Jean Marc von der Weid, maio de 2026
Antes de entrar na análise anunciada acima, precisamos definir qual é este quadro. Segundo a maioria dos analistas de esquerda, o quadro ainda é indefinido e, até para alguns, Lula ainda é o favorito no próximo pleito presidencial. O argumento mais frequente é o dado obtido pelas várias pesquisas, mostrando que mais de 60% dos eleitores não têm candidato, quando perguntados sobre sua preferência sem olhar para uma tabela com os nomes dos presidenciáveis.
A meu ver, isto é tão pueril quanto tentar tapar o sol com uma peneira. Ou, em uma imagem futebolística, achar que o jogo Brasil e Alemanha ainda não estava perdido quando entubávamos 4×1 no segundo tempo, na semifinal da Copa de 2014.
O conjunto das pesquisas de todos os tipos, em sucessivas amostragens desde o ano passado, aponta para uma realidade mais sombria. Em meados do ano passado, a avaliação negativa do governo estava em 40% e a positiva em 29%. A reação do governo ao tarifaço e as incríveis bobagens dos bolsonaristas, desfraldando imensa bandeira americana e saudando Trump em manifestação na Paulista, permitiram a Lula recuperar 4% de apoio contra uma diminuição de apenas 2% na rejeição. Mas a alegria foi pouca e de curta duração. Na última pesquisa do Datafolha, Lula voltou para os 29% de apoio e 40% de rejeição. Em outra pesquisa, 55% dos entrevistados acharam que Lula não merece um quarto mandato.
Pior do que isso, Flávio está em empate técnico com Lula e um ponto acima do presidente, 46% x 45% em simulação de segundo turno e vem de uma progressão constante. O detalhamento da pesquisa mostra que Lula vem perdendo apoio em todos os setores sociais, faixas etárias, gênero e em todas as regiões, mesmo entre os/as que ainda lhe dão mais apoio do que à Flávio: os mais pobres, os menos instruídos, as mulheres, os católicos, os nordestinos e nortistas. A evolução dos números em todos estes setores e regiões vem piorando consistentemente nos últimos oito meses. Para completar, não só Flávio está bem competitivo como todos os outros candidatos da direita, mais ou menos bolsonaristas, estão próximos dos números de Lula no segundo turno simulado nas pesquisas sem Flávio. Isto indica a força do sentimento antipetista/lulista no eleitorado.
O governo esperava recuperar o terreno perdido ao longo do mandato através de projetos recentes, beneficiando os mais pobres, em particular com a isenção ampliada do imposto de renda, mas isto não aconteceu. Foi a pá de cal na estratégia governamental, desde 2023, de melhorar a renda, baixar a inflação e tecnicamente zerar o desemprego. Os números da economia citados até a exaustão por Lula e Haddad são positivos, mas os eleitores não parecem satisfeitos com o resultado.
Para alguns analistas, isto confirma a ideia de que a economia não é o fator decisivo nesta eleição e que os temas que movem o eleitorado são os ditos de “costumes”, tão caros aos evangélicos e católicos conservadores. Outros dizem que os fatores que explicam o resultado negativo das pesquisas são os problemas da violência, da corrupção e das filas do INSS ou ainda o que chamam de fadiga de material ou cansaço com os governos petistas. Finalmente, há uma constatação de que o eleitorado não está mais tão preocupado com a ameaça à democracia representada pelo bolsonarismo golpista, apesar da enxurrada de denúncias apresentadas nos julgamentos históricos dos atos golpistas do 8 de janeiro de 2023.
A esquerda parece confiar na fragilidade política do filhote do energúmeno e dizem que ele ainda não foi submetido ao bombardeio político de uma campanha eleitoral que não esquentou até agora. É a palha em que estamos nos agarrando para evitar olhar com rigor para o que as pesquisas estão apontando. A outra vertente explicativa, crescente dentro do PT, é o questionamento da comunicação do governo, que não estaria sabendo mostrar os avanços da economia promovidos por Lula.
