Betty Almeida
O Irã, antiga Pérsia, é uma das mais antigas culturas do sudoeste da Ásia. Está situado à beira do Golfo Pérsico, entre o Iraque, a oeste, e o Afeganistão e o Paquistão, a leste, banhado ainda pelo Golfo de Omã e pelo Mar Cáspio. Com uma área de 1 648 000 km2, o Irã é o décimo-sexto maior país do mundo em território, o que equivale aproximadamente à área do estado do Amazonas, no Brasil, ou um pouco mais do que as áreas de Angola e Portugal somadas.
Tem uma história milenar, em que já foi um vastíssimo império e sofreu a conquista e dominação de outros. A antiga religião zoroástrica foi substituída, durante a dominação árabe, pelo Islã.
Hoje o Irã é uma República Islâmica, governada por aiatolás, altas autoridades muçulmanas, eleitas pelos cidadãos do país. A Revolução Constitucional Persa de 1906 criou o primeiro parlamento da nação, que antes era uma monarquia constitucional. Mais tarde, já em 1953, o primeiro-ministro nacionalista Mohammed Mossadegh, que mantinha a exploração de petróleo fora do controle dos Estados Unidos, foi deposto por um golpe de Estado, executado pelo Reino Unido e Estados Unidos em 1953, que empossou Reza Pahlevi, governante submisso aos EUA, enquanto Mossadegh definhou até à morte em prisão domiciliar.
Más condições de vida e a opressão do regime do Xá Reza Palehvi gerou uma grande revolta interna, que explodiu em 1.º de abril de 1979 com a Revolução Iraniana. A princípio laica, a revolução resultou na criação da República Islâmica, sob o comando do chefe supremo, Aiatolá Khomeini. Essa Revolução teve forte apoio popular e o Irã saiu da esfera de influência política dos EUA. Foi um dos países fundadores da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). O crescente antagonismo com os EUA, devido aos interesses comerciais relativos ao petróleo levou à inimizade política e diplomática declarada. Os Estados Unidos impuseram sanções econômicas contra o Irã, que dificultaram seu desenvolvimento econômico e trouxeram sérias dificuldades para sua população. O Irã pertence aos Brics, a mais importante frente mundial de oposição à hegemonia dos Estados Unidos. O Brics vem conseguindo minar a supremacia do dólar como moeda nas transações comerciais entre países. O Irã também consegue parceiros comerciais fora da esfera de influência dos Estados Unidos, o que desperta a ira estadunidense.
Mas, com uma altíssima inflação, a insatisfação popular com o governo dos aiatolás começou a tomar a forma de manifestações de amplitude crescente. A dura repressão com que o governo respondeu transformou parte do apoio popular em oposição ferrenha. A revolta contra o governo iraniano, a princípio legítima, foi estimulada por agentes da CIA, do Mossad israelense e dos serviços secretos ingleses, que chegaram a se misturar, armados, aos manifestantes pacíficos e transformaram as manifestações em um banho de sangue.
As manifestações acirraram-se na chamada guerra híbrida, que tem por objetivo derrubar o governo iraniano e substituí-lo por outro mais submisso à política externa estadunidense, principalmente na questão do petróleo. Trump não ousaria agir como na Venezuela, país com menos recursos de defesa, mas tenta uma ofensiva maciça nos moldes da guerra híbrida, agindo sobre a população, atormentada pela inflação estratosférica e a deterioração de suas condições de vida – na maior parte provocada pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.
Os governantes do Irã mostram-se dispostos a reagir à agressão externa, como já o fizeram por ocasião de ataque dos EUA a instalações de pesquisa nuclear do Irã. Douglas Macgregor, ex-assessor do Secretário de Defesa dos EUA, crê que outra guerra dos EUA/Israel contra o Irã corre o risco de desencadear uma guerra mundial ao envolver a Rússia e a China e teme a reação do Irã.
Com a perda gradual da supremacia do dólar e a ascensão da China como potência econômica e política, aliada da Rússia, que mesmo depois do fim da União Soviética mantém um importante poderio econômico e militar, a crise do capitalismo manifesta-se geopoliticamente, como ao longo de séculos, na agressão a países que contrariam seus interesses, procuram sair de sua esfera de influência e desafiam sua dominação.
Os Estados Unidos invocam pretextos de toda ordem para intervenções militares. No Iraque, alegaram a construção de armas químicas, o que se revelou falso depois do Iraque ter autorizado uma inspeção por autoridades da ONU. Note-se que os Estados Unidos têm um arsenal perigosíssimo, composto de armas químicas, biológicas e nucleares com capacidade de destruir o planeta várias vezes, mas policiam incansavelmente o resto do mundo, impedindo que outros países desenvolvam armas para sua própria proteção. O Irã não tem armas nucleares, mas seu desenvolvimento tecnológico no campo permitiria a construção dessas armas. Por isso os EUA já atacaram instalações de pesquisa tecnológica nuclear do Irã e assassinaram vários importantes cientistas nucleares iranianos. Recentemente, acusaram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores de narcotráfico para sequestrá-los.
