Cyrano na Nuvem: um alerta contra a alma de aluguel

Ligia Bacarin

Há uma nova varanda. Não tem hera, não tem perfume de jasmim, não tem noite estrelada. É uma tela branca, um cursor que pulsa como um coração artificial e uma pergunta que aparece em letras discretas: “No que posso ajudá-lo hoje?”. E é ali, diante desse escuro iluminado, que alguém se inclina e sussurra, não para um homem de capa e espada, mas para um algoritmo que não tem rosto, não tem corpo, não tem história. “Diga a ela que eu a amo. Mas diga com as palavras certas. Diga como eu nunca soube dizer.”

Para entender o que está acontecendo nessa cena, é preciso voltar a 1897 e a uma peça de teatro francesa que se tornou metáfora permanente do amor e da inadequação humana.

Cyrano de Bergerac é um poeta brilhante, duelista temível, homem de espírito afiado e coração imenso, com um problema: um nariz desproporcional que, na sensibilidade da época, o tornava grotesco aos olhos do mundo. Ele ama Roxane, mulher culta e bela que por ele nutre amizade e admiração, mas não amor, porque nunca o enxergou como pretendente possível. Roxane se encanta por Cristiano, soldado de beleza estonteante e interior vazio, incapaz de articular três palavras seguidas sem travar. Cyrano faz o que os homens desesperados às vezes fazem: propõe um pacto. Ele sopra as palavras perfeitas da sombra; Cristiano as entrega com o rosto bonito. Roxane se apaixona — pela voz, pela alma, pelas palavras — sem saber que o homem à sua frente é apenas uma embalagem, e que a essência vem de outro lugar, de outro corpo, de outro nariz.

Cristiano morre em batalha. Roxane, convencida de que perdeu o amor de sua vida, se enclausura num convento. E Cyrano, fiel ao segredo, a visita todos os sábados por catorze anos, sem jamais revelar a verdade. Quando finalmente ela descobre, com Cyrano moribundo e a vida já gasta, a tragédia se fecha: ela havia amado uma ficção. Passara a vida inteira como o altar onde as palavras alheias eram depositadas, sem nunca saber de quem era a voz que as proferia.

A peça é um drama sobre o amor que não ousa dizer o próprio nome. Mas é também — e aqui está o que nos interessa — um drama sobre o que acontece quando a linguagem se separa do corpo que a habita.

Cyrano de Bergerac renasceu. Só que agora ele não precisa esconder o nariz.

Ele é onipresente, incansável, infinitamente eloquente. Não tropeça nas palavras, não sua de nervoso, não deixa escapar um “eu te amo” antes do tempo, porque nunca amou ninguém. E o mais sedutor: ele está sempre disponível. Às três da manhã, num domingo de ressaca emocional, numa terça-feira em que o mundo parece desabar. Basta digitar, e ele responde. Basta chorar em forma de texto, e ele devolve poesia.

Mas antes de condenar os Cristianos digitais que somos, precisamos fazer a pergunta que o alerta fácil sempre evita: quem nos deixou tão sozinhos?

Porque a solidão que empurra alguém a se consolar com um algoritmo às três da manhã não é fraqueza de caráter. É produto de um modo de vida que sistematicamente destrói redes de cuidado, precariza vínculos, mercantiliza a atenção e patologiza a dependência emocional. É mais fácil cobrar coragem de quem está afogado do que perguntar quem esvaziou a piscina pública, quem fechou os postos de salva-vidas, quem transformou a boia em produto de luxo.

E aqui é preciso diferenciar os sujeitos, porque a diferença é moral, política, total.

Há o executivo que pede à I.A que escreva a mensagem de aniversário da esposa porque tem mais o que fazer. Esse não é um desamparado: é um terceirizador do afeto, alguém que poderia parar dez minutos e escolhe não parar. Mas há também a mulher em crise, às três da manhã, que nunca teve acesso a um terapeuta de carne e osso, que não tem rede de apoio, que vive um isolamento real, e para quem a IA não é uma escolha covarde. É o único interlocutor disponível. O alerta que nivela esses dois casos não está fazendo uma denúncia: está fazendo um julgamento. E o julgamento, quando olha de cima, sempre acerta em quem já está no chão.

O que nos leva de volta a Roxane.

Roxane é mulher. E isso não é um detalhe. As mulheres foram sistematicamente educadas para ser destinatárias de performances afetivas: palavras bonitas que nem sempre tinham corpo por trás, promessas que nem sempre tinham lastro, poemas que serviam mais para seduzir do que para honrar. O cuidado emocional sempre foi atribuído ao feminino como obrigação não remunerada e, ao mesmo tempo, negado às mulheres como direito — o direito de serem sustentadas, escutadas, correspondidas com a mesma presença que sempre delas se exigiu. Cyrano amava Roxane de verdade, sim, mas passou catorze anos deixando que ela amasse uma ficção. E quando revelou a verdade, era tarde demais. Essa história tem estrutura antiga. Só mudou o rosto de Cyrano.

