Na última trincheira. Os sinais de alerta se multiplicam e o risco de derrota de Lula (e da democracia e de muito mais) se agrava

Jean Marc von der Weid

Em março/abril de 2023 escrevi uma série de artigos que intitulei “A armadilha”, embora devesse ter usado o plural, pois eram muitas. Nestas reflexões procurei analisar os perigos que ameaçavam o recém-empossado terceiro governo do presidente Lula. No presente artigo vou fazer um balanço do que ocorreu desde então, olhando para cada uma das armadilhas e as consequências para o embate nas urnas no próximo dia 4 de outubro.

  1. A relação com o Congresso.

Lula venceu a eleição por uma margem mínima de menos de 2% dos votos, perto de dois milhões de eleitores, recebendo o apoio de 50,9% dos votos válidos. Pouco mais de 5% dos votantes anularam ou votaram em branco e 20,5% do eleitorado se absteve, ou seja, um quarto do eleitorado escolheu o não voto. Entre o primeiro e o segundo turnos Lula ganhou pouco mais de 2% de votos, enquanto Bolsonaro arrebanhou mais de 5%. Os dois milhões de votos que deram a vitória de Lula vieram quase todos do que se pode chamar de direita republicana e democrática, representada por Simone Tebet. A ameaça golpista representada por Bolsonaro foi o elemento chave da conquista destes votos.

O voto dos partidos da frente que apoiou o atual presidente foi bem menor, perto de 24%, com o centro alcançando 15% e a direita 61% e o resultado foi uma Câmara de Deputados onde essa última esteve sempre próxima da maioria absoluta. A direita tem uma composição heterodoxa, com o Centrão fisiológico predominando numericamente sobre o extremismo ideológico do bolsonarismo. Neste quadro sinistro o Senado acabou sendo uma arena menos tóxica para o governo, com menor espaço para a esquerda e extrema direita e maior para o centro e o centrão, abrindo um pouco mais de área de manobra para Lula.

Ao traçar a sua política de relação com o Congresso, o governo Lula montou o ministério buscando atrair partidos do centro e do centrão, mas mantendo um controle desproporcional do PT nos cargos de maior importância e nunca entregando ministérios de “porteira fechada” para seus novos (e velhos) aliados. Simbolicamente, a grande responsável pelo diferencial de votos que derrotou Bolsonaro, Simone Tebet, se viu descartada para o ministério que lhe daria mais visibilidade (Previdência) e empurrada para o nicho burocrático do Planejamento, bem fora dos holofotes políticos.

Esta montagem desta “frente ampla” tinha como finalidade conseguir votos suficientes na Câmara e no Senado para garantir a aprovação das propostas do governo, mas isto não funcionou. Ao longo dos quase quatro anos os partidos da base votaram contra o governo em inúmeros projetos, só variando o número de “infiéis” e a postura das lideranças. Isto se explica, por um lado, pela pouca importância dos ministérios recebidos pelos aliados e, por outro lado, pela maior independência dos deputados, cevados desde o governo Bolsonaro nos recursos das emendas parlamentares.

O fato é que o governo perdeu muito e adotou uma prática de negociar seus projetos no Congresso e fazendo tantas concessões que os mesmos frequentemente ficavam irreconhecíveis. No entanto, para manter a ficção da governabilidade, os partidos de esquerda no governo votaram leis de efeito duvidoso ou até claramente negativo junto com a maioria de centro e de direita. A justificativa da votação de projetos muito criticáveis sempre foi “isto é o que é possível” ou “se não votássemos seria pior”.

O preço desta tática foi a crescente perda de identidade dos partidos de esquerda na opinião pública. Ao se confundirem com o resto do Congresso os partidos ditos de esquerda (com exceção do PSOL) passaram a ser vistos como parte do “sistema” e rejeitados junto com ele. O público percebe todos os partidos como uma geleia geral de interesses de lobbies ou dos próprios parlamentares e o fato de todos eles disputarem o acesso às emendas parlamentares só ratifica essa leitura. Fica um tanto indefensável o PT ser, junto com o PL, o maior beneficiário das emendas e o governo denunciar estas como um abuso. É compreensível a ideia de usar as emendas de forma positiva com projetos justificáveis para o amplo público ao invés de deixá-las todas na mão da direita, mas o fato é que o público vê todos com o mesmo visor.