Para completar o quadro negativo, o governo tem nas mãos os efeitos da crise econômica provocada pela guerra de Trump/Netanyahu contra o Irã, com alta dos combustíveis começando a se espalhar por outros setores da economia e chegando ao bolso dos eleitores, pelo momento através do aumento dos preços da gasolina, diesel e gás.
Significativamente, a alta dos fertilizantes, também provocada pelo bloqueio de Ormuz, ainda não chegou aos preços dos alimentos no Brasil, mas não deixará de impactá-los até o fim do ano. Também não ajuda o surpreendente e maciço endividamento de 85% das famílias que o governo está atribuindo aos bilhões de reais gastos nos Bets, inclusive entre as famílias beneficiárias do Bolsa Família.
O que há de verdade nestas várias avaliações?
Para começar, a economia, entendida no caso do comportamento eleitoral, como o balanço entre renda e custo de vida, tem sim relevância. Para entender por que os “sucessos” das políticas do governo em relação ao emprego, renda e controle da inflação não estão sendo percebidos pelo eleitorado é preciso olhar os números no detalhe.
A inflação medida pelo IGP engloba todos os preços de todas as atividades econômicas, produção, serviços, consumo etc. Se nos limitarmos a olhar os custos dos bens e serviços consumidos pelos diferentes setores da população encontramos diferentes inflações. A dos alimentos andou elevada até o ano passado até os preços se estabilizarem, mas estes ficaram no seu nível mais alto, mesmo sem continuarem subindo. E os mais pobres tiveram inflação mais alta do que os ricos e remediados. O mesmo vale para os serviços e outros bens de consumo.
Mas argumenta-se que a renda cresceu e teria coberto a alta de preços anterior. Falso. A renda cresceu, inclusive para os mais pobres, mas muito menos para estes do que para os mais abastados. O consumidor popular olha para o seu carrinho de compras no supermercado e percebe que continua com menos produtos em quantidade e qualidade.
E o emprego? As estatísticas apontam para uma constante queda no desemprego, mas o detalhe mostra que são os empregos menos remunerados e mais instáveis os que crescem mais. A informalidade também implica em uma maior rotatividade e maior insegurança e isto impacta a expectativa do eleitor. Pior ainda, o forte avanço do número de pobres formados nas universidades não teve como consequência um aumento correspondente na empregabilidade dos novos “doutores”. Os formandos tinham como expectativa encontrar empregos de acordo com seus diplomas e isto não aconteceu com a amplitude esperada. O resultado foi encontrarmos um bom número de motoristas de Uber com diplomas de nível superior.
Em resumo, a economia, de modo geral, cresceu, embora o PIB registrado em anos sucessivos indique avanços modestos que escondem a maior concentração da riqueza produzida nas mãos de uns poucos. A frustração da parcela mais pobre que, (simbolicamente) esperava um banquete de picanha com cerveja e teve que se contentar com o miojo com salsicha (também simbolicamente), foi grande. A decepção talvez explique o número de pobres e remediados, “investindo” na nova fonte de esperança: os Bets.
O governo expandiu o crédito ao consumidor para animar a economia e, aparentemente isto deu certo, mas o preço a pagar foi o brutal endividamento das famílias, gerando aperto de cintos e angústia, fatores que contam na hora de avaliar o que o governo entregou. Haja Desenrola!
Sim, a economia pesou contra o governo, apesar do autoproclamado sucesso de sua política. É a mesma explicação do sucesso de Trump versus Biden em 2024. Como dizia, singelamente, a saudosa professora Maria da Conceição Tavares, “povo não come PIB”.
Há muitas razões para a incapacidade do governo promover um salto significativo na economia, sobretudo olhando para seu impacto na massa dos eleitores.
