Lígia Bacarin
Nas últimas duas semanas, percorremos um caminho denso: partimos do “Panteão de Sombras”, onde o capital financeiro constrói suas zonas de exceção, e atravessamos a “Gerência da Barbárie”, onde Ghislaine Maxwell operava a logística da exploração humana. Contudo, resta a pergunta que ecoa após décadas de impunidade: por que as instituições falharam tão deliberadamente?
Neste encerramento da nossa série, deslocamos o olhar da infraestrutura econômica para a superestrutura política. Investigamos como o Estado, longe de ser um juiz imparcial, atuou como o garantidor final de um sistema de silenciamento. Se Epstein e Maxwell eram os operadores, os Aparelhos Ideológicos do Estado foram os escudos que permitiram que a barbárie permanecesse invisível aos olhos da lei, mas plenamente funcional para o panteão global.
A Sobrevivência do Bloco de Poder
Com base nas revelações dos documentos liberados em 2024 e 2025, analisamos o caso não como uma falha burocrática, mas como uma “limpeza de arquivos” sistêmica. Ao desconstruir o espetáculo midiático que tenta reduzir o debate a uma disputa entre Clinton e Trump, percebemos que o que está em jogo não é a moral individual de um ou outro político, mas a integridade de um bloco de poder que não pode permitir que suas entranhas sejam expostas.
A morte de Jeffrey Epstein em uma cela de segurança máxima levanta o véu sobre a natureza do poder soberano. Estaríamos diante de uma falha catastrófica do sistema prisional ou, pelo contrário, veríamos o sistema funcionando exatamente como deveria para proteger a si mesmo?
Neste artigo final, mergulhamos no conceito de “Estado de Exceção” e na impunidade soberana, revelando como a morte de um indivíduo pode ser o preço necessário para a preservação de uma estrutura de dominação que precede e sucede a Jeffrey Epstein.
I. O Espetáculo da Diferença: Clinton vs. Trump sob a Lente de Althusser
Na teoria de Louis Althusser, os Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) — entre eles, a mídia — têm a função de garantir a reprodução das relações de produção através da ideologia. No caso Epstein, observamos uma manobra clássica: a fragmentação da verdade para alimentar o binarismo político.
- Bill Clinton: Frequentemente emoldurado por setores da mídia liberal como um “homem de Estado” que cometeu lapsos de julgamento ou que estava em missões “filantrópicas”. A narrativa foca na falta de provas de atos sexuais diretos, ignorando a dialética do acesso: o fato de um ex-presidente validar, com sua presença, o ambiente de exploração de Epstein.
- Donald Trump: Utilizado por setores da mídia conservadora como alguém que “baniu Epstein de Mar-a-Lago”, enquanto a mídia progressista foca em suas citações elogiosas sobre o “gosto de Epstein por mulheres jovens”.
Focar na disputa “Clinton vs. Trump” é um desvio fenomênico. Ambos representam frações distintas da burguesia que utilizavam o mesmo “nó” de rede (Epstein) para manutenção de seu capital social. O espetáculo midiático transforma uma falha sistêmica em uma guerra cultural personalizada, impedindo que a sociedade perceba que a infraestrutura de abuso é apartidária e inerente à elite capitalista.
“A ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência.” (ALTHUSSER, Aparelhos Ideológicos do Estado)
II. O “Suicídio” como Defesa Organizada do Sistema
A morte de Jeffrey Epstein em uma cela federal não deve ser analisada apenas pelo viés da criminologia tradicional, mas como um mecanismo de defesa biopolítico.
Em um sistema baseado no crédito e na confiança entre os pares da elite, a sobrevivência de um indivíduo que possui provas materiais (vídeos, registros, documentos) contra o núcleo do Estado torna-se uma contradição insustentável. A morte de Epstein opera a transição do “sujeito perigoso” para o “arquivo morto”.
Na série Succession, o conceito de “NRPI” (No Real Person Involved) é usado para descrever crimes cometidos pela corporação contra pessoas de classes inferiores que são simplesmente “apagados” da contabilidade moral da empresa. Epstein deixou de ser um ativo (facilitador) e tornou-se um passivo (risco de contágio). Sua liquidação física é o equivalente corporativo a queimar livros contábeis antes de uma auditoria.
III. A Ilha como o “Estado de Exceção” de Agamben
A ilha de Little St. James pode ser interpretada através do conceito de Estado de Exceção de Giorgio Agamben. É o local onde a lei é suspensa para que o poder soberano se manifeste em sua forma mais crua.