Mas o pretexto dos EUA para agredir o Irã está em uma suposta defesa dos direitos humanos dos iranianos. Os Estados Unidos, que possuem pena de morte, prisão perpétua e violam constantemente os direitos humanos não só de seus próprios cidadãos, mas também de populações de outros países, com sequestros, assassinatos, muitas vezes em massa, tortura, prisões ilegais e injustificadas, à revelia de qualquer norma jurídica e humanitária, arvoram-se em guardiães zelosos dos direitos humanos dos iranianos. A opção homoafetiva é criminalizada no Irã (como em outros países muçulmanos), mas não se deve ignorar que existe uma forte discriminação nos EUA, especialmente no exército e já ocorreram sangrentos conflitos em ruas e bares, com muitas mortes. A situação das mulheres é interpretada pelos olhos ocidentais como de opressão total. Mas na verdade, embora submetidas à dureza das leis corânicas e vigiadas, como toda a população, pela polícia moral do regime, elas têm acesso à educação, participam ativamente da pesquisa científica e tecnológica e são empresárias em moda, cosméticos e outros ramos da economia.
Por outro lado, com a financeirização, os sistemas produtivos em todo o mundo deterioram-se e a classe trabalhadora se desagrega e perde suas formas tradicionais de organização em sindicatos. Também perde força pelo fato de que a classe dominante tem hoje a possibilidade de lucros financeiros especulativos sem a intervenção do trabalho. No Irã teocrático, submetido a forte repressão governamental e a uma renhida guerra de desinformação, não há uma saída apontada por organizações trabalhistas ou por partidos políticos.
Trump, diante das contradições em seu próprio país, que ele não tem condições de resolver, parte para a intervenção armada em outros países, na tentativa de manter a dominação política e econômica que lhe renda meios para enfrentar sua crise nacional.
Essas agressões são o último recurso imperialista para manter sua hegemonia política mundial ameaçada. Apesar de seu enfraquecimento econômico e político, o poderio militar ainda aparece como arma eficaz, malgrado muitos fracassos e sucessos duvidosos desde o século passado. Trump é ousado em suas provocações, talvez tendo em mente que seus maiores adversários, China e Rússia, aliados e possíveis protetores do Irã, preferem evitar uma guerra com os EUA e construir, a longo prazo, a multipolaridade no mundo.
Porém a insanidade de Trump tem freios: talvez o Congresso estadunidense simplesmente não permita outros ataques como o da Venezuela. A Europa combalida econômica e financeiramente não suportará seguir os EUA em sua aventura rumo a uma terceira guerra mundial. Além disso, a disposição do Irã é resistir. E tem recursos para isso, como bem sabe Trump.
O Irã tem o direito de resolver internamente seus conflitos sociais e de procurar uma saída para suas dificuldades econômicas. Se os Estados Unidos suspendessem o bloqueio econômico, isso sem dúvida levaria o Irã, de imediato, a uma melhor situação econômica e aliviaria os sofrimentos impostos à sua população. O cerco econômico que o Irã vive há uma década é ainda agravado por sanções dos aliados dos EUA.
A repressão violenta aos protestos será, ao que tudo indica, mitigada pelo risco que representa para imagem do país diante da opinião pública mundial. Será muito duro enfrentar a implacável guerra de contrainformação do ocidente hostil a uma sociedade que tem uma cultura e valores tão diferentes dos seus. A proteção desses valores, o sentimento nacionalista e mesmo a fidelidade aos princípios religiosos terão um importante papel na defesa do Irã contra seus agressores externos, no esforço da reconstrução econômica e na solução dos conflitos sociais.
Mas o principal é a demonstração inequívoca do Irã de que tem disposição e capacidade para defender-se, mesmo diante do imenso aparato bélico dos seus adversários. Além disso, tanto os EUA como Israel sabem, à exaustão, que apesar da destruição que estão sempre dispostos a provocar, a vitória militar não lhes é garantida diante de adversários corajosos e heroicos como os que já enfrentaram outras vezes.
Betty Almeida

Professora aposentada do Departamento de Química da Universidade Federal da Paraíba, onde atuou no sindicato ANDES e participou de diretorias locais e nacionais. Atualmente participa do movimento por Memória, Verdade e Justiça.





Deixe um comentário