Em política, o que parece, é” (Ou, a corrupção volta ao cenário político e eleitoral)

Jean Marc von der Weid, fevereiro de 2026

Dizia um amigo português, militante da luta contra o fascismo na “velha terrinha”, que tudo o que sobrou dos muitos anos de discursos e escritos de Salazar foi uma frase, a que escolhi como título deste artigo. Parece pouco para tanto tempo do ditador na política, mas não deixa de ser algo a ser considerado sábio.

Lembrei-me deste dito “histórico” ao matutar sobre as reações de vários lados sobre o caso Master.

Nas palavras do ministro da Fazenda, este deve ser o mais importante caso de falcatrua bancária da nossa República, não só pelos (até agora) 41 bilhões de desfalques, mas porque envolve cada vez mais figuras poderosas dos bancos, de administrações estaduais e municipais, do Congresso, do TCU, da CVM, de tribunais de primeiro grau e do próprio STF. De quebra encontramos uma penca de influenciadores digitais, pagos por Vorcaro para usar suas redes para defendê-lo.

Ficaram de fora o e Executivo Federal (inicialmente), a Polícia Federal e o Banco Central e os partidos de esquerda (PT, PSOL e PCdoB). Do ponto de vista político (e criminal), o caso Master vem comprometendo cada vez mais personagens da direita.

O presidente Lula, após um longo silêncio, baixou um malho indignado em um “cidadão” que afanou 41 bilhões (Vorcaro, claramente) e em “gente sem vergonha na cara” que estaria tentando salvar o estafador. Pelo contexto da fala ele pareceu se referir ao ministro do STF, Dias Toffoli. Ponto para Lula.

Muita gente que vem defendendo o STF nas redes socais, em nome do seu papel na luta pela democracia, deve ter enfiado a carapuça do discurso do presidente. Tenho lido inúmeras mensagens que atribuem as críticas ao papel de Toffoli e as suspeitas do papel de Xandão a uma nova “operação Lava Jato”, visando enfraquecer o Supremo e, através deste, a democracia.

O ataque à jornalista que denunciou os dois ministros foi do tipo arrasa quarteirão, como se investigar fatos suspeitos fosse parte de um “complô da mídia” e do bolsonarismo. Isto é, para mim, desviar o foco da crise, aliviando a direitalha que aparece cada vez mais implicada no affaire. Ao comparar o caso Master com a Lava Jato, a parte da esquerda que emburacou nesta ofensiva, só mostrou o quanto ainda se sente vulnerável com os casos do mensalão e do petrolão.

Isto me leva a outra lembrança, a de uma piada velhíssima sobre o cego que tentou descobrir qual era o animal que ele tinha diante de si através do tato. Ele toca na tromba, nas patas, no chifre e nas orelhas de um elefante, mas erra o tipo de animal da charada. No caso da Lava Jato, tínhamos dúzias de réus confessos e muitos milhões de recursos desviados devolvidos, mas os nossos cegos não concluíram que havia corrupção, e sim que tudo era um golpe da mídia antipetista e do juizinho mequetrefe da “república de Curitiba”. É como confundir elefante com beija flor.

É claro que houve lawfare e que o juizinho extrapolou e manipulou a lei para implicar o governo Dilma. No entanto, apesar do uso político do processo, os dados concretos apresentados permitiam concluir a existência do elefante da corrupção. O mesmo Toffoli foi lavajatista, como, até metade do segundo tempo da partida, o conjunto do STF também, ao ponto de enfiarem Lula na cadeia. Como a conjuntura política mudou, o STF passou um pano, um verdadeiro esfregão, na Lava Jato, com Toffoli (e Gilmar e outros), anulando o processo por razões técnicas.

A esquerda passou a proclamar a inocência dos acusados, livrando réus petistas e muitos outros, políticos do Centrão, beneficiários dos desvios. Na verdade, ninguém foi inocentado por estas anulações, apenas os processos foram invalidados e prescreveram. Mas, como dizia Salazar, em política o que parece, é. E tudo parecia indicar a existência de um esquema de corrupção em curso para permitir comprar maiorias eventuais no Congresso. O que meus camaradas da esquerda não perceberam é que o público ficou com um gosto amargo e entendeu tudo isto como uma traição dos partidos que se criaram e cresceram denunciando a falta de ética na política sobretudo, por sua importância, o PT.