Meus amigos petistas sempre me desafiam para apresentar qual seria a alternativa para esta tática, vista como a única possível devido à correlação de forças no Congresso. Na verdade, a alternativa possível seria de alto risco: enfrentar a maioria de direita com uma postura combativa do presidente, mobilizando a sociedade e aceitando que seus projetos poderiam ser derrotados, mas mantendo uma clara linha de defesa do interesse popular. Isto afirmaria para o eleitorado uma identidade própria que permitiria apontar esta maioria de direita como “inimiga do povo”.

O desafio da maioria parlamentar de direita por meio de mobilizações da sociedade civil ocorreu em raros momentos, mas sem que a iniciativa fosse do governo ou do PT. No caso mais notório, a maioria direitosa do Congresso encolheu-se diante das maiores manifestações de rua neste governo e não votou uma anistia disfarçada de dosimetria.

Governar com mobilização social pressionando o Congresso nem foi tentado. Tanto os partidos da base como as forças da sociedade civil se viram impotentes para fazer uma mobilização significativa. A própria campanha eleitoral de 2022 mostrou que havia um abismo entre a capacidade de convocatória de Lula e a das forças progressistas, partidárias ou da sociedade civil organizada.

Para governar pelo enfrentamento Lula teria que ser também o agente mobilizador direto e isto o colocaria no rumo de um pedido de impeachment. Seria preciso uma seleção muito bem-feita de projetos com alta sensibilidade para a população, como por exemplo a jornada 5×2 ou a taxação das fortunas e forçar o debate na sociedade.

Não sei se Lula chegou a cogitar esta hipótese de governar pela mobilização social, mas a forma de conciliação adotada nos levou ao dilema atual: mesmo se Lula ganhar esta eleição ele vai estar ainda mais enrolado na armadilha do próximo Congresso.

  • A estratégia do governo Lula para 2026.

Não vamos discutir as propostas dos programas eleitorais, verdadeiras obras de ficção do estilo fantasia. Na prática, o que o governo decidiu fazer para chegar triunfante em 2026 foi, por um lado, recompor os programas sociais que tinham sido esvaziados por Bolsonaro (exceção do Auxílio Brasil, que ficou inchado e desfigurado e caríssimo), e por outro fazer andar a economia, melhorando o emprego e a renda.

Já na largada Lula precisou aprovar uma PEC para pagar 200 bilhões do novo Programa Bolsa Família que herdou do governo Bolsonaro uma conta gigante sem previsão orçamentária. O governo foi preso na armadilha de pelejar por esses recursos sem tempo de redesenhar o programa. Isto foi feito a posteriori, com alguns ajustes para favorecer famílias com crianças, mas todos os desvios do tempo de Bolsonaro continuaram vigendo, entre eles uma enxurrada de benefícios para famílias com um só beneficiário, que podem ter chegado a 4 ou 5 milhões com suspeita de serem decomposições de famílias ingressando com pedidos individuais.

O governo perdeu a oportunidade de rediscutir o modelo do PBF ou mesmo de voltar ao seu formato original, para não descontentar alguns milhões de beneficiários que teriam que ser afastados. Acabou fazendo poupança neste gasto gigantesco através do congelamento dos valores até duas semanas atrás. Pagaram por esta fraqueza os mais pobres com famílias maiores com redução de mais de 15% da sua capacidade de compra, corroída pela inflação do período, em particular a dos alimentos (bem maior do que 15%). Isto pode explicar o fato de que as pesquisas eleitorais apontam para uma intenção de voto em Lula de meros 56%, com Flávio recebendo 24% e com 20% de outros e não votos entre os beneficiários do PBF.

Os outros muitos programas sociais criados no passado pelos governos de Lula e de Dilma (Minha Casa, Minha vida; Luz para Todos; Farmácia Popular, BPC; outros) foram recompostos e ampliados em valores e em tamanho do público beneficiário, mas sem o mesmo impacto inicial do ponto de vista político.

