin chamou de a época do capital financeiro e dos monopólios”, onde a política se subordina completamente aos interesses econômicos.

  1. A Fabricação do Inimigo Interno: A adoção do termo “narcoterrorismo” é uma jogada de mestre no campo da luta ideológica. Trata-se de importar um vocabulário de Washington para, como bem analisado, transformar um problema complexo de crime organizado em uma “ameaça hemisférica”. Isso justifica a exceção, a violência estatal e, não por acaso, abre espaço para uma maior ingerência externa, reeditando a Doutrina Monroe para o século XXI. É a “operação de linguagem que antecede a operação política”.
  2. O Federalismo Beligerante: A criação de um “consórcio” de governadores de direita, como o iniciado por Cláudio Castro (RJ), é um movimento de fragmentação do poder nacional. É um ensaio para um federalismo de guerra, onde unidades da federação controladas pela direita atuam em bloco para enfraquecer o governo federal, criar fatos consumados no território e forçar uma resposta federal que possa ser lida como “autoritária”. É a tática de criar o caos para depois se apresentar como a única solução possível.
  3. A Articulação com o Capital Internacional: O governo Trump, através de medidas como o “tarifaço” e ameaças de sanções, atua como o braço externo dessa ofensiva. O objetivo é claro: pressionar economicamente o Brasil, fragilizar sua soberania e, no campo político interno, fortalecer as forças que são ideologicamente alinhadas e subordinadas aos seus interesses. É a materialização da dominação imperialista, que busca garantir zonas de influência e acesso a mercados e recursos.

O Dilema da Esquerda: Conciliação versus Conflito

Enquanto isso, o campo popular e de esquerda patina em uma crise profunda, cujas raízes são, em grande parte, a opção estratégica pela conciliação. O lulismo, enquanto fenômeno político, conseguiu conquistas sociais importantes, mas se consolidou como uma estratégia “despolitizadora e desmobilizadora”, que acreditou ser possível administrar o Estado burguês sem enfrentar suas estruturas fundamentais.

A esquerda majoritária foi “adestrada para a conciliação”, como você bem pontuou. Ela opera dentro dos marcos institucionais e discursivos herdados, tentando “gerir a crise” do sistema em vez de confrontá-lo diretamente. O resultado é uma desconexão perigosa entre uma retórica que, em tese, representa os trabalhadores, e uma prática que não consegue responder à guerra híbrida e multifacetada movida pela direita. Esta, por sua vez, avança combinando parlamento, mídia, guerra jurídica, milícias e uma agressiva guerra cultural.

A Capitulação e a Consolidação da Hegemonia Direitista

Se a estratégia da extrema-direita era criar um fato político que mudasse a agenda nacional, ela foi bem-sucedida além do esperado. O texto de Gilberto Maringoni, “LULA PÓS-TRUMP: PUSILANIMIDADE DEPOIS DA MÃE DE TODAS AS CHANCINAS”, aponta para o desfecho lógico, porém assustador, desta crise: a rendição do campo progressista.

Enquanto a direita executava seu “espetáculo operacional”, o governo Lula, que dias antes reinava absoluto no cenário internacional, viu sua “hegemonia frágil” de uma soberania sem materialidade concreta para o povo se esvair. A resposta não foi um contra-ataque político e ideológico à altura, mas o anúncio de um “escritório emergencial” que entrou para a história “como a imagem da capitulação”, nas palavras de Maringoni.

Esta não é uma mera crítica tática. É a constatação de um processo hegemônico em tempo real, tal como teorizado por Gramsci. A direita não apenas impôs sua agenda (“narcoterrorismo”), mas conseguiu, objetivamente, “fazer a opinião pública crer que sua sede de sangue representa a defesa dos interesses gerais da sociedade”. O governo federal, ao invés de desconstruir essa narrativa, se dobrou a ela, falando em “endurecer o jogo” e postando “atrás de uma nota pífia”.

