Crônica domingueira número 01 Tristitia, salve! Tristeza, bom dia!

Affonso Abreu – 06/09/2026

Acordei cedo, abri os olhos e ela já estava lá.
Não sei exatamente quando chegou. Talvez tenha entrado pela fresta da janela, junto com aquela luz indecisa das manhãs de domingo. Não bateu à porta, não fez barulho. Apenas se aconchegou ao meu lado, quieta e enigmática.
— Tristeza, bom dia! Balbuciei.
Ela não respondeu: apenas insinuou um sorriso, que não lembrava tristeza.
Olhei-a por um breve momento. Repousava qualquer coisa de familiar naquele silêncio. Talvez fosse uma lembrança sem passado, uma saudade sem endereço, ou simplesmente aquele estranho sentimento que aparece, quando a manhã ainda não decidiu se será solar.
— O que você quer, pergunto baixinho?
Nenhuma resposta. Doce silêncio!
— Que me trazes?
Novamente, um pequeno sorriso evanescente.
Foi quando pressenti qualquer coisa: Talvez não tivesse vindo para falar.
Talvez tivesse vindo apenas para me lembrar que algumas coisas, dentro de nós, se perdem quando ganham um nome.
Preparei café para dois.
E ela ficou!
A manhã crescia sem pressa e alguma coisa permanecia entre nós.
Assim, percebi que certas visitas não precisam dizer palavra alguma.
Não pedem nada, além de nossa companhia.
Tristeza, bom dia!

Affonso Abreu

Advogado militante por 40 anos, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil – Seção do Rio de Janeiro, especialista em Psicologia Analítica Junguiana, analista em formação pelo CEJAA – Centro de Estudos Junguianos Analistas Associados.


Descubra mais sobre Geração 68

Inscreva-se agora mesmo para continuar lendo e receber atualizações.

Continue lendo