No que toca o outro instrumento de política, a promoção do desenvolvimento, o governo apostou na repetição das medidas anteriores. Por um lado, estimulou o consumo pelo aumento de renda nos programas sociais e pela valorização do salário-mínimo, embora com porcentagens bem menores do que em governos populares anteriores, apenas um pouco acima da inflação medida pelo IPCA, no caso do salário-mínimo. Por outro lado, facilitou o crédito para o consumidor, com um efeito colateral previsível, mas não na escala em que ocorreu: o endividamento.

O efeito destas políticas foi positivo, se avaliados com a régua usada para medi-lo: o PIB cresceu, embora modestamente, o desemprego chegou a um mínimo histórico, a inflação ficou levemente acima da meta, o consumo de bens duráveis cresceu significativamente. O governo festejou seus próprios números, mas o impacto no público foi outro.

Em primeiro lugar, olhando para o detalhamento dos dados do desemprego constata-se que aumenta a empregabilidade, mas são os empregos de menores salários os que mais crescem e os salários base ficaram baixos. Por outro lado, caíram muito os números de desempregados em busca de ocupação enquanto aumentaram exponencialmente os números de trabalhadores por conta própria, os ditos “empreendedores” que conseguem aumentar seus ingressos em troca de jornadas de trabalho exaustivas. Por outro lado, os contratados no setor de serviços se sacrificam seis dias por semana ou mais com horários sem limites e sem os benefícios do INSS.

A renda aumentou, mas a expansão do crédito, muitas vezes o de tipo mais caro (rotativo dos cartões), gerou um endividamento gigantesco que já corrói os recursos de 80% das famílias. O programa Desenrola ajudou alguns milhões, mas a má notícia é que da primeira leva de beneficiários mais de 30% já estão atolados em novas dívidas. Além disso, 30 a 50% da renda dos endividados está comprometida com contas em atraso, sobretudo entre os que recebem de um a três salários-mínimos, que sempre foram uma base eleitoral forte de Lula.

Não há ainda uma boa pesquisa para mostrar o foco deste endividamento massivo e uma parte, sobretudo para um público de classe C, pode ser os gastos com bens duráveis (geladeiras, fogões, refrigeradores, outros). Mas há um gasto maior em alimentação, em casa ou na rua que pega mais para os mais pobres.

O governo olha para a inflação pelo IPCA e esquece que este se compõe de partes que tem efeitos diferentes segundo o nível de renda das famílias. A inflação dos alimentos bateu o IPCA em todos os anos, inclusive neste ano, apesar de um refresco nos últimos três meses. E mesmo quando há um refresco, os alimentos cujos preços puxam esta inflação para baixo são os processados e ultraprocessados, enquanto os in natura e pouco processados crescem. E é preciso lembrar que quanto menor o nível de renda maior é o peso dos gastos com alimentação no orçamento das famílias.

Se não se sabe ainda em detalhes com que gastos cada uma das classes C, D e E se endividou, uma causa óbvia do mecanismo de comprometimento da receita foi a elevadíssima taxa de juros vigente no país, ancorada na taxa básica de juros fixada pelo BACEN. Para quem se endivida no rotativo do cartão de crédito a taxa chega a quase 500% ao ano! Não há Programa Desenrola que arrume este estrago.

E isto nos leva ao debate sobre a taxa de juros. O BACEN as eleva para esfriar a economia, como se a causa principal da inflação fosse um aumento da demanda. Muitos economistas consideram que, pelo menos no caso dos alimentos, o fator principal é a baixa oferta dos produtos básicos e sua indexação aos preços das commodities, atrelando o preço do feijão com arroz ao preço da soja em Chicago. Por outro lado, o custo de produção está fortemente pressionado pelo preço dos fertilizantes, agrotóxicos e combustíveis. Elevar os juros não enfrenta qualquer desses problemas.

Os economistas liberais falam sempre em controlar os gastos do governo para diminuir o déficit público que seria a causa dos juros elevados. Para os defensores de um estado mínimo o ideal seria zerar os gastos em programas sociais, mas poucos falam nos gastos em isenções fiscais e subsídios ao capital.

O governo defendeu a reforma tributária para fazer pagar os mais ricos, em particular os rentistas. Também defendeu menos subsídios, mas ambas as propostas foram desidratadas no Congresso e a reforma não fez mais do que simplificar o nó do sistema tributário (o que já não foi pouco, mas não tornou o novo sistema mais justo socialmente). O debate sobre a taxação das grandes fortunas, que poderia equilibrar o orçamento deficitário, ficou para as calendas gregas.

