Reindustrializar o Brasil para disputar o futuro

Amaury Monteiro Junior

A soberania não se defende apenas com discurso: ela se constrói com indústria, ciência, engenharia, trabalho e Estado nacional

O artigo de José Dirceu, FSP – 09/07/2026, ao afirmar que é preciso reindustrializar o Brasil para disputar o futuro, acerta no ponto central da conjuntura brasileira. A pergunta decisiva não é apenas quanto o país crescerá no próximo trimestre, nem se os relatórios do mercado financeiro ficarão mais tranquilos. A pergunta decisiva é outra: que país queremos ser nas próximas décadas?

O Brasil pode aceitar o papel subalterno de fornecedor de commodities, exportador de minério bruto, petróleo cru, soja, água virtual, biodiversidade e trabalho barato. Pode seguir como mercado consumidor, praça financeira, território de extração e pagador de juros. Ou pode decidir construir uma nação soberana, democrática, industrializada, tecnologicamente capaz e socialmente justa.

Essa escolha não é abstrata. Ela aparece no preço da comida, no emprego dos jovens, na tarifa de energia, na dependência de fertilizantes, na falta de semicondutores, na fragilidade das cadeias de medicamentos, na precarização por aplicativos, na entrega de serviços essenciais e na dificuldade de transformar riqueza natural em bem-estar popular.

O G68 Sempre na Luta precisa entrar nesse debate com clareza: reindustrializar o Brasil não é uma pauta de gabinete, nem uma nostalgia do passado. É uma tarefa nacional, popular e democrática. É condição para que o povo brasileiro tenha futuro.

O mundo voltou a fazer política industrial

José Dirceu lembra um fato que a direita brasileira finge não ver: as grandes potências voltaram a fazer política industrial. Estados Unidos, China, União Europeia e outros centros de poder disputam semicondutores, inteligência artificial, energia, defesa, dados, minerais críticos e cadeias produtivas. Nenhuma potência séria entrega seu futuro ao improviso do mercado.

Enquanto isso, parte da elite brasileira continua repetindo uma cartilha velha: equilíbrio fiscal como fim em si mesmo, corte de gastos, privatização, ataque a direitos trabalhistas, redução do Estado e submissão da política econômica ao rentismo. Essa receita não produziu desenvolvimento. Produziu desindustrialização, reprimarização, dependência tecnológica e orçamento público drenado por juros abusivos.

A indústria de transformação organiza cadeias produtivas, demanda ciência, puxa engenharia, cria empregos mais qualificados, fortalece fornecedores, amplia a produtividade e aumenta a capacidade de decisão de um país. Uma nação sem indústria forte pode até crescer em alguns momentos, mas cresce de joelhos, dependente de decisões tomadas fora de seu território.

É por isso que a reindustrialização deve ser tratada como política de Estado. Não pode depender do humor de um governo, de um ministro ou de uma conjuntura eleitoral. Precisa ter continuidade, financiamento, compras públicas, conteúdo nacional, inovação, metas, controle social e compromisso com a classe trabalhadora.

O que o programa A Política Nua e Crua, no Canal Arte Agora, vem dizendo?

As anotações e programas recentes de A Política Nua e Crua caminham exatamente nessa direção. O programa vem insistindo que soberania não é retórica patriótica. Soberania é capacidade concreta de decidir. É o povo brasileiro ter instrumentos para governar seu território, sua economia, sua energia, seus dados, sua indústria, sua engenharia, sua saúde e sua democracia.

Quando o programa denuncia os juros altos, não está fazendo apenas uma crítica econômica. Está mostrando que a política monetária, quando capturada pelo rentismo, funciona como freio de mão contra o desenvolvimento nacional. Juros estratosféricos drenam recursos públicos, encarecem o crédito, desestimulam investimento produtivo e oferecem ao capital financeiro uma remuneração incompatível com qualquer projeto soberano.

Quando o programa critica privatizações como as da Sabesp e da Enel, não está defendendo um estatismo abstrato. Está perguntando quem controla serviços essenciais. Água, energia, saneamento, dados, transporte, saúde e infraestrutura não podem ser tratados apenas como ativos para acionistas. São bases materiais da vida coletiva.

Quando o programa defende a engenharia estratégica, está dizendo que a técnica tem lado. Uma obra pública, uma ferrovia, uma refinaria, um sistema de saneamento, uma rede digital ou uma fábrica de fertilizantes não são apenas objetos técnicos. São escolhas sobre o país que fica depois do contrato assinado. Fica conhecimento nacional? Ficam fornecedores brasileiros? Fica manutenção autônoma? Ficam empregos qualificados? Ou fica apenas a dependência renovada?

A falsa modernidade da dependência

O discurso neoliberal gosta de se apresentar como moderno. Mas que modernidade é essa que reduz o Brasil a exportador de produtos primários e importador de tecnologia cara? Que modernidade é essa que desmonta empresas nacionais, precariza o trabalho, entrega infraestrutura, enfraquece universidades e chama isso de eficiência?

