O Sangue no Acre e a Fábrica de Monstros: Por que a Escola Pública se Tornou um Alvo

Lígia Bacarin

O massacre em uma escola no Acre, onde um aluno de 13 anos matou a tiros duas funcionárias, não pode ser arquivado como uma “tragédia isolada” ou reduzido à psicopatia individual do agressor. Assim como o sangue da professora Elisabete Tenreiro, esfaqueada em São Paulo em 2023, e o colapso fatal das professoras Silvaneide Monteiro e Rosane Maria Bobato no Paraná em 2025, o episódio do Acre é a manifestação terminal de um projeto político que, ao longo de décadas, converteu a escola pública de território de emancipação em arena de extermínio físico e subjetivo. A pergunta que nos cabe não diz respeito apenas ao que se passou na cabeça do atirador, mas à patologia social que o produziu. Como nos alerta o psicólogo social Ignacio Martín-Baró, “a violência não é um instinto, mas uma construção social; não é uma força cega, mas um produto histórico”. É essa historicidade que precisamos interrogar.

A Genealogia do Colapso

Para compreender por que um adolescente abre fogo dentro de uma escola, é preciso recuar a 1989. O Consenso de Washington (conjunto de diretrizes formulado pelo FMI, Banco Mundial e Tesouro dos EUA) impôs à América Latina uma cartilha de austeridade fiscal, privatização e desregulamentação radical. Na educação, esse receituário converteu o ensino em commodity e o professor em um custo a ser minimizado. Vitor Henrique Paro, em Educação como Exercício do Poder (2016), demonstra que o neoliberalismo não se limita a reformas econômicas: é um projeto de reconfiguração do poder social, onde a escola é instrumentalizada para produzir subjetividades compatíveis com a lógica de mercado.

O resultado concreto desse projeto é o subfinanciamento estratégico que perdura há décadas. Enquanto o Plano Nacional de Educação prevê investimento de 10% do PIB, a realidade patina entre 1,5% e 2%. Uma escola sem recursos, com salas superlotadas, sem climatização, sem psicólogos, sem assistentes sociais, é uma escola que abandona sua função de acolhimento e se torna um depósito de contradições sociais não resolvidas. A Lei 13.935/2019, que determina a presença de psicólogos e assistentes sociais na educação básica, segue como letra morta na maior parte do Brasil. O que temos, na prática, é o que Deivison Faustino e Walter Lippold (2023) chamam de “morte em vida”: um estágio de alienação e esgotamento provocado pelo colonialismo digital e pela gestão neoliberal, onde a tecnologia não serve para libertar, mas para monitorar a exaustão até que o corpo físico ou psíquico sucumba.

O Adestramento Digital e a Fábrica da Violência

Sobre a base material do abandono, ergueu-se uma superestrutura de controle que combina plataformização digital e militarização das relações escolares. Sob o pretexto da modernização, as Big Techs sequestraram a autonomia pedagógica. Plataformas como Google Classroom e Quizizz transformam professores em operadores de algoritmos e estudantes em fluxos de dados rentáveis. A pesquisadora Giuliana Mordente, em sua tese Neoliberalismo Escolar e Processos de Subjetivação (2023), desmonta a falácia da neutralidade tecnológica ao demonstrar que “a plataformização não é ferramenta, mas estratégia de governo neoliberal que elimina o dissenso ao transformar educação em zona de saque de dados e adestramento”.

Essa substituição da relação pedagógica pela tela tem consequências neurológicas profundas. A neurociência contemporânea demonstra que o desenvolvimento do córtex pré-frontal (região cerebral responsável pelo controle de impulsos, empatia e tomada de decisões) depende fundamentalmente de interações sociais seguras, afetivas e mediadas por adultos de referência. O neurocientista Bruce Perry, em seus estudos sobre trauma infantil, comprova que ambientes de negligência relacional e estresse crônico comprometem a arquitetura cerebral, reduzindo a capacidade de autorregulação emocional. Quando a escola plataformizada substitui o professor por uma tela e a nota por uma métrica de engajamento, ela atrofia os circuitos neurais da socialização. O aluno não aprende a lidar com a frustração pelo diálogo; ele a administra no isolamento de uma interface digital.

Paralelamente, a militarização escolar opera a síntese perversa entre neoliberalismo e autoritarismo. A expansão dos Colégios Cívico-Militares, que no Paraná recebem gratificações 126% maiores que as escolas regulares, não visa a “disciplina para o aprendizado”, mas o silenciamento do pensamento crítico. Ítalo Zanelato, em sua tese Nossa Escola Não é Caso de Polícia (2025), demonstra como esse modelo hibridiza o que Althusser conceituou como aparelhos ideológicos e repressivos de Estado. A consequência é uma escola onde o diretor opera como “gerente-sentinela”, utilizando a máquina burocrática para perseguir quem ousa questionar. Os dados do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE/UFF, 2024) são contundentes: 57% dos agressores de professores são da própria equipe pedagógica. O assédio jurídico — sindicâncias, PADs, boletins de ocorrência com inversões fáticas — converteu-se em tecnologia de exceção que extrai o que Pachukanis (2017) nos ajuda a compreender como uma “mais-valia ideológica”: o silenciamento do contraditório como condição de funcionamento da escola-empresa.