Fato esse que é a representação da extraterritorialidade do capital. Enquanto o trabalhador é vigiado por câmeras de reconhecimento facial e leis trabalhistas restritivas, o capital cria santuários onde o crime é a própria base da sociabilidade. Os documentos de 2024 mostram que a ilha não era apenas um bordel, mas um centro de operações políticas onde a chantagem (o kompromat) era a moeda corrente.
IV. A Ciência e o Transumanismo: A Nova Fronteira da Especulação
Um detalhe frequentemente ignorado é o interesse de Epstein pelo transumanismo e pela eugenia, financiando cientistas de Harvard e do MIT. Dialeticamente, isso representa a tentativa do capital de superar os limites biológicos da própria morte.
Marx apontava que o capital busca constantemente reduzir o tempo de circulação e superar barreiras naturais. O apoio de Epstein a pesquisas sobre a “semeadura” da raça humana com seu DNA e a criogenia reflete a megalomania da acumulação: o burguês que, tendo acumulado todo o valor material, busca agora acumular a eternidade.
V. Síntese dos Documentos de 2024: O que mudou?
| Aspecto | Revelação dos Novos Documentos | Função Sistêmica |
| Nomes Citados | Inclusão de figuras do alto escalão técnico e acadêmico. | Legitimar a barbárie através do prestígio intelectual. |
| Depoimentos | Descrições detalhadas de como a coerção econômica impedia as denúncias. | Provar que a vulnerabilidade de classe é a pré-condição do abuso. |
| Papel de Maxwell | Provas de que ela gerenciava os pagamentos e as ameaças. | A divisão sexual do trabalho na gestão do crime. |
“O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas sugando trabalho vivo.” (MARX, O Capital)
No caso Epstein, o “trabalho vivo” sugado não foi apenas o esforço laboral, mas a integridade física e psíquica de jovens, convertida em prazer e poder para uma classe que se sente acima da história.
VI. A Conta da Impunidade — Bancos, Nomes e a Materialidade do Mal
É importante analisarmos que a verdade não reside apenas nas intenções, mas nos registros contábeis. A manutenção da rede de Epstein exigia uma infraestrutura bancária que operasse com “olhos fechados” para a origem e o destino do dinheiro.
1. O Capital Financeiro como Cúmplice: JP Morgan e Deutsche Bank
Em 2023, o JP Morgan Chase, o maior banco dos EUA, concordou em pagar US$ 290 milhões para encerrar um processo movido por vítimas de Epstein. O Deutsche Bank seguiu o mesmo caminho, pagando US$ 75 milhões.
Dialeticamente, essas multas não representam uma “vitória da justiça”, mas a monetização do crime. No capitalismo tardio, a violação de direitos humanos é tratada como um risco calculado. Os bancos mantiveram Epstein como cliente por anos após sua primeira condenação em 2008, movimentando milhões em dinheiro vivo — sinal claro de tráfico humano — porque os lucros gerados pela sua rede de contatos superavam o risco ético. Como Marx aponta: “O capital tem horror à ausência de lucro… com 300%, não há crime que não se atreva a cometer, mesmo sob o risco da forca.”
2. O Dossiê de 2024: A Teia de Nomes e Contextos
A liberação dos documentos desmembrados pela juíza Loretta Preska em janeiro de 2024 trouxe à tona mais de 170 nomes. É crucial entender o contexto de suas aparições para não cair no moralismo raso, mas compreender a circulação da elite:
- Príncipe Andrew: O caso mais emblemático de uso do corpo feminino como mercadoria diplomática. Os documentos reforçam os depoimentos de Virginia Giuffre sobre o abuso sofrido dentro das propriedades de Epstein.
- Bill Clinton: Citado mais de 50 vezes nos documentos. Embora sem provas de crimes diretos nos arquivos de 2024, sua presença constante no “Lolita Express” e na ilha demonstra como Epstein provia o ambiente de sociabilidade para a cúpula do Estado.
- Stephen Hawking: O renomado físico aparece em fotos de uma conferência financiada por Epstein na ilha em 2006. Sua presença serve como capital simbólico: Epstein usava cientistas para “lavar” sua imagem, comprando prestígio intelectual para mascarar a exploração material.
- Donald Trump: Mencionado em depoimentos como alguém que frequentava os círculos de Epstein em Nova York e na Flórida. A relação ilustra a “fraternidade burguesa” que precede as disputas eleitorais.
