Tomás Togni Tarquinio
Um mês após minha prisão no Estádio Nacional, os militares decidiram, não sei por qual razão, formalizar a prisão dos estrangeiros exilados e indesejáveis através de um inquérito policial a cargo dos Carabineiros, equivalente à Polícia Militar. Para tal, prepararam uma enorme sala onde colheriam o depoimento dos suspeitos a serviço do comunismo internacional, guerrilheiros treinados por Castro, na falta de melhor classificação.
O local escolhido para a realização do inquérito policial me fez lembrar da sala de aula onde fui alfabetizado. A recinto estava mobiliado com uma vintena de carteiras escolares, número equivalente ao de presos que seriam interrogados no atacado. Diante de cada carteira, havia duas cadeiras dispostas em face a face. Uma destinada ao oficial responsável pelo inquérito, outra ao detido. Quando meu grupo de detentos entrou sala, foi recebido com uma saraivada de golpes de cassetetes, enquanto os agressores indicavam onde deveríamos nos sentar. Uns dez soldados armados no entorno da sala nos intimidavam e faziam a segurança do local.
Sentei-me diante do oficial de carabineiros encargado do inquérito. Ele me entregou uma folha de papel impressa em mimeografo a álcool para preenche-la: nome, sobrenome, profissão, endereço. Em seguida, respondi as perguntas esdrúxulas que o inquiridor anotava no papel. Porque vivia no Chile. Se conhecia o secretário do Partido Comunista Chileno e outros comunistas e socialistas. Se pertencia a algum partido de esquerda. Se possuía armas. Porque vivia no Chile.
Enquanto prestava meu depoimento, soldados munidos de cassetetes percorriam os espaços entre as carteiras escolares distribuindo golpes a granel à direita e à esquerda. Pancadas aleatórias desferidas nas cabeças, braços, costas e ombros. Ao mesmo tempo que gritavam alucinados “mentirosos”, “falem a verdade” entre outros impropérios. Eu estava diante de uma cena real, longe das teses surrealistas de André Breton, cenário suficiente para preencher alguns minutos de filmes no estilo de Tarentino, gênero Inglourious Basterds, ou Coppola, em Apocalypse Now.
Ao declinar minha condição de estudante de economia na Universidade de Chile, vivi uma situação insólita e inesperada. O oficial decidiu testar meus conhecimentos:
_ Você estuda economia? Então diga-me quem foi Frederick Taylor e Jules Feyol.
Jamais poderia imaginar que, detido em um campo de concentração improvisado, prestando depoimento em um inquérito coletivo insano, sob pancadas, gritos e ameaças, o meganha me inquira sobre os pais dos métodos modernos de administração de empresas capitalistas e racionalização do trabalho, cuja consigna preconizada por ambos autores era “planejar, organizar, direcionar e controlar”. Como não era mau aluno, respondi a contento. Anos mais tarde, descobri que Lenin admirava Taylor e aplicou seu método durante o nascimento da indústria soviética. Para o líder bolchevique, como os operários estavam no poder, a tarefa principal não mais seria de reivindicar melhores condições de trabalho, mas racionalizar a produção industrial. Após o parêntesis econômico, o carabineiro introduziu a pergunta fatídica.
– Porque você foi preso?
Boa pergunta, pensei com meus botões. “Fui detido em casa por uma patrulha e não sei a razão”, respondi. Pouco convencido com minhas sinceras palavras, o carabineiro me obrigou a assinar o documento. Em seguida colocou uma letra S maiúscula, de suspeito e acrescentou de próprio punho: “elemento perigoso e dissimulado”.
Tomás Togni Tarquinio

Formado em Antropologia e Prospectiva Ambiental na França. Desde 1977, trabalhou em diversas instituições francesas e europeias pioneiras sobre: energia, ecologia política, meio ambiente, decrescimento e colapso da sociedade termo industrial. Foi Secretário do Governo do Amapá, por ocasião da execução do pioneiro Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA); trabalhou no MMA e Senado.




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