A Produção Social do Atirador

É nesse ecossistema de abandono material, controle algorítmico e repressão institucionalizada que o adolescente do Acre se constituiu. A psicologia social marxista, a partir de autores como Fernando González Rey, compreende a subjetividade não como entidade intrapsíquica, mas como produção histórica e cultural. A escola que reprime, que não oferece canais de expressão, que trata o aluno como potencial infrator, está fabricando as condições de possibilidade da violência que diz combater. Martín-Baró formulou com precisão que “a violência estrutural gera uma violência reativa que, ao ser reprimida, produz mais violência estrutural, em um ciclo que só se rompe quando se ataca a raiz das desigualdades”.

Acrescente-se a isso a dimensão ideológica. A ofensiva da extrema-direita conservadora, materializada em movimentos como o “Escola sem Partido”, difundiu a ideia de que o professor é um “doutrinador”, um inimigo a ser vigiado e denunciado. Katz (2020) demonstra como esses enunciados articularam neoliberalismo e conservadorismo em um ataque sistemático à autonomia docente. A consequência é a corrosão da autoridade pedagógica. A escola deixa de ser um espaço de proteção para se tornar, aos olhos da comunidade, uma instituição hostil e deslegitimada. Quando um adolescente em sofrimento psíquico cresce em um ambiente que despreza o professor, que o ensina que a violência é forma legítima de resolver conflitos, e que não lhe oferece nenhum adulto de referência para mediar sua dor, o ato de puxar o gatilho contra funcionárias escolares não é uma ruptura irracional: é a internalização mais acabada da pedagogia que essa escola lhe ensinou. A neurociência do trauma nos mostra que a violência grave na adolescência está frequentemente associada a um histórico de exclusão, humilhação e ausência de vínculos protetores. A escola que abandona, adoece; a escola que adoece, pode matar ou morrer.

Desarmar a Escola, Desarmar o Projeto

Enquanto a resposta do Estado se limitar a detectores de metais, câmeras com reconhecimento facial e presença ostensiva da Polícia Militar, estaremos tratando o sintoma com mais daquilo que o causou. A militarização da gestão escolar não previne ataques; ela anuncia seu desfecho lógico. Uma escola que se pensa como trincheira, mais cedo ou mais tarde, será palco de guerra. Como alerta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2024), o aumento de ataques armados em escolas está diretamente correlacionado à degradação das condições de trabalho docente e à ausência de políticas de convivência e saúde mental.

Desarmar a escola é uma tarefa política e pedagógica. Significa revogar o projeto neoliberal que a sufoca, banindo parcerias que comercializam dados de estudantes e docentes. Significa extinguir o modelo cívico-militar e retomar a gestão democrática prevista na Constituição de 1988, com conselhos escolares, grêmios estudantis e participação comunitária efetiva. Significa, acima de tudo, reumanizar o espaço escolar, garantindo a implementação imediata da Lei 13.935/2019 e assegurando que cada escola tenha psicólogos capazes de identificar o sofrimento antes que ele se converta em tragédia.

Antonio Gramsci nos legou que a crise consiste exatamente no fato de que “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”. O velho que agoniza em nossas escolas é esse modelo necropolítico que extrai dados, adoece corpos e fabrica monstros. O novo que precisamos fazer nascer é a escola como território da democracia, do cuidado e do pensamento crítico. Para que as balas no Acre não tenham sido disparadas apenas contra duas funcionárias, mas contra a possibilidade mesma de um futuro. Um futuro que só existirá quando decidirmos, como sociedade, enterrar essa fábrica de morte que insistem em chamar de “escola eficiente”.

REFERÊNCIAS

ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa: Presença, 1970.

FAUSTINO, Deivison; LIPPOLD, Walter. Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana. São Paulo: Boitempo, 2023.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Ataques armados em escolas no Brasil (2018-2023). São Paulo, 2024.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

KATZ, E. P.; MUTZ, A. S. C. Escola sem Partido, neoliberalismo e conservadorismo: rastreando pontos de intersecção. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 15, e2015352, 2020.

MARTÍN-BARÓ, Ignacio. Psicología de la liberación. Madrid: Trotta, 1998.

MORDENTE, Giuliana. Neoliberalismo Escolar e Processos de Subjetivação: Como a Educação ‘Inovadora’ Opera? Tese (Doutorado em Educação) – UFRJ, Rio de Janeiro, 2023.

OBSERVATÓRIO NACIONAL DA VIOLÊNCIA CONTRA EDUCADORAS/ES. A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática. Niterói: UFF, 2024.

PACHUKANIS, Evgeni. A teoria geral do direito e o marxismo. São Paulo: Boitempo, 2017.

PARO, Vitor Henrique. Educação como exercício do poder: crítica ao senso comum em educação. São Paulo: Cortez, 2016.

PERRY, Bruce; SZALAVITZ, Maia. O menino que foi criado como cão. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.

ZANELATO, Ítalo Ariel. “Nossa escola não é caso de polícia”: uma análise histórica da militarização dos colégios públicos e civis do Paraná (2019-2025). Tese (Doutorado em Educação) – UEM, Maringá, 2025.

Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicopedagogia, Neurociência, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.


Resposta

  1. Avatar de

    País põe monstros no mundo e não querem ser responsáveis por eles!

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