Esse movimento revela a profundidade do problema. Quando Maringoni afirma que “não havia polarização nos pressupostos dos projetos econômicos” – com ambos os campos praticando o binômio “austeridade & privatização” –, a rendição na pauta de segurança completa a assimilação do projeto da esquerda aos limites do jogo imposto pela direita. A “mãe de todas as chacinas” se torna, assim, o evento que solda um novo consenso reacionário, onde a violência de Estado é a linguagem principal da política e a esquerda governante aceita falar nesse idioma, ainda que com sotaque desconcertado. A disputa de hegemonia foi, neste round, perdida sem luta.

Caminhos para a Resistência: Para Além da Gestão da Crise

Alertar as pessoas não é apenas apontar o perigo, mas indicar um caminho. E o caminho, do ponto de vista marxista, não pode ser o do aperfeiçoamento da conciliação.

  • Reconstruir a Teoria como Arma: É preciso resgatar o marxismo como ciência do proletariado, não como um conjunto de frases de efeito. Isso significa fazer uma análise concreta da realidade concreta, estudar a fundo as teorias do imperialismo e compreender a lei do desenvolvimento desigual e combinado que configura o mundo hoje. Sem uma bússola teórica sólida, a esquerda navega à deriva.
  • Rejeitar o Estelionato Eleitoral: A esquerda não pode repetir o erro catastrófico do segundo governo Dilma, quando, após uma campanha com discurso à esquerda, aplicou o “violentíssimo ajuste fiscal antipopular” do banqueiro Joaquim Levy, um “estelionato eleitoral” que desmobilizou sua base e abriu caminho para o golpe. É preciso ter clareza de que não há espaço para reformas populares profundas sem um choque frontal com os interesses do capital financeiro e do agronegócio.
  • Priorizar a Luta de Massas e Ideológica: A saída não é negociar mais com o Centrão, mas sim “se apoiar na vontade da classe trabalhadora”. Isso significa investir na mobilização popular, nas ruas, na formação política e na construção de um projeto que una as pautas econômicas (como taxação de super-ricos e redução da jornada) com a defesa intransigente da soberania nacional contra o imperialismo. A reconquista da hegemonia passa por uma batalha diária pelas ideias.

A janela para reagir está se fechando. A extrema-direita sabe o que quer e não tem pudores em lutar para conquistá-lo. Cabe à esquerda decidir se continuará a ser a força da conciliação impossível ou se se tornará, finalmente, o instrumento da resistência necessária. A história não perdoará a hesitação.


Referências Bibliográficas

1. Clássicos do Pensamento Marxista:

  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. 1848.
  • LÊNIN, Vladimir. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. 1916.
  • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. 1929-1935.
  • ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado. 1970.

2. Análises da Conjuntura Brasileira Atual:

  • MARINGONI, Gilberto. “LULA PÓS-TRUMP: Pusilanimidade depois da mãe de todas as chacinas”. Jornalistas pela Democracia, 30 out. 2025.
  • SOUSA, J. R. Bezerra de. A Guerra que Precisa ser Vista: Análise do Espetáculo Operacional no Rio de Janeiro. Artigo inédito, out. 2025.

3. Teoria Política Contemporânea:

  • MBEMBE, Achille. Necropolítica. 2003.
  • DAVIS, Angela. A Liberdade é uma Luta Constante. 2015.
  • HARVEY, David. O Neoliberalismo: História e Implicações. 2005.

4. Fontes Oficiais e Jornalísticas:

  • Determinação do STF sobre a ADPF das Favelas (2023)
  • Coletivas de imprensa do Governo Federal e do Governo do Rio de Janeiro (outubro/2025)
  • Cobertura especializada de veículos como Ponte Jornalismo e Brasil de Fato

Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin 

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação, pós-graduação em Educação Especial e doutorado em Fundamentos da Educação. Militante do Psol-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.



Resposta

  1. Avatar de MCecilia

    excelente análise! Obrigada!

Deixar mensagem para MCecilia Cancelar resposta

Descubra mais sobre Geração 68

Inscreva-se agora mesmo para continuar lendo e receber atualizações.

Continue lendo