Francisco Celso Calmon e Letícia Mendonça- 24-04-2026
Há uma linha que não pode ser cruzada sem que se fira a própria soberania nacional. Ela está debaixo dos nossos pés. O subsolo brasileiro, onde repousam riquezas estratégicas como as terras raras, não pertence a governos estaduais, tampouco a proprietários de terra. Pertence à União.
A Constituição Federal é explícita. O artigo 20 estabelece que os recursos minerais, inclusive os do subsolo, são bens da União. Já o artigo 176 reforça que a pesquisa e a lavra desses recursos só podem ocorrer sob regime de autorização ou concessão federal, sempre no interesse nacional.
Diante disso, causa estranheza, para dizer o mínimo, a notícia de que, em Goiás, uma empresa de mineração teria firmado associação com uma companhia estrangeira, dos Estados Unidos, envolvendo a exploração de terras raras. Não se trata de um negócio comum, mas de um ativo estratégico, essencial para tecnologias de ponta, defesa e transição energética.
Se confirmados os termos, estaremos diante de uma possível violação constitucional. Isso porque não cabe a entes locais ou a agentes privados negociar aquilo que a Constituição resguarda como patrimônio da União. O solo pode ter dono; o que está abaixo dele, não.
A questão, portanto, não é apenas jurídica. É política. É geopolítica. Trata-se de definir quem controlará o futuro. As terras raras não são “raras” apenas no nome; são centrais na disputa global por tecnologia e poder. Os países que compreendem essa realidade tratam esses recursos como questão de Estado, e não como mera oportunidade de negócio.
O Brasil, ao que parece, ainda hesita entre essas duas visões.
Se o acordo em Goiás avançar à margem da Constituição, não apenas deverá ser questionado, como também anulado, não por preciosismo legalista, mas em defesa de um princípio fundamental: soberania não se terceiriza.
Goiás esteve sob a governança do agora candidato à Presidência, Ronaldo Caiado, figura historicamente associada a posições conservadoras e à União Democrática Ruralista (UDR), organização fundada em 1985 com o objetivo de se opor à reforma agrária, defender o direito de propriedade privada e limitar a desapropriação de terras improdutivas.
Nesse contexto, não surpreende que iniciativas dessa natureza ocorram no estado.
O passado nos inspira com a campanha “O Petróleo é Nosso”. Hoje, diante de novos desafios estratégicos, ressurge o debate sobre a criação de uma estatal. ou de uma empresa de economia mista sob controle do Estado, voltada à exploração desses recursos, a chamada “Terrabrás”.
Francisco Celso Calmon e Letícia Mendonça

Ex-coordenador nacional da Rede Brasil – Memória, Verdade e Justiça; membro da Coordenação do Fórum Direito à Memória, Verdade e Justiça do Espírito Santo. Foi líder estudantil no ES e Rio de Janeiro. Participou da resistência armada à ditadura militar, sendo sequestrado e torturado. Formado em análise de sistemas, advocacia e administração de empresas. Foi gestor de empresas pública, privada e estatal. Membro da Frente Brasil Popular. Autor dos livros “Sequestro moral e o PT com isso?” e “Combates pela Democracia”, coautor dos Livros “Resistência ao Golpe de 2016” e “Uma sentença anunciada – O Processo Lula”. Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Articulista de jornais e livros, coordenador do canal Pororoca.




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