Carlos Eduardo Pestana Magalhães
Todos sabem que matar alguém com uma bala na cabeça, em qualquer situação, remete imediatamente a algo premeditado, uma execução. Pode ser a distância ou cara-a-cara, é morte na certa. Supostos bandidos, criminosos, especialmente negros e favelados, são assassinados por soldados profissionais travestidos de policiais dessa maneira no Brasil há décadas, se não há centenas de anos. E a justificativa de sempre é a de que teria havido reação armada e por isso foram executados. Bala na cabeça e reação armada são contraditórios, não fecha a equação.
Durante a invasão dos EUA, a segunda (2003), ao Iraque, houve uma cena onde mariners americanos estavam com vários soldados/combatentes iraquianos prisioneiros sob custódia, deitados no chão, amarrados e desarmados, sob a guarda destes soldados. Eram prisioneiros. E mesmo assim, foram assassinados a sangue frio.
Um destes soldados olhando para um iraquiano deitado, falando alguma coisa, dispara na cabeça do prisioneiro. A cena viralizou pelo planeta, as autoridades militares e políticas dos EUA se rebelaram com a exposição do fato e como se avolumaram as críticas, responderam que haveria um inquérito para apurar as responsabilidades e que o ocorrido não fazia parte do protocolo militar dos gringos. Ainda espera-se algum resultado desse inquérito.
Hoje, no genocídio que israHell faz em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano ou na Síria, é comum esse tipo de execução. Matam-se crianças, bebês ou adolescentes, com tiros na cabeça disparados por atiradores (snipers) a distância de forma regular e costumeira. Vê-se vídeos onde soldados nazissionistas israelenses se gabam de quantos palestinos mataram, de quantas crianças e mulheres foram executadas, pessoal médico, jornalistas etc. sem nenhum temor, remorso, com total impunidade. Fazer coisas assim é normal, é o esperado e ordenado. Uma sociedade doente e terminal…
Matar virou um hobbie para soldados israelenses. Palestinos não são seres humanos, têm que ser exterminados, são coisas a serem abatidas, pouco importa quem sejam. Uma simples bala na cabeça resolve a questão. Milhares de crianças tiveram esse fim na Palestina, denúncias de muita gente, jornalistas, políticos, médicos e paramédicos, com chapas de raio X mostrando a bala dentro do cérebro de uma criança, de um bêbe, tudo isso bem organizado e catalogado e nada acontece. Parte considerável do mundo, a ONU, os tribunais internacionais nada ou pouco fazem. São cúmplices passivos desse genocídio, dessa covardia, desumanidade, crueldade que a História jamais esquecerá.
No Brasil, nas senzalas modernas (favelas, comunidades, periferias, quebradas da vida) essa mesma bala, às vezes chamadas de perdidas, atinge o mesmo alvo: as cabecinhas. E não é ao acaso ou má sorte, mas é projeto, é necropolítica, tanto aqui quanto no resto do mundo. Matar, torturar, executar seres humanos em praticamente todo o planeta virou normal, esperado, não impacta mais.
O genocídio que acontece nas favelas brasileiras, as chacinas executadas pelos soldados profissionais das PM (Prontos pra Matar), erroneamente chamados de policiais, é a mesma coisa que acontece na Palestina, em Gaza etc., só que numa escala menor. Mas, a crueldade, a violência, as execuções são as mesmas…
Carlos Eduardo Pestana Magalhães (Gato)

Jornalista, sociólogo, membro da Comissão Justiça paz de São Paulo, do Grupo Tortura Nunca Mais e da Geração 68 Sempre na Luta…



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