Com ingressos melhorando modestamente ou perdendo para a inflação, como no caso do PBF, com parte importante da renda (em média 30%) comprometida com pagamento de dívidas e com os alimentos com preços em patamares elevados, o carrinho de supermercado vai ficando cada dia mais vazio e isto leva a uma forte percepção do eleitorado de que a economia vai mal. Como já disse Conceição Tavares, “o povo não come PIB”.

O governo estava tão certo de que seus números de macroeconomia eram positivos que não reparou na crescente de perda de poder de compra sentido pelo eleitorado. Lula chegou a criticar as queixas dos consumidores, revoltado com a falta de reconhecimento do seu esforço.

E por que subiram os preços dos alimentos? O governo confiou nos estímulos que deu para o agro brasileiro, continuando a política de subsídios e isenções para o agronegócio que chegaram a 200 bilhões de reais de isenções fiscais e outras benesses. Mas o agronegócio não produz prioritariamente para a alimentação das grandes massas; ele produz sobretudo commodities de exportação ou produtos de alto valor para consumidores abastados.

Lula parece acreditar no mito de que a agricultura familiar produz 70% da comida dos brasileiros quando não chega a 20%. Os 80% são produzidos por parcela do agronegócio, em geral de médios produtores patronais. Mas estes produtores de trigo, feijão, arroz, hortaliças e frutas, entre outros produtos, adotaram, com estímulo dos governos desde FHC, o modelo produtivo de alto uso de insumos e maquinário e os custos de fertilizantes químicos, agrotóxicos, sementes e combustível só fez subir, sobretudo depois do início das guerras da Ucrânia e do Irã. E, por outro lado, como a oferta de alimentos para o mercado interno é baixa qualquer aumento de renda que eleve a demanda tem influência nos preços.

Na campanha de 2022 Lula prometeu “a volta da picanha com cerveja” para o povão, mas o resultado foi uma dieta baseada em miojo com salsicha. A frustração (e a desnutrição) foi grande.

E para completar o quadro de falta de recursos das famílias temos o fenômeno da explosão de gastos com apostas on-line ine, os BETs, absorvendo grana até de metade dos beneficiários do PBF. Como explicar este descontrole? Há quem diga que a esperança de uma “tacada” feliz que resolvesse o endividamento levou muita gente a “investir” nas BETs, aprofundando o buraco onde estão metidas.

O governo e o congresso aprovaram este sistema sem controle, o primeiro para arrecadar impostos e o segundo sob o estímulo das empresas de BET. Na área governamental Haddad fala em proibir as BETs e Lula em regulamentar com mais rigidez, mas o tempo é curto para uma proposta ao Congresso antes das eleições.

  • A questão da democracia.

Lula mal tinha tomado posse quando o bolsonarismo fez seu último atentado contra a democracia, com o badernaço do 8 de janeiro, destruindo os palácios do executivo, legislativo e judiciário sob o olhar complacente da polícia militar de Brasília e a proteção do exército para os golpistas que se abrigaram em acampamento na porta do quartel general. Os generais intimidaram o ministro da justiça ameaçando com seu maior poder de fogo e a prisão dos golpistas pés-rapados foi adiada para a manhã seguinte, enquanto os mais importantes foram retirados durante a noite.

Os generais negociaram com o governo a edição de uma DLO para o Distrito Federal que deixaria o novo governo sob ameaça permanente, mas frente à uma negativa firme não ousaram aumentar a pressão. Mais uns dias e Lula redefiniu os comandos das três armas e inclusive evitou a promoção do tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens de Bolsonaro, que iria assumir o batalhão de tropas especiais (os chamados Kids Pretos) localizado logo ali, a pouca distância da sede do governo.

A reação pública contra esta última tentativa de golpe foi forte e abateu o bolsonarismo. Isto ficou ainda mais nítido com a investigação e julgamento tanto dos participantes do badernaço quanto dos militares envolvidos na trama. No entanto, este processo não conseguiu alcançar os apoiadores (entre outros o governador de Brasília, Ibaneis) e financiadores da intentona (agronegócio, velho da Havan, entre outros suspeitos).