A primeira e mais importante foi o freio de mão pesado do Banco Central no desenvolvimento do Brasil, através das taxas de juros básicos atuando como um peso no pé de todos os empreendedores. A altíssima taxa Selic arrasta o patamar dos juros para investidores e consumidores a um nível que explica, em parte, o brutal aumento do endividamento das famílias.
A segunda razão se refere à falta de recursos orçamentários. O governo teve que entregar parte substancial do orçamento não impositivo para pagar as emendas parlamentares com um incrível desperdício de recursos dispersos sem qualquer plano que os orientasse. Faltou dinheiro para muita coisa, tanto nos programas sociais como no estímulo ao desenvolvimento, e mesmo para melhorar os serviços de saúde e educação.
Por outro lado, o governo preferiu (ou não pode reagir) pagar mais subsídios para o agronegócio do que para todo o orçamento dos programas sociais. A montanha de subsídios dirigidos para o agronegócio foi crucial para aumentar as exportações, mas foi pouco relevante na produção de alimentos, sobretudo os necessários para uma dieta desejável e desejada pelos consumidores. A política econômica voltada para manter os ganhos de uma minoria não deu espaço para investir na produção dos gêneros de consumo de massa. O governo bem que tentou taxar os mais ricos, mas o poder dos representantes do privilégio no Congresso diluiu as suas propostas, deixando intocados os ganhos financeiros dos rentistas.
Isto certamente não explica tudo, mas é uma boa base para entender o mau humor do eleitorado.
Por outro lado, a questão da segurança foi extremamente mal trabalhada pelo governo Lula que começou prometendo um ministério da Segurança Pública e a integração dos vários agentes públicos, federais e estaduais e logo abandonou a iniciativa.
O eleitor, pobre ou rico, sente no quotidiano a ameaça da violência, embora esta (sobretudo a policial) recaia pesadamente sobre os jovens, pretos e pobres. Embora legalmente os serviços de polícia sejam de responsabilidade dos governos estaduais, o eleitor percebe como omissão a posição do governo federal e a fragilidade do judiciário e cai no discurso da direita que cobra mais e mais violência policial, mais “bandidos mortos”, mais presos e condenados. A esquerda, dentro e fora do governo, questiona este “sentido comum”, mas sem apresentar alternativas e o eleitorado engole o discurso da direita, apontando uma suposta leniência com a bandidagem. Mais pontos contra o governo.
Com estes dados macro jogando contra, as benesses dos programas sociais vão empalidecendo. O governo não teve coragem de desfazer a politicagem do energúmeno, sobretudo no seu último ano, desfigurando o Bolsa Família e gastando rios de dinheiro com falsos candidatos ao benefício. Calcula-se que, dos 21 milhões de beneficiários, existam uns 4 a 5 milhões de famílias com acesso irregular e isto impediu que os recursos fossem mais bem distribuídos para os mais pobres e necessitados. Por outro lado, os programas sociais já não são novidade e o próprio governo Bolsonaro os encampou, eliminando um dos elementos de propaganda usados pelo PT em campanhas passadas, afirmando que estavam ameaçados em caso de derrota da esquerda.
Para completar a análise, temos a questão da corrupção, que voltou com força para a ordem do dia com o escândalo Vorcaro. Quer por ter aliados ou mesmo petistas suspeitos de envolvimento no caso Master, quer pela dificuldade de lidar com o tema desde a Lava Jato, o fato é que os partidos de esquerda não fizeram o que deviam ser feito, ou seja, não tomaram a frente na luta pela investigação do maior esquema de corrupção da nossa história, segundo Haddad. Significativamente, os esforços par a criação de uma CPI no congresso foram de iniciativa do PL, travada por uma aliança do Centrão e dos partidos da base do governo.
Os eleitores ficaram confundidos, olhando para a geleia geral do Congresso onde quase todos se juntaram para cozinhar a pizza, começando por Alcolumbre e Motta. O público olha as notícias e não vê diferenças entre o governo, o STF ou a oposição, todos visto como comprometidos com a corrupção. Não é ainda um tema em que o bolsonarismo nade de braçada, como na época do mensalão e do petrolão, mas deixa todo mundo na vala comum. A Polícia Federal, a única instituição que escapa à condenação do eleitorado, não é vista como um agente do governo federal, mas como uma força independente, e o governo não consegue capitalizar a sua atuação. Mais pontos negativos para o governo.
