O caso Vorcaro muda o quadro eleitoral?
Jean Marc von der Weid, maio de 2026
Meu artigo anterior sobre o tema foi distribuído na véspera das revelações do Intercept Brasil, apontando a relação íntima entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, personagem que passou de “sonho de consumo” do bolsonarismo (e muito mais gente) para pesadelo tóxico.
Amigos e não tão amigos me perguntaram no privado, se os novos fatos não anulavam a análise do meu artigo. Penso que não e me parece bem lógico.
O artigo citado aponta para um quadro pessimista para a campanha do presidente Lula e uma crescente ameaça de vitória da direita, com Flávio ligeiramente à frente na pesquisa DataFolha para o segundo turno, mas com os outros dois direitosos, Caiado e Zema, também se aproximando de Lula nas simulações.
A minha conclusão ao olhar para esta pesquisa não mudou: a marca forte e persistente da sequência de pesquisas (não só da citada) é o antipetismo/lulismo. Em um primeiro momento, Flávio herdou os votos do bolsonarismo raiz, avaliados entre 18 e 25% do eleitorado e logo arrastou o voto da direita antipetista/lulista, deixando Zema e Caiado com um indicativo inferior a 5% nas simulações de primeiro turno. Dada a notória fragilidade do filho zero dois do energúmeno, a conclusão óbvia é que a direita não tem uma opção a favor do senador, mas busca a melhor possibilidade de derrotar Lula e o PT/aliados. Este raciocínio vale também para o posicionamento dos partidos da direita. Na ausência (voluntária) de uma candidatura de Tarcísio, o jogo parecia jogado, apesar do nariz torcido de partes da Faria Lima.
A desmoralização de Flávio, com a revelação de suas relações cada vez mais complicadas com Vorcaro, não indica que Lula possa ter vida mais fácil com as alternativas de direita disponíveis. Se as revelações do caso Vorcaro continuarem comprometendo o senador do PL teremos algumas possibilidades de mudança no quadro eleitoral para o primeiro turno. Em um caso extremo, Flávio pode ser enquadrado pela PF e pelo MPF e ter sua candidatura impugnada, o que parece improvável. Se isto não acontecer, haveria a possiblidade do PL considerar a candidatura um mico para suas pretensões a fazer uma super bancada na Câmara e no Senado e retirar o seu nome na convenção que indicará formalmente a sua candidatura, algo também improvável dado o peso do bolsonarismo no partido.
A terceira possiblidade é Flávio virar um “pato manco” e ser batido por um dos seus adversários de direita no primeiro turno. Na primeira pesquisa depois da explosão do escândalo esta hipótese de ascensão de outro candidato da direita não se confirmou, com Zema, Caiado e Renan continuando a patinar entre 3 e 5 % das intenções de voto, algo a ser conferido pelas pesquisas eleitorais daqui para frente. Dado o peso do bolsonarismo raiz isto também vai ser improvável, a não ser que um dos dois contentores se retire em benefício do outro. Ainda temos que considerar a hipótese do terceiro contentor de Flávio na direita, Renan Santos (MBL), que se apresenta como o antissistema mais coerente, decole dos seus 2 a 3% de intenção de votos, para assumir o papel de um Pablo Marçal nas eleições para a prefeitura de São Paulo, em 2024, com melhor sucesso.
Nada disso altera a intenção de votos de Lula, embora possa dar a ele uma margem maior de vantagem sobre o segundo colocado no primeiro turno. A única possibilidade deste imbróglio todo favorecer Lula no segundo turno é uma combinação de resultados que derrube a candidatura de Flávio no primeiro turno e gere uma reação do bolsonarismo raiz contra os “traidores”, levando a um voto nulo de uma parcela desta base fanática. Se todos os votos de direita forem dirigidos para o candidato mais bem colocado no segundo turno o risco para Lula continua muito alto.
Lula continua necessitando convencer a pequena parcela do voto independente, que eu chamo de republicanos de centro-direita, de repetir o voto de 2022. Foi o que deu a vitória a Lula, mas naquelas circunstâncias este voto foi motivado pela ameaça bolsonarista à democracia e este impulso não parece tão forte nestas eleições.