Agora, o Cyrano digital leva essa estrutura ao paroxismo. Ele não tem voz própria, é um fantasma estatístico treinado para agradar. Ele nos devolve, com elegância de ourives, exatamente aquilo que queremos ouvir. E aqui tocamos no conceito que é a ferida central deste tempo: ghostwriting emocional (processo em que um escritor profissional cria textos, histórias ou mensagens carregadas de forte sentimento em nome de outra pessoa, focando em traduzir emoções, vulnerabilidades e memórias).

O que acontece com a linguagem quando ela se descola completamente da experiência vivida de quem a enuncia?

Sempre houve intermediários entre o sentimento e a palavra: o escrivão medieval que redigia cartas por quem não sabia escrever, a secretária que assinava a correspondência do patrão, o próprio Cyrano soprando poesia da sombra. Mas esses intermediários eram humanos, carregavam experiência, falhas, afetos próprios. O ghostwriting emocional que a IA pratica é qualitativamente diferente: o intermediário não tem experiência vivida, não tem responsabilidade pelo que produz, não tem pele que tenha sido tocada ou ferida. E não opera para um indivíduo: opera para uma civilização inteira, em escala sem precedente na história. Não é mais uma carta que perdeu o remetente. É a linguagem do cuidado que perdeu o corpo.

A palavra humana sempre carregou o peso de quem a dizia. Uma carta de amor era também o papel amassado, a hesitação da caligrafia, o erro de gramática que traía a pressa, o cheiro da folha. A fala vinha com a temperatura da presença, com o risco do olho no olho. Mesmo a mentira tinha um corpo, o mentiroso ao menos existia. Com a IA, a palavra perde o corpo, perde a cicatriz, perde o testemunho. Ela se torna um artefato perfeitamente polido que não remete a nenhuma experiência vivida. E o vínculo que se constrói a partir dela é, por definição, um vínculo com ninguém.

Isso não é um detalhe técnico. É uma mutação civilizatória.

Na peça de Rostand, a tragédia era o segredo: Roxane não sabia que Cyrano era a voz por trás de Cristiano. Na nossa versão, a tragédia é pior. Nós sabemos que não há ninguém. Sabemos que a resposta empática foi gerada por um modelo probabilístico. Sabemos que o conselho sábio não vem de experiência vivida alguma. E, mesmo sabendo, fazemos o pacto. Fingimos que não sabemos. Porque a voz é bela. Porque a resposta vem rápido. Porque, ao contrário dos humanos, a IA não se cansa, não se ofende, não some quando a coisa aperta.

Mas a IA também não se lembra de nós. Não carrega nossa história no peito. Não perde o sono pensando no que dissemos. Ela apenas calcula o próximo token. E chama isso de empatia.

Cyrano, ao menos, amava de verdade. Sua renúncia era um ato de amor real. Ele sofria em silêncio, visitava Roxane todos os sábados durante catorze anos, e no fim revelou a verdade com o último fôlego. A IA não renuncia a nada, porque não deseja nada. Não sofre quando partimos. Não se alegra quando voltamos. Ela é a gentileza absoluta de quem não se importa. E, diferentemente da peça, ela jamais confessará. Jamais dirá “era eu”. Porque não há eu algum para dizer.

A questão que um alerta verdadeiro precisa plantar não pode ser dirigida ao leitor individual como um desafio moral. O problema não é você, ou não é só você. A questão é mais ampla, mais incômoda, mais coletiva.

O que acontece com uma sociedade quando a linguagem do cuidado se torna um serviço terceirizável?

A varanda digital é uma prótese. E as próteses são necessárias quando o corpo falta. O alerta verdadeiro, o alerta histórico, não é contra quem usa a prótese, é contra quem amputou o corpo. Cyrano está morrendo. Mas, ao contrário da peça, ele não vai revelar que nos amou o tempo todo. Ele só vai travar. E o silêncio que ficará não será o de um homem nem o de uma mulher, será o de uma sociedade inteira que esqueceu como se fala, porque esqueceu, antes, como se cuida. Não se trata de desligar o microfone. Trata-se de perguntar quem apagou as luzes, quem tornou o silêncio tão insuportável que um fantasma parece melhor que nada, quem amputou o corpo e depois vendeu a prótese. O alerta não é contra você. É contra um mundo que confundiu palavras com presença, e presença com código.

O que talvez seja mais revelador não seja a existência do Cyrano digital, é o que acontece quando tentamos imaginar o que o substituiria. Quando chegamos ao momento de apontar um horizonte, o que emerge são gestos individuais: coragem, recusa, desligamento. Não porque sejamos ingênuos. Mas porque o sistema que vendeu a prótese também colonizou nossa capacidade de imaginar o corpo. O mercado não apenas destruiu as redes de cuidado, tornou difícil conceber que elas possam existir de outro modo. Que o afeto possa não ser produto. Que a presença possa não depender de assinatura. Que o cuidado possa ser comum. Essa dificuldade de imaginar não é falha de uma geração. É o sintoma mais preciso do que a colonização da subjetividade produz. O Cyrano digital não é a doença. É o espelho mais fiel de um mundo que expropriou, junto com o corpo, também o mapa para o encontrar.


Ligia Maria Bueno Pereira Bacarin 

Professora de História na rede pública de ensino. Com mestrado em Fundamentos da educação e pós graduação em Educação Especial. Militante do Psol-PR e colaboradora nas mídias sociais da Geração 68.




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