Para completar a lista dos dados negativos é preciso lembrar alguns problemas mais pontuais, mas de grande impacto entre os mais pobres.
O primeiro é a eterna precariedade do SUS. Nossos serviços de saúde são uma benção para os que não tem recursos para pagar os caríssimos planos privados, mas constituem um sofrimento generalizado para os que os acessam. Longas filas de espera, atendimento irregular, poucos médicos e enfermeiras, falta de material, equipamentos sem conservação e frequentemente inutilizáveis, remédios caros. A expressão “morrer na fila do SUS” não é um exagero. Acontece no mundo real dos mais ferrados.
O segundo é o INSS. O sistema estava travado no começo do governo Lula III e foi uma promessa de campanha zerar a fila de um milhão de pessoas muito necessitadas e o resultado foi que ela triplicou. Pior ainda, o escândalo da manipulação das aposentadorias, conhecido como o do “careca do INSS”, revoltou os que ansiavam por soluções há anos. Mais um escândalo de corrupção que, para cúmulo do efeito eleitoral, envolveu como suspeito o filho do presidente. Não faltava mais nada.
A pá de cal nesta longa lista de frustrações do eleitorado foi a decisão de Lula de apontar para uma vaga do STF um personagem totalmente desqualificado para o cargo.
Este episódio não deve ter efeitos maiores nas escolhas dos eleitores, mas revela uma posição insustentável do governo e tem efeitos importantes em setores que são formadores de opinião, como a mídia convencional.
Ao escolher um candidato cujo único predicado é a sua fidelidade canina, o presidente cometeu uma sequência de erros surpreendente para um político com a sua história e habilidade.
É verdade que o sistema de escolha dos ministros do supremo é um absurdo histórico, submetendo o posto mais alto da justiça brasileira ao jogo político do presidente e do Senado. Sarney, Collor, Fernando Henrique, Temer e Bolsonaro colocaram seus fiéis no STF, com a cumplicidade do Senado. Lula fez o mesmo com um dos seus nomeados, Toffoli, um dos muitos sem o necessário “notório saber jurídico” e cujo único predicado era ter sido advogado do PT e amigo de José Dirceu. Mas a “traição” do nomeado no caso da Lava Jato levou Lula a exacerbar o valor do critério fidelidade e daí resultou a candidatura de Messias.
Lula não fez diferente dos seus antecessores, mas as circunstâncias eram outras. Zanin era um dos fiéis sem qualificação maior do que sua atuação no desmonte da Lava Jato e Dino foi um dos raros casos em que o critério de notório saber se aplicava. Ambos foram nomeados no começo do mandato. Em um quadro totalmente diferente, Lula apontou Messias e atravessou a preferência do Senado por um dos seus, Pacheco, que era aliado do presidente da casa, Alcolumbre.
A maioria da casa, que sempre foi de direita, estava em pé de guerra com o STF e disposta a uma demonstração de força. Já o todo poderoso Alcolumbre ansiava por uma desforra pela exclusão de seu aliado Pacheco. Mais ainda, Alcolumbre estava preocupado com as investigações do caso Vorcaro no STF e desconfiava da proximidade de Messias com o ministro responsável pelo caso, André Mendonça. A negociação do governo foi banhada por 2 bilhões de emendas liberadas no esforço do governo em conquistar o apoio do PMDB e do PDS para a o voto em Messias. Lembremos ainda que Lula vinha namorando a adesão destes partidos à sua candidatura.