Hoje o elefante é outro, mas segue sendo um elefante e não pode ser confundido com qualquer outro animal. Temos um caso espetacular de corrupção, desta vez com a direita em bloco envolvida nas teias de Vorcaro. Defender o STF em nome da democracia é tentar abafar o caso e isto a esquerda vem fazendo, para a alegria da direita.

Toffoli está se enrolando dia a dia na sua descarada tentativa de travar a investigação da Polícia Federal. Xandão está na muda e não responde a pergunta óbvia: quais os serviços prestados pelo escritório de advocacia da sua esposa ao banco Master, com valores milionários muito superiores aos do mercado? Ou, se ele acha que é ela quem tem que responder, por que não o faz?

Xandão, e todo o STF, votaram pela permissão de seus parentes advogarem para acusados em processos que chegam à Corte Suprema. O atual presidente do STF, Fachin, sensível ao desgaste da instituição, propõe a criação de um código de ética e seus pares fazem ouvidos de mercador. Claramente, este código de ética não deixaria de incluir o impedimento de escritórios de parentes em processos julgados pela Corte. Também impediria que ministros recebessem benesses, como caronas em jatinhos de advogados envolvidos em processos ou a participação em festanças, como a já notória “Gilmarpaloosa”, que se repete a cada ano. E em outras prebendas mais.

Andam explicando que Toffoli viajou em um jatinho de Vorcaro e em companhia de um de seus advogados, mas antes do processo chegar à Corte Suprema. A emenda é pior do que o soneto, pois foi justamente depois deste voo de torcedores que Toffoli chamou para si o processo do Master, que corria em primeira instância, usando um pretexto tão frágil que o cheiro de queimado varreu a Praça dos Três Poderes. Foi só o primeiro de uma série de gestos que alentaram os defensores de Vorcaro e que não vou apresentar aqui por serem bem conhecidos.

Fachin deu um tiro no pé do STF ao dar sustentação a Toffoli frente à maré de denúncias de atos e relações suspeitos do  ministro e que vem freando a ação da PF. Nesta defesa foi secundado, publicamente, por Gilmar Mendes e Xandão.  O discurso soou como o das redes sociais: a democracia está sendo atacada pelas críticas ao comportamento de alguns dos ministros do STF. A persistir a caradura de Toffoli na sua campanha para livrar Vorcaro, a lama vai mais que respingar, vai lambuzar a imagem da Corte frente ao público e este estrago sim, vai enfraquecer a democracia. É tudo que a direita quer.

Devíamos estar atacando os partidos cujos prefeitos e governadores investiram pesadamente (e suspeitosamente) no Master e se encontram no vórtice das investigações. Começando com o PL, em que três executivos comprometeram mais de um bilhão dos recursos públicos sob seu controle. Seguem-se o Solidariedade (400 milhões), PSD (212 mi), Podemos (60 mi), União Brasil (50 mi), MDB (47 mi), PSDB (14,5 mi), PSB (14 mi) e PP (1,2 mi). Os dados (parciais) vêm das investigações da “imprensa burguesa”, que está cumprindo o seu papel jornalístico. Entre os poíticos e executivos de maior realce encontramos Ciro Nogueira, Ibaneis Rocha e Claudio Castro. Com tanta munição para atacar os links entre políticos da extrema direita, direita, centrão et caterva os partidos da esquerda ainda não pediram uma CPI e quem está articulando são partidos da oposição. Talvez a direita espere poder controlar a CPI e focá-la no governo e nos partidos de esquerda, mas é um jogo arriscado com tanta informação comprometendo-os.

Estranhamente, a esquerda está mais ativa na defesa do STF, entendida como defesa da democracia e tendo como resultado aparecer (direta ou indiretamente) defendendo Toffoli e Xandão. E o governo estava, até poucos dias atrás, quieto, ao ponto da PF e do Bacen se queixarem de falta de apoio. Há quem considere que o governo ajudou discretamente Toffoli pela posição do Procurador Geral da República, que indeferiu o pedido de afastamento deste último, feito por parlamentares da oposição. Dirão os defensores do governo que a PGR é um organismo autônomo e independente do executivo, mas a nossa história desde a Constituinte mostra que os procuradores sempre são afinadíssimos com os desejos do presidente do momento.

O problema é que o jornalismo investigativo vem abrindo novas frentes de influência de Vorcaro e já começam a surgir notícias que chamuscam o governo com perguntas sem resposta até agora. Não apareceu nada diretamente comprometedor, mas já aparecem situações suspeitas.

