O SAGRADO É ANTI-FASCISTA EM SIMONE WEIL.

Romero Venâncio (UFS)

Lembro bem. 20 de abril de 1997 do século passado e um indígena de nome Galdino Pataxó foi queimado vivo enquanto dormia num ponto de ônibus em Brasília por dois jovens de classe média. A notícia e a imagem ficaram rodando em minha cabeça durante uma semana enquanto me perguntava sempre: por que? como? como se desumaniza assim? Que formação e que família tinham esses jovens? não sabia responder exatamente e acalmar minha angústia. passou o tempo. A coisa ficou para a história. Nesta semana voltei ao sentimento que havia vivido nos anos 90 e desta feita com o cachorro de rua em Florianópolis/Santa Catarina. Alguns adolescentes torturaram barbaramente um cachorro de rua e absolutamente desprotegido. Mais uma vez, como? Por que?… E segue o desalento e angústia diante das imagens e de tantas falas nestas redes digitais.


Não tenho dados mais precisos para uma análise mais ponderada sobre essa barbárie. Mas tenho lido Simone Weil e pensado nessas coisas graves e impactantes. Li nesses dias um texto dela intitulado: “A pessoa e o sagrado”. Ela parte de uma posição antropológica: todo ser tem algo de sagrado e destruir um ser humano é ignorar profundamente essa condição. Suponho que essa afirmação categórica de Weil sirva para os animais não humanos. Uma não percepção deste sagrado nos faz feras fora de qualquer sentimento de empatia e misericórdia. Feras inclementes. A autora estabelece uma relação desta condição anti-humana com o fascismo. Talvez não fosse exagerado dizer que esses adolescentes de Santa Catarina são fascistinhas cevados numa cultura que os preparou para isto que fizeram. Não estão só.

Nota: No último dia 28 de janeiro, o autor realizou a live “Filosofia da Religião: A pessoa e o sagrado em Simone Weil”, discutindo o pensamento da autora frente ao cenário político brasileiro. O registro da conversa está disponível no perfil do Instagram @romerojunior4503.


Romero Venâncio (UFS)

Professor associado da Universidade Federal de Sergipe desde 1998. Graduado em Teologia pelo ITER. Graduado em Filosofia. Mestre em Sociologia pela UFPB. Doutor em Filosofia pela UFPE. Pesquisador em pensamento Católico no Brasil.


Descubra mais sobre Geração 68

Inscreva-se agora mesmo para continuar lendo e receber atualizações.

Continue lendo