Do outro lado estava a bancada bolsonarista disposta a fragilizar tanto o governo como o STF, deixando a nomeação para o próximo presidente, que eles contam que vai ser Flávio. Esta estratégia está voltada para conquistar maioria no STF para o bolsonarismo no próximo quatriênio, quando três ministros serão aposentados. Com um quarto ministro conquistado com a derrota de Messias (e a futura escolha de mais um candidato de Flávio) o bolsonarismo conseguiria a maioria do supremo, somando com os dois evangélicos nomeados pelo energúmeno.
O resultado da votação no Senado era uma pedra cantada por todo mundo, menos pelos articuladores do PT e pelo próprio presidente. Eu mesmo escrevi um artigo intitulado “Seu gato subiu no telhado”, afirmando isso já em novembro do ano passado. Não só Lula se colocou em posição de ser torpedeado como desprezou o risco futuro para a democracia da formação de uma maioria bolsonarista no STF. Resultado: todos os entendidos no Senado dizem que MDB e PDS traíram suas promessas de apoio (no privado ou no público), indicando que estes partidos já estão cheirando uma vitória de Flávio e se posicionando para negociar com o próximo presidente. E Alcolumbre jogou contra o governo sem dó nem piedade.
Acredito que este episódio revela com clareza o erro básico da estratégia do governo ao lidar com o Congresso, desde o começo do mandato. Ao candidatar um fiel indefensável, Lula abandonou a única força que poderia dobrar o Senado de direita e com forte presença bolsonarista: a opinião pública. Trocou a pressão externa (embora não popular) por conchavos e concessões. Não foi suficiente e agora o quadro é complicado com consequências dramáticas para o futuro.
Resta a Lula fazer o que todo mundo, sobretudo fora do governo, pedia: escolher um candidato capaz de mobilizar apoio na sociedade. Se tivesse indicado uma mulher, negra e com forte currículo jurídico não garantiria a vitória, mas pelo menos isolaria o Senado. Se Lula fizer agora uma indicação com este perfil será um mea culpa de sua indicação inapropriada anterior, embora Alcolumbre, do alto de sua manifestação de poder com a derrota de Messias, esteja prometendo não pautar o tema até o próximo governo. Mesmo assim, é melhor encarar o desafio do que abandonar a rinha e deixar tudo esperando uma vitória eleitoral para fazer uma outra indicação no ano que vem.
É preciso voltar atrás na análise para entender a situação atual.
A vitória de Lula nas eleições de 2022 foi mais do que apertada. Ele levou a presidência no fotochart, com menos de 2 milhões de votos de vantagem sobre o energúmeno, menos de 2% dos votos. Sem sombra de dúvida, a vitória se deveu ao apoio de eleitores independentes, que podemos caracterizar como republicanos e democratas conservadores que viam em Bolsonaro uma ameaça para as instituições. A votação em primeiro turno de Simone Tebet (uma boa representante deste eleitorado) corresponde quase 100% ao número de votos que deu a vitória a Lula. Por outro lado, o voto para o Congresso descolou-se do voto para a presidência e o resultado foi uma enxurrada de deputados e senadores bolsonaristas ou fortemente direitistas.
Sem ter um projeto de governo (para não falar em um projeto de país) para propor aos eleitores, Lula apelou para a memória dos eleitores, apresentando os sucessos de suas políticas sociais e da economia que levaram a uma distribuição (levemente) mais equitativa da renda no período 2003/2010. Ele “esqueceu” dos desastres dos governos de Dilma Roussef, convenientemente. Ou seja, na campanha e no governo, Lula se limitou a oferecer mais do mesmo.
Mas os tempos tinham mudado. Se nos seus primeiros mandatos Lula era minoritário nas duas casas do Congresso, ele tinha mais poder para distribuir benesses a deputados e senadores, tanto em cargos e emendas cuja liberação ele controlava, quanto através da distribuição de dinheiro via recursos extra orçamentários, oriundos de acordos com empresas que alimentavam um “caixa dois”, método conhecido depois como “mensalão”.
