Carlos Eduardo Pestana Magalhães
Eleição não se ganha só no voto, ganha-se antes, muito antes, com ou sem rede social martelando este ou aquele candidato, esta ou aquela mentira e assim por diante.
Ganha-se eleição nos trabalhos de base, na educação política, na organização e nos movimentos sociais, sob um projeto de nação e de governo que seja entendido e aceito pela população. Deixar pra fazer trabalho nas ruas ou seja onde for, com ou sem recursos tecnológicos durante o período eleitoral, guardadas as diferenças e época, é um tipo de voto de cabresto. Uns votam por dinheiro, outros por promessas de uma vida melhor. Qual a diferença?
Votar no Lula hoje é obrigação, é o que sobrou para evitar que este país, que nunca foi uma nação, se torne um lixo comandado pelos EUA. Que a frágil democracia conquistada com lutas e sacrifícios não acabe, quem diria, no Irajá. É a única saída, mesmo que momentânea…
O que não quer dizer que mesmo que o Lula ganhe, essa possibilidade de golpe desapareça. Talvez fique mais difícil, mas continuará existindo. Sem participação popular verdadeira e genuína, sem minimamente ter consciência do que significa lutar pelo país, sem ter a visão do conjunto da sociedade, não há como formar massa crítica para qualquer tipo de luta. A consciência de classe e de luta é forjada na luta, nas informações, nos debates, na educação política constante…
Não há na população em geral, em todas as classes e estamentos sociais, uma coisa fundamental para formatar qualquer sentimento de brasilidade: pertencimento. O brasileiro em geral não sabe nem o que é isso, não se sente pertencer ao país visto ele não ser uma nação com projetos definidos, claros, que atenda as pessoas, que represente cidadania para todos e não apenas para alguns, em especial os brancos, classe média com algum dinheiro, título universitário etc.
Tanto faz de que classe social pertença, por motivos historicamente diferentes, muitos brasileiros sonham em sair do país e trabalhar no exterior sob a ilusão de que terão melhores condições de vida. Brancos com diplomas universitários se sujeitam a trabalhar em funções em outros países, que aqui jamais trabalharam por considerarem funções inferiores.
Na classe trabalhadora, especialmente aqueles que fazem qualquer coisa, por estarem acostumados a estas funções, fazer a mesma coisa lá fora com um salário nominal maior justifica sair do país e se tornarem trabalhadores braçais ilegais no exterior.
O restante, os escravos de sempre, os rejeitados e desumanizados, os que podem ser trocadas e jogados fora quando perde a serventia, não contam, não são gente, são coisas descartáveis e eliminadas quando o Estado assim deseja, em maior ou menor grau dependendo do governo de plantão.
Para as classes dominantes e suas elites brancas, pouco importa se o regime político for uma democracia, uma ditadura, uma plutocracia, a situação de classe nada ou pouco muda. Os de baixo, os precarizados, os dejetos humanos sempre serão os únicos a sofrerem todos tipos de agruras, tudo de ruim que aconteça, serão os torturados, assassinados, os perseguidos, sofrerão com o terror e o medo constante dos grupos militares milicianos de extermínio e controle social do Estado.
Achar que essa realidade mudará a partir de políticas “sociais” onde as esmolas são maiores, mais abundantes sem mexer nas estruturas fundamentais da economia política é enxugar gelo, é manter na ignorância essa população historicamente perseguida e sofrida. É continuar a escravidão por outros meios.
É manter os privilégios de classe dos brancos, dos que dominam todo o país, esse grande fazendão há mais de 500 anos. Quando as esmolas crescem, ficam mais graúdas, favorecendo um consumo maior, mais diversificado, aumentando um pouco a qualidade de vida, as exigências, todas elas, também crescem. Querem mais, por que não…
No coração e nas mentes de muitos brasileiros de todas as classes, uns mais, outros menos, Lula aparece como um grande paizão, aquele que tem a preocupação de cuidar e garantir trabalho, segurança, saúde, moradia, lazer, transporte, saneamento básico, eletricidade etc. para quem nunca teve.
A necessidade constante de trabalhos de base, de educação política, de rodas de conversa, de organizar os movimentos sociais, os sindicatos, centrais sob a ótica de um projeto mínimo de nação e governo é fundamental para qualquer saída, seja eleitoral ou não.
Sem isso, com ou sem controle das redes sociais, das mensagens, mesmo que se ganhe as eleições, essa lacuna nunca será preenchida, o povo sempre ficará à mercê dos poderosos, dos privilegiados, mesmo de quem tenha as melhores das boas intenções.
Retira-se os grilhões, mas mantém a prisão, os limites de classe continuam definidos, as fronteiras entre quem tem e os que não tem continuam guardadas e vigiadas pelos capitães do mato/jagunços, hoje representados pelas forças armadas e seus tentáculos na sociedade: PM (Prontos pra Matar), Civil, GCM, Força Nacional etc. Assim como não existem pobres de direita, não existem ignorantes. Existem pessoas sem informação, sem conhecimento, sem discussão e desrespeitadas…
Carlos Eduardo Pestana Magalhães

Jornalista, sociólogo, membro da Comissão Justiça paz de São Paulo, do Grupo Tortura Nunca Mais e da Geração 68 Sempre na Luta…




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