Primeiro foi a notícia de uma intervenção de Lula, indicando para Vorcaro o nome de Mantega para um cargo no Master com remuneração mensal milionária, mas agora sugiu o ex-ministro (do Supremo e do governo) Lewandowski com seu escritório trabalhando para Vorcaro. O ministro Jacques Wagner assumiu a indicação “a pedidos”, sem que ele diga de quem, mas que só pode ser de Vorcaro ou de um seu sócio. E para fechar o cerco, noticiou-se, sem que tenha havido contestação, que Lula recebeu Vorcaro, levado por Mantega, em dezembro de 2024, para uma reunião na Granja do Torto, com uma agenda que não foi revelada.

Lula parece ter queimado as pontes com o seu discurso, já citado. Mas as perguntas sem resposta vão aumentando o cheiro de queimado. Se, de fato, onde há fumaça há fogo, ficaria explicada a posição dúbia e reticente do Planalto e da esquerda, mas espero que o discurso agressivo de Lula dê o sinal para a esquerda tomar a ofensiva. E deveria começar por explicar a reunião com Vorcaro.

A outra explicação para a falta de combatividade da esquerda neste caso Master é o que eu chamo de síndrome do telhado de vidro. Apesar da gritaria contra a Lava Jato e a desmoralização desta investigação, a esquerda saiu torrada frente à opinião pública e fica sem moral para cobrar ética dos outros. Infelizmente, apesar de militantes de peso do PT terem proposto um processo de autocrítica para buscar recuperar a supremacia moral que gozou na sociedade brasileira até a eleição de 2002, a posição foi derrotada e o partido enterrou-se para sempre na postura de negar insistentemente fatos evidentes e culpar Moro, a mídia e a direita pelo massacre que sofreu.

A posição defensiva é explicável do ponto de vista tático. Admitir a corrupção seria desastroso do ponto de vista processual, até porque seria dificílimo livrar o próprio Lula das acusações de participação. A tática de negar tudo até o absurdo funcionou do ponto de vista legal, com o desmonte da Lava Jato. Mas politicamente (e estrategicamente) o público não se deixou enganar e criou-se uma posição antipetista derivada da decepção em relação à postura ética.

A esquerda não entendeu até hoje que corrupção não é um problema menor a ser esquecido frente aos avanços sociais promovidos pelos governos populares ( seria a volta do “rouba mas faz?”). A corrupção é parte integrante da lógica do sistema capitalista (e também de muitos sistemas ditos socialistas) e tem que ser combatida com firmeza.

Escrevi no tempo em que Lula assumiu seu primeiro governo que, um governo petista tinha que ser mais puro do que a mulher de Cesar (que não só devia ser honesta, mas parecer  honesta). Em outras palavras, o governo Lula tinha que estar acima de qualquer suspeita. Mas, como o próprio Lula declarou na época do mensalão, o PT fez o que “todo mundo sempre fez”. Ele assumia a prática do “caixa dois”, praticada por todos os partidos da direita e do centro. Era uma confissão disfarçada e minimizada de corrupção pois a famosa caixa dois não era outra coisa senão dinheiro doado “por fora” aos partidos por empresários os quais, é claro, buscavam compensações em contratos públicos onde reinavam os superfaturamentos.

Na ânsia de obter recursos para competir com os partidos da direita, o PT buscou contribuições ilegais de empresários, sem entender que nesta disputa a direita sempre sai ganhando, por sua afinidade natural com o empresariado. Houve um pragmatismo do tipo: já que não se consegue controlar o financiamento ilegal da direita vamos pelo menos garantir uma parte para nós. Mas para cada contribuição para a esquerda, os empresários dobravam a aposta na direita. Não é preciso explicar, penso eu, o fato de que os mecanismos da corrupção distorcem a democracia e garantem a continuidade do controle político pelos donos do dinheiro.

Seja pela síndrome do telhado de vidro ou, pior, seja pelo eventual envolvimento de personalidades do governo ou da esquerda nos esquemas de Vorcaro, o fato é que estamos perdendo uma ótima oportunidade de ferir a direita com o seu próprio veneno, desmascarando o falso discurso moralista de políticos e pastores ou de pastores políticos. Vai ficando difícil ganhar esta eleição.


Jean Marc von der Weid

Ex-presidente da UNE entre 1969 e 1971

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983

Membro do CONDRAF/MDA entre 2024 e 2016

Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta



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