Nas novas condições geradas pela crise do impeachment de Dilma e a capitulação de Bolsonaro frente ao Centrão, o Congresso assumiu o controle das emendas e as expandiu em uma farra de benesses a suas excelências que retiraram o poder do governo federal, não só da orientação das verbas orçamentárias, como na moeda de troca na relação entre executivo e legislativo.
Sem poder de compra de votos no Congresso e com recursos escassos para ampliar as benesses dos programas sociais, o governo ficou travado. A “solução” foi trazer os partidos do Centrão para o governo, confiando em que se somariam à minoria de centro esquerda pró governo. Não foi o que ocorreu. Pouco satisfeitos com os ministérios que conseguiram, os partidos do Centrão negociaram cada voto, frequentemente derrotando as intenções do presidente. Mesmo quando alguma proposta governamental era aprovada, o resultado diluía a intenção do governo, quando não a desvirtuava completamente. Para manter a aparência da existência de uma frente governamental, o PT adotou a prática de não marcar as divergências e aprovar o “possível”. Isto diluiu muito a imagem progressista da base governamental e mostrou aos eleitores uma identidade indistinta da geleia geral do Congresso.
Muitos dos defensores de Lula e do PT dizem que não havia uma alternativa para ele poder governar. Havia duas outras, na verdade. A primeira implicava em uma capitulação total de Lula e do governo frente ao Centrão, dividindo de fato o poder e entregando boa parte do orçamento em ministérios de maior importância e com “porteira fechada”. Isto daria mais estabilidade para o governo, mas rebaixaria ainda mais a gestão pública para os interesses paroquiais e fisiológicos dos deputados e senadores. Sem um programa de governo próprio para negociar com partidos que também não os tinham, Lula entregou ministérios de menor importância, retendo os de maior peso, sobretudo orçamentário, confiando que os partidos da base produziriam, no varejo de cada tema, resultados apropriáveis politicamente para a esquerda. Também não funcionou. A gestão dos mais importantes ministérios ficou muito aquém do desejável.
A aposta do presidente foi a de buscar a promoção de um desenvolvimento mais inclusivo, tal como feito, embora modestamente, nos dois primeiros mandatos. Com o refrão “é a economia, estúpido” na cabeça, Lula buscou melhorar os índices de emprego e renda e facilitar a ampliação do consumo de pobres e remediados. Como já foi dito, os dados econômicos mostram que o impacto no público destinatário foi pequeno e contraditório.
A terceira alternativa de Lula era governar assumindo de frente a situação de minoria e procurar, via pressão popular, dobrar o Congresso. Algo do tipo governo Petrus, na Colômbia. Mas mobilizar a opinião pública e, mais ainda, as massas despossuídas, para reequilibrar a correlação de forças no Congresso não passou pela cabeça de Lula. Et pour cause.
Duas são as razões para o presidente descartar este governo de combate que a esquerda pedia. A primeira é a gigantesca desarticulação dos movimentos sociais desde 2003.
Nos dois primeiros governos de Lula os movimentos sociais foram cooptados, quer diretamente com empregos públicos para seus dirigentes, quer para a sua participação (aparente) no poder através das centenas de Conselhos que arregimentavam militantes dos movimentos para discutir políticas que nunca chegavam a ser aplicadas.
As mudanças econômicas, sociais e institucionais ocorridas desde então ajudaram fragilizar os movimentos, dispersando suas bases, sobretudo entre os operários, com os sindicatos fragilizados e esvaziados. Sobraram os movimentos identitários cuja força aumentou bastante, mas nunca em termos de poder de convocatória para um enfrentamento permanente com a direita parlamentar. No entanto, nas poucas vezes em que as massas se mobilizaram para encurralar o Congresso, o resultado foi positivo para o governo e para Lula, embora o poder de convocação não tenha sido dos partidos e movimentos e sim de figuras progressistas de alto prestígio popular.
