Botox ou socos: a crônica de uma agressão comentada

LÍGIA BACARIN

Em Crônica de uma Morte Anunciada, Gabriel García Márquez reconstrói um crime que toda a cidade sabia que ia acontecer. A pergunta do livro não é “quem matou Santiago Nasar?”, mas “quantas pessoas foram necessárias para que aquela morte se cumprisse?”. Os assassinos seguravam as facas; a cidade segurava as desculpas. E as desculpas nunca foram neutras: protegiam sempre a mesma ordem.

Na semana passada, uma outra cena se desenrolou diante de nós, não numa praça do Caribe, mas num feed de rede social. A cirurgiã-dentista Giullia Falcão Kos, 27 anos, publicou o rosto ferido após, segundo seu relato, ser brutalmente agredida pelo marido, o empresário Ivo Kos, 48, em um bairro de alto padrão de São Paulo. Havia hematomas, inchaço, dor.

Dias depois, soube-se mais. Ivo Kos foi preso em flagrante horas após a agressão, e a prisão foi convertida em preventiva. Câmeras de segurança registraram o momento em que ele avança sobre Giullia, sentada no chão, indefesa. Mensagens anteriores, tornadas públicas, revelam como ele já a ameaçava antes daquela noite: dizia que era ele quem pagava por tudo, que tinha recursos e advogados de sobra para esmagá-la caso ela reagisse, que podia ser bom ou podia ser muito ruim, ao seu critério. Não era metáfora, era um inventário de posses, dinheiro, prestígio, defesa jurídica, usado como arma bem antes do taco de beisebol. A defesa de Giullia pede que o caso seja reclassificado como tentativa de feminicídio.

Os comentários, porém, não vieram perguntar se ela estava segura, se o agressor seria responsabilizado, se havia abrigo. Vieram com ironia: “Não sei se o rosto dela está assim por causa do botox ou dos socos do marido.”

A piada correu mais rápido que qualquer pedido de socorro, porque o escárnio tem alcance, e a solidariedade, não. Ninguém precisou organizar aquilo; bastou deixar o feed fazer o que o feed faz: premiar o comentário que fere, silenciar o que cuida.

A frase é uma agressão de segunda ordem. Não deixa marca no rosto; deixa silêncio na alma. E repete o gesto dos vizinhos de García Márquez: diante de uma violência anunciada, preferimos uma explicação que nos absolva. Se o rosto é botox, não é violência; é vaidade. Se é soco, talvez ela tenha feito por merecer. Em qualquer hipótese, a vítima vira ré, e o problema muda de endereço: sai da mão que bateu e vai morar no rosto que apanhou.

No romance, ninguém impede o crime por medo, conveniência ou simples distração. A cidade inteira sabe e não age. Nas redes, a cidade inteira vê e não repara. José Saramago escreveu em Ensaio sobre a Cegueira: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Nós olhamos o rosto de Giullia e não vemos dor; vemos estética. Essa cegueira não nasce pronta, aprende-se, feed após feed, o que merece o nosso cuidado e o que merece a nossa piada.

A antropóloga Rita Segato chama isso de pedagogia da crueldade: a violência contra uma mulher nunca fala só com ela; fala com todas as que estão olhando, ensinando o preço de existir, de discordar, de sair de casa. O comentário irônico completa essa aula. Ele não está fora da agressão, está dentro dela. É a segunda frase da mesma sentença, circulando sozinha pelo mundo.

Giullia, enquanto isso, só sentia o rosto doer. A timeline não parava para isso.

Hannah Arendt falaria em banalidade do mal. O hater não se acha cruel; acha-se espirituoso. A crueldade, aqui, não vem em doses grandes e visíveis: vem fabricada em série, um comentário atrás do outro, cada um pequeno demais para pesar na consciência de quem o escreve.

Em A Letra Escarlate, Hawthorne descreve Hester Prynne exposta no cadafalso, com a comunidade lendo seu corpo como sentença. Hoje a plataforma de punição e de humilhação pública tem dono e cobra por clique. A letra escarlate é o hematoma. E a praça, que antes era pública, agora fatura a cada vez que alguém para para julgar.

Talvez o paralelo mais exato esteja em Os Miseráveis. Fantine é destruída pela moral pública: vende os cabelos, os dentes, o corpo. A sociedade não pergunta quem a empurrou para a miséria; julga o que ela fez para sobreviver. O rosto de uma mulher, em qualquer século, continua sendo um campo de disputa: nele se leem vaidade, culpa, merecimento, tudo, menos a mão que golpeou.

Mas é preciso dizer o que Fantine também ensina, e que esta crônica corre o risco de esquecer: a maioria das mulheres marcadas por um soco não tem sequer isso, um comentário irônico, uma piada cruel, um julgamento público. Não têm feed, não têm bairro nobre, não têm boletim de ocorrência com repercussão. A empregada doméstica, a diarista, a mulher da periferia agredida na quinta-feira e de volta ao batente na sexta, essas não são zombadas; são simplesmente ignoradas. E ser ignorada é uma violência sem nome, mais funda que o escárnio, porque nem precisa de piada: basta o silêncio de sempre. Se Giullia é julgada em praça pública, a maioria é sequer julgada, é apenas esquecida, o que talvez seja pior.

A pergunta de García Márquez merece ser repetida em voz alta: quantas pessoas são necessárias para que uma agressão vire piada? Quantos comentários são necessários para matar a compaixão? No romance, a morte era anunciada. Aqui, a agressão foi denunciada. E, ainda assim, a cidade preferiu não ver, porque ver dói, e o escárnio, não.

Giullia sobreviveu. Mas seu rosto continuará exposto ao tribunal de sempre: o mesmo que duvida da vítima, esvazia a dor e confunde agressão com estética. Talvez o primeiro gesto ético seja simples, e por isso mesmo difícil: recusar a transação. Não trocar a dor de ninguém por uma risada, um clique, a recompensa invisível de ser sagaz.

Diante de um rosto machucado, não perguntar se é botox ou soco. Apenas ver. E, vendo, reparar.

Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicologia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR, colaboradora nas mídias sociais da Geração 68 e colunista mensal do Canal Pororoca.


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