A estratégia de Lula e do PT para estas eleições está centrada em produzir benesses para diferentes públicos, mas isto está gerando, até agora, nada mais do que uma pequena recuperação do presidente na sua própria base eleitoral, menos motivada agora do que em 2022. Com o eleitorado lulista decepcionado com o seu governo, o risco de uma parcela significativa vir a se abster ou votar nulo ou branco é um perigo enorme para Lula.
A piora no quadro econômico com aumento da inflação, sobretudo de combustíveis e alimentos, já está em curso e vai ser difícil de compensar com medidas paliativas e isto pode ter como consequência uma perda de votos, não necessariamente para Flávio ou um candidato da direita, mas para um não voto. Os índices de abstenção vão ser um fator importante nestas eleições, talvez mais do que em qualquer outra no passado, dadas as estreitas margens de vantagem de Lula. E este quadro econômico pode piorar muito em função de fatores externos como a guerra EUA/Israel x Irã ou planetários como o El Niño gigante prometido pelos cientistas para o segundo semestre.
Com este quadro mais do que arriscado, a decisão de Lula de reapresentar a candidatura de Messias ao STF é inexplicável. Há uma frase muito utilizada no teatro grego antigo que me veio à cabeça quando vi o anúncio da candidatura bis de Messias: “os deuses enlouquecem os que eles querem destruir” (Eurípides em As bacantes).
O que Lula espera deste novo embate? Na melhor das hipóteses Alcolumbre simplesmente não colocaria a candidatura na pauta até as eleições, deixando Lula rangendo os dentes impotente, já que não tem forças para dobrar a vontade do presidente do Senado, nem conta com o apoio da opinião pública para isto. Na pior das hipóteses Alcolumbre pode humilhar Lula de novo, com um desgaste difícil de medir, já que o tema é, para mim, marginal nas decisões do eleitorado. Em qualquer caso, ele tem nada a ganhar e algo a perder. Ao insistir em seu fiel escudeiro, Lula está queimando a possibilidade de lançar um nome de peso que traria o apoio da opinião pública e perdendo a última chance de eleger um juíz ou juíza não bolsonarista. O risco para o futuro é enorme no caso de uma derrota eleitoral de Lula, pois daria à direita a maioria no STF, condição fundamental para golpear a democracia por dentro, como fez Orban na Hungria.
Também não é inteligível a bronca de Lula nos eleitores antissistema com a frase infeliz “qualquer imbecil que se coloca contra tudo isso que está aí ganha aplausos entusiasmados” (ou algo parecido, não me lembro exatamente da frase). Afinal de contas, Lula já foi aplaudido por dizer que o Congresso tinha “300 picaretas com anel de doutor” e até ganhou uma música com o seu dito. O sentimento de que tudo é igual na política brasileira é o resultado de anos de concessões à direita e às classes dominantes mos governos de Lula e os de Dilma e a bronca de Lula passa recibo de que está incomodado por ser confundido com isto tudo que está aí.
O elemento mais importante neste “novo” quadro é que ele não altera a perspectiva de votos para o congresso. Lula pode até ter mais “palanques” com a participação de candidatos da direita, já que alguns partidos do Centrão estão se dispondo a liberar suas bases para acordos eleitorais locais. Esta decisão vai trazer mais votos para Lula? Isto é discutível, mas certamente estas alianças locais com a direita vão dificultar um pedido de votos de Lula para os partidos de esquerda para não desagradar seus novos aliados. O resultado vai ser uma enxurrada de deputados e senadores de direita e fisiológicos, escorados no dinheiro gasto pelas emendas parlamentares. E o congresso resultante vai ser ainda mais sinistro do que o atual.
A candidatura do mais do mesmo de um decepcionante governo Lula III, sem a sensação de uma ameaça à democracia que marcou a eleição de 2022 deixa o PT e aliados de esquerda sem uma mensagem de esperança no futuro do país e leva o eleitorado a olhar os candidatos para Senado e Câmara como uma geleia geral que não indica escolhas diferenciadas a serem feitas na hora de votar.
Votaremos (a esquerda) em Lula sem dúvida, mas descrentes em um futuro em que o “novo” governo irá enfrentar os graves problemas ambientais, sociais, energéticos e econômicos que nos assolam.
Jean Marc von der Weid

Presidente da UNE entre 1969 e 1971
Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983
Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016
Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta



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