Sinal de alerta, um grito esperançoso.

Francisco Celso Calmon

As novas pesquisas do Datafolha trazem um dado que não pode ser ignorado: uma disputa acirrada entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, em um cenário de segundo turno. Ainda que dentro da margem de erro, há uma diferença mínima entre os dois candidatos. O sinal político é claro e exige mais do que explicações superficiais.

Não se trata apenas da ausência de um projeto mais robusto. Há um problema ainda mais profundo: a falta de mobilização. O governo parece falar para dentro, enquanto a extrema-direita segue falando para fora, organizando base, ocupando espaço, antecipando e disputando narrativas.

Mas o problema não é só do governo. Onde estão os partidos? Onde está a força mobilizadora que historicamente levou o povo às ruas, que formou consciência, que organizou o debate político nos territórios? É preciso ir às ruas e às urnas, fazer barulho e incomodar àqueles que se acham donos e superiores a uma nação soberana.

Falta rua. Falta debate. Falta presença. Falta a criação de núcleos de base pela democracia que informem, dialoguem e politizem o cotidiano. Sem isso, a política vira apenas disputa institucional, e quem ocupa o imaginário popular leva vantagem.

Flávio Bolsonaro não cresce por mérito próprio. Ele avança porque há um vazio sendo ocupado.

A extrema-direita ocupou o espaço da direita, e a esquerda foi para a centro-direita.

Não há projeto de esquerda. Não se trava a luta ideológica contra o sistema capitalista e a superestrutura burguesa. Todo o avanço que obtivemos em 1968 não foi acumulado.

O reformismo e o peleguismo vigoram sem alternativa visível.

O alerta do Datafolha, portanto, é mais amplo: ou há reorganização, mobilização e reconexão com a sociedade real, ou o campo democrático seguirá assistindo a um projeto de Brasil que é feito por poucos e para poucos.

Faltam, sobretudo, bandeiras políticas do governo e dos partidos que atinjam mentes e corações, que animem as ruas. É mister voltar ao horizonte de um projeto grande e uma bússola da utopia. É preciso romper com a inércia política: não adianta criticar a falta de comunicação se não há o que comunicar.

Comunicação, no sentido real, é aquilo que promove emoções, que move a força interior de cada indivíduo, de cada grupo, de cada segmento, de cada classe social, no sentido de uma luta maior — uma luta que não começa na eleição nem termina no resultado dela.

É preciso, enfim, voltar a ter uma estratégia clara e táticas para a realização dessa estratégia.

Mesmo não havendo condições objetivas e subjetivas para uma estratégia revolucionária, é necessário pregar a necessidade da revolução social estrutural para alcançar uma democracia de todos e para todas.

O renascer da utopia floresce nas épocas de crise; se não fizermos, soluções fascistas se apresentam.

O bolsonarismo se coloca, embusteiramente, como antissistema, quando é a essência dele; porém, ao deixarmos a luta ideológica, acabamos parecendo ser o sistema.

A contradição principal na contemporeinidade é entre a democracia e o fascismo!

Caminhemos com a história na mão e a certeza na bússola da utopia.


Francisco Celso Calmon

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Foi líder estudantil no ES e Rio de Janeiro. Participou da resistência armada à ditadura militar, sendo sequestrado e torturado. Formado em análise de sistemas, advocacia e administração de empresas. Foi gestor de empresas pública, privada e estatal. Membro da Frente Brasil Popular. Autor dos livros “Sequestro moral e o PT com isso?” e “Combates pela Democracia”, coautor dos Livros “Resistência ao Golpe de 2016” e “Uma sentença anunciada – O Processo Lula”. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Articulista de jornais e livros, coordenador do canal Pororoca.



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