Lígia Bacarin
A libertação de Auschwitz não foi um evento isolado ou um “milagre” humanitário, foi o resultado inevitável do choque entre duas forças antagônicas na história do século XX: o projeto expansionista do capital monopolista alemão e a mobilização total do Estado operário soviético. Para o materialismo histórico, Auschwitz não foi um “acidente” provocado pela loucura individual, mas a conclusão lógica de uma forma extremada de imperialismo. Como argumenta o historiador marxista Eric Hobsbawm em A Era dos Extremos, o fascismo foi a resposta violenta do capitalismo à crise do entreguerras e à ameaça da Revolução Bolchevique. O complexo de Auschwitz funcionava como uma fábrica de morte fordista, onde o uso de trabalho escravo por corporações como a IG Farben demonstrava a fusão absoluta entre o capital financeiro e o extermínio planejado.
Para compreender a robustez dessa vitória, é preciso notar que o nazismo representou a tentativa de transformar o Leste Europeu em uma colônia agrária para o Terceiro Reich, um processo que Marx descreveria como uma nova e violenta “acumulação primitiva”. O extermínio em Auschwitz não era apenas um fim em si mesmo, mas um subproduto da logística de expansão do capital alemão que via nos povos eslavos e judeus um excedente populacional a ser eliminado para a criação de “espaço vital”. A resistência soviética, portanto, não foi apenas uma defesa de fronteiras, mas uma guerra de sobrevivência da própria humanidade contra a redução do ser humano à condição de mera matéria-prima descartável pelo mercado.
A superioridade do Exército Vermelho no campo de batalha foi o reflexo direto da superioridade do planejamento centralizado sobre o anarquismo de mercado das empresas alemãs, que competiam entre si até mesmo dentro da máquina de guerra. A capacidade da URSS de mover suas indústrias para além dos Urais e manter uma linha de produção ininterrupta permitiu que a 60ª Armada da Primeira Frente Ucraniana chegasse aos portões do campo em 27 de janeiro de 1945. Foi o braço armado do proletariado soviético que desmantelou a infraestrutura técnica do Holocausto, provando que a barbárie tecnológica do capital só poderia ser freada pela força organizada de um Estado que havia rompido com a lógica do lucro.
É fundamental, hoje, enfatizar o papel da União Soviética para combater o revisionismo histórico denunciado por intelectuais como Domenico Losurdo. A historiografia liberal moderna frequentemente tenta criar uma falsa equivalência entre nazismo e comunismo, ignorando que foi o Estado soviético a única força capaz de deter o fascismo quando as democracias liberais europeias falharam ou optaram pela política de apaziguamento. Como aponta Enzo Traverso, o Holocausto foi a aplicação, em solo europeu, de métodos de extermínio que o capitalismo já aplicava nas colônias; a libertação por um exército que se pretendia anti-imperialista simboliza a ruptura desse ciclo.
Entender que o Exército Vermelho libertou Auschwitz é reconhecer que o fascismo não é vencido apenas com debates morais, mas com a destruição de sua base material. No contexto atual de ressurgimento de movimentos de extrema-direita, recordar este fato é reafirmar que a derrota da barbárie exige a organização da classe trabalhadora. Auschwitz permanece como o monumento do que acontece quando o capital opera sem freios; o Exército Vermelho, como a força histórica que provou que esse sistema pode, e deve, ser derrotado.
também um esforço de reestruturação cognitiva para preservar a eficácia das lutas sociais.
Referências Bibliográficas
- HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (Essencial para a análise do fascismo como reação à Revolução Russa e à crise do capitalismo).
- LOSURDO, Domenico. Guerra e Revolução: O mundo um século após Outubro de 1917. São Paulo: Boitempo, 2017. (Base para a crítica ao revisionismo histórico e à teoria dos “dois totalitarismos”).
- TRAVERSO, Enzo. A Violência Nazista: Uma genealogia europeia. Rio de Janeiro: Difel, 2006. (Analisa o Holocausto como uma extensão dos métodos coloniais e industriais do capitalismo).
- DEUTSCHER, Isaac. Stalin: Uma biografia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970. (Oferece a análise sobre a industrialização soviética e o planejamento centralizado como motores da vitória militar).
- MARX, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. (Capítulo XXIV, sobre a “Assim chamada Acumulação Primitiva”, utilizado para explicar a lógica de pilhagem do território soviético pelo nazismo).
- PAXTON, Robert O. A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007. (Embora de linha liberal, é referenciado por marxistas para entender a colaboração das elites econômicas com o regime nazista).
Lígia Bacarin

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação, pós-graduação em Educação Especial e doutorado em Fundamentos da Educação. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.





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