A verdadeira modernidade, para um país como o Brasil, está em transformar suas vantagens extraordinárias em capacidade nacional. Temos matriz energética relativamente limpa, alimentos, água, biodiversidade, petróleo, minerais estratégicos, mercado interno, universidades públicas, institutos federais, Embrapa, Fiocruz, Butantan, BNDES, Petrobras e uma tradição respeitável de engenharia.

Mas recurso natural sozinho não liberta ninguém. Petróleo sem refino, petroquímica, fertilizantes, pesquisa e engenharia vira riqueza bruta que sai barata e volta cara. Minério sem beneficiamento nacional vira dependência industrial. Biodiversidade sem ciência brasileira vira biopirataria sofisticada. Energia limpa sem estratégia industrial vira mercado para equipamentos importados.

A pergunta central é simples: o Brasil vai continuar vendendo peso e comprando inteligência? Ou vai transformar suas riquezas em conhecimento, indústria, salário, tecnologia e soberania?

Reindustrialização popular, não modernização para poucos

A esquerda precisa disputar o sentido da reindustrialização. Não basta defender indústria em termos genéricos. Também não basta aceitar uma agenda empresarial que fale em inovação, produtividade e competitividade enquanto trata salário, direitos sociais, gasto público e proteção ambiental como obstáculos.

A reindustrialização que interessa ao povo brasileiro precisa ser popular. Isso significa combinar produção com direitos, tecnologia com soberania, crescimento com distribuição, eficiência com controle democrático e transição energética com justiça social.

Uma política industrial popular precisa de Estado indutor. Bancos públicos, crédito de longo prazo, compras governamentais, encomendas tecnológicas, PAC, universidades, empresas públicas e planejamento nacional devem atuar de forma coordenada. O mercado sozinho não constrói projeto nacional; ele escolhe a rentabilidade mais imediata dentro das regras existentes.

Também precisa de conteúdo nacional e transferência real de conhecimento. Cada grande obra, contrato, concessão ou compra pública deve responder a uma pergunta obrigatória: o que ficará no Brasil? Se não ficam tecnologia, formação, fornecedores nacionais, manutenção autônoma e capacidade produtiva, o país apenas comprou uma solução pronta e renovou sua dependência.

E precisa de trabalho decente. Não existe soberania nacional construída sobre trabalhador esgotado, endividado, informalizado e sem direito. Reindustrialização popular deve significar emprego qualificado, salário digno, redução da jornada, negociação coletiva, saúde, segurança e organização sindical.

Engenharia, ciência e Estado: ferramentas da soberania

A Política Nua e Crua tem razão ao insistir que engenharia é política. A técnica não está fora da sociedade. Ela decide quem terá água, energia, mobilidade, moradia, saúde, comunicação e proteção ambiental. Uma engenharia subordinada ao mercado financeiro vira mera executora de projetos alheios. Uma engenharia comprometida com o povo vira ferramenta de emancipação nacional.

Por isso, o debate sobre reindustrialização precisa envolver entidades técnicas, universidades, sindicatos, empresas nacionais, movimentos populares e comunicação democrática. O Clube de Engenharia, a tradição da campanha O Petróleo é Nosso, a defesa da Petrobras, a luta contra privatizações predatórias e a reconstrução da engenharia nacional fazem parte da mesma agenda.

Também é indispensável fortalecer ciência e educação pública. Sem universidades, institutos federais, laboratórios, pesquisa de base, formação técnica e valorização profissional, a indústria fica condenada a montar pacotes tecnológicos fechados. O Brasil não pode aceitar que seus engenheiros sejam transformados em gerentes de manutenção de tecnologias importadas.

Soberania exige aprender, adaptar, produzir, manter e inovar no território nacional. Cooperação internacional é bem-vinda quando amplia capacidades brasileiras. Dependência é outra coisa: é pagar a conta, assumir o risco e continuar sem dominar o conhecimento decisivo.

O rentismo é inimigo do futuro

Nenhuma política industrial ganhará fôlego enquanto a política econômica estiver prisioneira do rentismo. Juros altos são apresentados como técnica neutra, mas produzem escolhas políticas muito concretas: retiram dinheiro do investimento produtivo, encarecem a vida das famílias, travam empresas, premiam a especulação e reduzem a margem de ação do Estado.

É preciso dizer sem rodeios: o rentismo é um projeto de poder. Ele organiza a economia para remunerar dinheiro parado, não para produzir país. Enquanto hospitais, escolas, ferrovias, saneamento, ciência e tecnologia disputam recursos escassos, uma parte gigantesca do orçamento é capturada pelo serviço da dívida e pela lógica financeira.

Não haverá Brasil soberano com indústria fraca, Banco Central blindado contra a vontade popular, crédito caro, Estado acuado e orçamento subordinado ao mercado. Política econômica também é política de soberania.

