Romero Venâncio (UFS)
Um momento dos mais singulares da Teologia da Libertação latino americana: a presença de Irmãs/Freiras de pequenas comunidades nas periferias do continente. Recuperando um pouco da história. Nos anos 70 e sob a influência do Concílio Vaticano II e da Conferência Episcopal de Medellín, freiras de diversas congregações religiosas, saíram dos conventos ou escolas para ricos e foram morar em periferias de vários países latino americanos. Aprovavam internamente na congregação uma nova possibilidade missionária: viver com e como os pobres e a partir desse objetivo, evangelizar sem doutrinar. Geralmente, eram jovens irmãs que, na esteira das mudanças vividas dentro do catolicismo romano, saíram das “casas grandes” e começaram a ler obras como as de Paulo Freire, Segundo Galilea ou Arturo Paoli e se mandaram para os meios populares. Várias cidades do Brasil tiveram Irmãs nessa condição. Hoje, diminuiu muito esse projeto religioso feminino dentro da Igreja. A virada conservadora na Igreja Católica atingiu tudo: padre, bispo, laicato, religiosas… As irmãs estão voltando para os conventos ou escolas.
Nos anos 70 e 80, anos de amadurecimento e avanço da Teologia da Libertação, era possível ver aquelas Irmãs com chinelo (havaiana!), anel preto no dedo esquerdo e um hábito modesto e discreto com uma cruz de madeira pendurada no pescoço dentro de várias comunidades populares. Geralmente, eram Irmãs que vinham de carisma de “caridade” (chamadas “irmãs de caridade”). Trabalharam com crianças e adolescentes; com pessoas em situação de rua; camponeses pobres; operários nas periferias urbanas; idosos em lugares pobres e nas CEB`s. Essas Irmãs eram verdadeiras “gramscianas” sem nunca terem lido alguma obra de Antonio Gramsci (ou se leram, foi posterior a experiência ou já na vida comunitária popular). Viveram na pele a experiência pedagógica de Paulo Freire. Foram luz e fermento no meio do povo. Encarnaram um Evangelho que muitas vezes incomodava padre, prefeito ou vereador. Padres ou bispos egocêntricos e misóginos, odiavam estas Irmãs e sempre debocharam de suas atividades (vi isto em algumas dioceses do Nordeste).
As “Irmãs de pequenas comunidades” foram uma base (muitas vezes, invisibilizadas) na história da Igreja na América Latina. Elas foram uma base sólida, discreta e contundente numa evangelização libertadora singular. Elas visitavam os mais pobres, sentia com eles suas dores e esperanças, lutavam junto com esse povo pobre e os mantinha organizados (o mais importante desse verdadeiro trabalho de base!). Nesses tempos natalinos, volto a lembrar de várias experiências que vivi em algumas dioceses no Nordeste nos anos 80 e 90 do século passado com estas Irmãs (Garanhuns, Campina Grande, João Pessoa, Recife, Mossoró, Bacabal, Picos…). Verdadeiras celebrações natalinas onde rarissimamente apareciam padres ou bispos. As Irmãs junto com o povo organizavam as celebrações (da “Palavra”), as confraternizações, os festejos culturais e mantinham a chama das culturas populares. O povo pobre tinha imenso respeito por estas Irmãs.
Dois lamentos. Um: o pequeno interesse das jovens irmãs vocacionadas dos dias atuais para trabalhos de pequenas comunidades como os que citamos no texto. O conservadorismo atingiu as congregações femininas. Dois: os poucos estudos acadêmicos nas ciências sociais ou nas ciências da religião nos meios universitários acadêmicos. Temos poucos textos ou livros sobre estas experiências das “Irmãs de pequenas comunidade”. Uma pena. As gerações mais novas pouco sabem da vida e luta dessas Irmãs. A vida segue.
Romero Venâncio

Professor associado da Universidade Federal de Sergipe desde 1998. Graduado em Teologia pelo ITER. Graduado em Filosofia. Mestre em Sociologia pela UFPB. Doutor em Filosofia pela UFPE. Pesquisador em pensamento Católico no Brasil.




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