3. O Custo Humano vs. O Lucro Político
A lista de 2024 revela que o esquema de Epstein era um serviço de utilidade para a classe dominante. Seja para fins de chantagem (kompromat), prazer ilícito ou networking de alto nível, a rede era um recurso comum da burguesia global. As multas pagas pelos bancos são apenas o “imposto” que o sistema paga para continuar existindo após um de seus operadores ser descoberto.
Conclusão: Da Denúncia à Práxis — A Reação do Feminismo Materialista
A revelação dos documentos de 2024 e 2025 não trouxe apenas nomes; trouxe a prova material de que a exploração é o lubrificante das engrenagens do poder. No entanto, se o sistema possui mecanismos de autodefesa, a classe trabalhadora e o movimento feminista possuem a resistência e a organização.
1. A Reação dos Movimentos Sociais: Do “Me Too” à Luta de Classes
A reação inicial ao caso Epstein, focada no relato individual das sobreviventes (essencial para romper o silêncio), evoluiu para uma crítica sistêmica. Movimentos sociais contemporâneos, inspirados pelo feminismo classista, estão transformando a indignação em pauta política.
A reação não é mais apenas por “justiça criminal” contra indivíduos, mas por justiça econômica. Vimos protestos em frente às sedes do JP Morgan e do Deutsche Bank, onde coletivos feministas e de direitos humanos denunciaram o papel do setor bancário no tráfico humano. A mensagem é clara: não existe tráfico de pessoas sem a conivência do sistema financeiro internacional.
2. O Olhar do Feminismo Materialista sobre as Novas Revelações
Para as teóricas do feminismo materialista, as novas listas confirmam a tese de que o patriarcado não é um sistema paralelo ao capitalismo, mas parte integrante dele. A reação teórica e prática tem se focado em três frentes:
- A Desfetichização do Poder: Mostrar que figuras “intocáveis” da ciência, política e realeza são, na verdade, dependentes da exploração de corpos vulneráveis para manter sua coesão de classe.
- O Combate à Precarização: Entender que o recrutamento de vítimas só é possível devido ao desmonte do Estado Social. Movimentos feministas na América Latina e na Europa estão ligando o caso Epstein à luta por salários dignos e seguridade social, pois a pobreza é a porta de entrada para a rede de predadores.
- Corpos como Território de Luta: Seguindo a linhagem de Silvia Federici, o movimento feminista reage reivindicando a autonomia sobre o corpo e denunciando a “colonização” da vida privada pelo capital.
3. A História não está escrita
O caso Jeffrey Epstein é um lembrete brutal de que a barbárie espreita nos salões mais luxuosos do mundo. Mas, onde há opressão, há resistência. As novas revelações serviram como combustível para uma nova onda de consciência de classe, onde o feminismo não busca apenas “um lugar à mesa”, mas a destruição da mesa que se sustenta sobre a exploração.
A engenharia do silêncio falhou porque a verdade, uma vez exposta, não pode ser desfeita. Nossa tarefa é garantir que o panteão de sombras permaneça sob a luz implacável da crítica e da justiça.
O Caso Epstein não termina com esses nomes. Ele permanece aberto como um lembrete de que, enquanto a economia for gerida por “Devils” que operam acima da soberania popular, a vida humana continuará a ser precificada nas planilhas de Wall Street.
Referências Bibliográficas (Consolidado da Série)
Para quem deseja aprofundar-se na análise teórica e documental desta trilogia:
Fontes Teóricas:
- ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1970.
- FEDERICI, Silvia. Caliban e a Bruxa: Mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Editora Elefante, 2017.
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2005.
- POULANTZAS, Nicos. As classes sociais no capitalismo hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
- SAFFIOTI, Heleieth. A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e realidade. São Paulo: Expressão Popular, 2013.
Documentos e Referências do Caso:
- COURTLISTER. Giuffre v. Maxwell (Case 1:15-cv-07433-LAP). Documentos desmembrados em 2024. Disponível em: courtlistener.com.
- DEPARTMENT OF JUSTICE (USA). Ghislaine Maxwell Sentenced to 20 Years in Prison. Press Release, 2022.
- U.S. SENATE. Review of the Federal Bureau of Prisons’ Custody of Jeffrey Epstein. Report, 2023.
Cultura e Mídia:
- DRAGHI, Guido; PIETRO, Alessandro. Devils (Série de TV). Sky Italia/Orange Studio, 2020.
- KUBRICK, Stanley. Eyes Wide Shut (Filme). Warner Bros., 1999.
Lígia Bacarin

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação, pós-graduação em Educação Especial e doutorado em Fundamentos da Educação. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.





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