O falso patriotismo da extrema direita

A conjuntura recente mostrou uma contradição gritante. Setores da extrema direita que falam em pátria, família e bandeira não hesitam em buscar apoio externo contra o próprio Brasil quando isso serve a seus interesses eleitorais. Pedir pressão estrangeira, defender tarifas contra produtos brasileiros ou sabotar a economia nacional para atacar um governo eleito não é oposição democrática. É entreguismo.

O verdadeiro patriotismo não se mede por discurso inflamado nem por símbolo usado em palanque. Mede-se pela defesa do emprego nacional, da indústria brasileira, da ciência pública, dos serviços essenciais, da soberania energética, da Amazônia, dos dados do povo e da autodeterminação nacional.

A direita quer um Brasil ajoelhado, privatizado e domesticado. Nós queremos um Brasil de cabeça erguida, integrado ao mundo, mas dono de suas escolhas. Um Brasil que coopere sem aceitar tutela. Um Brasil que dialogue com diferentes polos internacionais sem abrir mão de seu projeto próprio.

Uma agenda para disputar o futuro

O G68 Sempre na Luta deve defender uma agenda clara de reindustrialização soberana e popular. Essa agenda passa por transformar a Nova Indústria Brasil em política de Estado com escala, recursos e continuidade; fortalecer o BNDES, a Finep e os bancos públicos; usar compras públicas para desenvolver cadeias nacionais; reconstruir setores estratégicos em saúde, defesa, energia, alimentos, máquinas, semicondutores, infraestrutura e bioeconomia.

Passa também por retomar o papel da Petrobras como empresa estratégica, capaz de articular petróleo, gás, fertilizantes, petroquímica, pesquisa e transição energética. A riqueza finita do petróleo deve financiar o futuro energético e tecnológico do país. Do poço ao posto, e do posto ao poste: essa é uma síntese poderosa para uma política de soberania energética.

Passa por proteger minerais críticos e terras raras contra a lógica do enclave exportador. O minério precisa virar aço, bateria, máquina, equipamento médico, trem, turbina, tecnologia e emprego qualificado no Brasil. A biodiversidade precisa virar ciência nacional e bioeconomia soberana, respeitando comunidades e territórios.

Passa por soberania digital. Dados, plataformas, nuvens, inteligência artificial, semicondutores, pagamentos e segurança cibernética são infraestruturas do poder contemporâneo. O Pix mostrou que o Estado brasileiro pode produzir tecnologia pública eficiente, popular e soberana. Precisamos multiplicar essa capacidade, não entregá-la às grandes plataformas estrangeiras.

E passa por democracia participativa. O povo não pode ser chamado apenas para votar e depois assistir ao país ser governado pelo rentismo, pelas corporações e pelos interesses externos. Reindustrializar o Brasil exige mobilização social, controle público, participação popular e pressão organizada.

Conclusão: soberania é futuro concreto

José Dirceu tem razão ao recolocar a reindustrialização no centro do debate nacional. E A Política Nua e Crua acerta ao mostrar que esse debate não é apenas econômico: é político, social, tecnológico, energético, democrático e civilizatório.

O Brasil precisa escolher. Ou continua exportando riqueza bruta, importando tecnologia, pagando juros, privatizando direitos e aceitando tutela. Ou constrói um projeto nacional soberano, com indústria forte, ciência pública, engenharia estratégica, Estado indutor, trabalho decente, transição ecológica e poder popular.

Essa escolha não pode ficar nas mãos da Faria Lima, nem das embaixadas estrangeiras, nem dos que tratam o país como negócio. Ela precisa ser assumida pelo povo brasileiro.

Reindustrializar o Brasil para disputar o futuro é, no fundo, disputar quem manda no Brasil. Se mandará o rentismo ou a produção. Se mandará a dependência ou a soberania. Se mandará a minoria que lucra com o atraso ou a maioria que trabalha, produz e sustenta este país.

O G68 Sempre na Luta deve estar nesse combate. Porque lutar pela reindustrialização soberana é lutar por emprego, dignidade, conhecimento, independência e futuro. É lutar para que o Brasil deixe de pedir licença para existir e passe a construir, com suas próprias mãos e sua própria inteligência, o país que o povo merece.

Fontes de referência

  • José Dirceu, É preciso reindustrializar o Brasil para disputar o futuro.
  • Documento de apoio: Reindustrializar o Brasil para Disputar o Futuro, A Política Nua e Crua, Canal Arte Agora, 9 de julho de 2026.
  • Anotações, resumos e roteiros do programa A Política Nua e Crua, especialmente os programas 73, 74 e 75.

Amaury Pinto de Castro Monteiro Junior

Engenheiro Civil, militante do movimento Geração 68 – Sempre na Luta, Editor do programa A Politica Nua e Crua no Canal Arte Agora.



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