Escrevi sobre estas alternativas em uma série de artigos que intitulei “A Armadilha”, em Março/Maio de 2023. Os artigos tinham um tom pessimista em relação à possibilidade de Lula adotar a alternativa de um enfrentamento com a direita, parlamentar ou não.
Como já disse acima, Lula e o PT sequer consideraram esta hipótese e a causa, a meu ver, é a perda de orientação desta parcela da esquerda. Sem programa outro do que a preservação de seus espaços de poder esta esquerda já vem há tempos atuando mais ou menos como suas contrapartes do centro e da direita, interessados apenas em ganhar eleições, seja como for. Para o eleitorado, esta esquerda deixou de representar uma esperança de um país diferente, para se tornar apenas mais um entre os componentes da geleia geral do Congresso, instituição muito mal avaliada nas pesquisas de opinião.
Este “espírito” fica demonstrado pela estratégia eleitoral de Lula e do PT para o pleito deste ano. Atrair o Centrão ou, pelo menos, partes dele para o apoio à reeleição é o que rege as atitudes do governo. Mas mesmo se fosse possível trazer figuras como Aécio, Barbalho, Kassab ou outros da mesma laia para os palanques de Lula, nada garantiria que seus pares se tornassem cabos eleitorais de Lula e menos ainda que os eleitores que votam nestes personagens acompanhassem a manobra.
Mesmo se esta estratégia chinfrim der resultado para reeleger Lula, como ficará o voto para o Congresso? Com o candidato forçado a não favorecer as candidaturas de esquerda ao Senado e Câmara para não contrariar aliados, o resultado seria pífio. Com esta estratégia, se Lula ganhar, ele pode governar em uma armadilha congressual ainda mais apertada do que no terceiro mandato.
Em outras palavras, como mostrar para o eleitorado que este Congresso é “inimigo do povo” se os congressistas de esquerda não se demarcam da direitalha?
E o que é possível fazer para alterar este estado de coisas?
Na verdade, o que se pode fazer é muito pouco para ter efeito nestas eleições, mas é necessário para prepararmos o futuro. Não creio que Lula e o PT mudem as suas estratégias eleitorais e estas conduzem a uma derrota em Outubro. Ou a uma vitória apertadíssima nas presidenciais e uma derrota acachapante nas congressuais.
O que se pode fazer tem um sentido mais de longo prazo. Falta uma orientação política estratégica que tem que estar baseada em um diagnóstico claro dos nossos gravíssimos problemas ambientais, econômicos, sociais, administrativos, tributários, de segurança e outros mais. E faltam propostas de como lidar com eles. É preciso elaborar um projeto de futuro, mais do que um projeto de governo, necessário, mas sempre menor do que o primeiro. Sem isso, não é possível gerar a esperança de mudança para além de promessas de mais consumo que serão ilusórias com a penca de crises que estão se abatendo sobre o país e sobre o planeta.
Quem pode elaborar estas propostas? Até agora estamos vendo esforços de grupos de interesse setorial, cada um no seu escaninho. Alguns tem acumulado ótimos documentos, como os que lidam com a emergência climática, mas ficam contidos nas suas bolhas. É preciso criar um movimento das forças vivas da sociedade civil para construir propostas de futuro abrangentes e coordenadas e chegar a um acordo (certamente mais complexo e difícil) sobre os passos a serem dados a cada momento, inclusive em planos de governo. Coordenar esta iniciativa seria, idealmente, o papel de um partido político, mas não vejo nenhum com capacidade de atrair os diferentes grupos especializados para esta empreitada coletiva.
Enquanto não aparecerem lideranças com poder de aglutinação destas ‘forças vivas” estaremos caminhando para o abismo em ordem dispersa, por melhores que sejam as contribuições de uns e de outros para construir conteúdos temáticos necessários. E faltam recursos para financiar esta operação de construção de uma estratégia de futuro e do processo para alcançá-lo.
Jean Marc von der Weid

Presidente da UNE entre 1969 e 1971
Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983
Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016
Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta




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