Por outro lado, a questão da dosimetria exagerada das penas para os condenados sem maior importância política aliviou o isolamento da direita. Condenações de 10 a 20 anos para personagens irrelevantes ao mesmo tempo que os cabeças receberam penas pouco maiores deu margem a um movimento da direita para vitimizá-los, que ganhou a simpatia de parte significativa da opinião pública.

Este processo contra os golpistas levou a uma valorização do STF e, em particular o seu showman, Alexandre de Moraes, como guardiões da democracia e eles se tornaram os paladinos da esquerda e os odiados da direita.

A oficialidade das FFAA brasileiras esteve muito perto de partir para o golpe e não o fez por falta de comando e pela rejeição das FFAA americanas. Com a derrota ela caiu na defensiva e foi remoer o seu ódio à democracia nos quartéis e abandonando a militância golpista que tinha sido aberta nas redes sociais nos tempos de Bolsonaro.

Era a hora de Lula partir para uma limpeza nos comandos, mas o comprometimento da oficialidade era tal que o presidente não sabia onde achar generais confiáveis para promover. No final prevaleceu uma postura de conciliação simbolizada pela nomeação de um ministro da Defesa que esteve e está mais para serviçal do Alto Comando do que uma autoridade orientadora e controladora dos militares seus subordinados. E Lula seguiu nomeando os nomes da lista de promoções feita pelo Alto Comando.

Seguindo na linha da conciliação Lula entregou quase tudo que os militares pediram como orçamento e as três forças receberam mais dinheiro do que os ministérios da saúde e da educação reunidos. Isto não comprou nem a simpatia nem a adesão da oficialidade. A se acreditar na representatividade das posições dos clubes militares entre os oficiais da ativa, seguem vigentes os princípios antidemocráticos e pró-americanos que marcaram a história das nossas FFAA desde a segunda guerra mundial e a Guerra Fria.

A necessidade de se abrir um debate sobre a natureza e o papel desejável para as nossas FFAA nestes novos tempos de multilateralismo foi ignorada e continuamos com uma doutrina anacrônica e um viés golpista enrustido (por enquanto).

No quadro desta eleição as FFAA são uma incógnita ameaçadora. Obviamente a oficialidade continua bolsonarista e torce pelo filhote do energúmeno. Como ela vai se comportar se Flávio perder no fotochart, como o pai? E o que vai fazer frente uma eventual provocação de Trump? E até onde o psicopata americano poderá ir? Ele já está anunciando que não vai reconhecer outro resultado senão a vitória do seu aliado. É um pretexto para uma eventual intervenção armada? Ninguém acreditaria nessa possibilidade até que Trump mandou tropas para sequestrar o presidente da Venezuela e transformar este país em colônia sob seu controle, em aliança com o resíduo político e militar do chavismo.

Uma intervenção militar americana no Brasil seria muito mais complicada e arriscada do que na Venezuela, onde já estava em curso uma negociação para derrubar o presidente Maduro e manter o resto da turma no poder. Mas aqui não basta prender Lula e seus ministros em uma Brasília ocupada por paraquedistas dos EUA. Seria preciso fechar o STF e prender os ministros não confiáveis. E como ficaria o Congresso? Se colaborar com a intervenção e aceitar dar posse a um Flávio derrotado nas urnas o golpe estaria legitimado e oficializado o expurgo do STF e a nomeação de novos ministros pelo Senado. Se não aceitar, o resultado poderia ser o seu fechamento e a entrega do poder a um Bolsonaro que só poderia se sustentar apoiado nas FFAA.

Este cenário de fim do mundo é pouco provável, mas em se tratando de Trump tudo é possível, sobretudo porque ele sabe que não haveria resistência militar e que a capacidade das forças democráticas reagirem com mobilizações de peso ser remota. Teria uma vitória importante para chamar de sua nas eleições de novembro, depois do fiasco no Irã.

  • As aspirações do eleitorado e as realizações do governo Lula.

As pesquisas onipresentes na política brasileira indicam as maiores preocupações do eleitorado, mostrando que a avaliação da evolução das políticas governamentais será um fator importante para definir o voto.

Dois temas se destacam por divergirem da percepção dos analistas sobre a sua importância: a chamada “questão dos costumes”, também tratada como “cultural” e a questão econômica. Os analistas se dividem entre os que consideram que o tema dos costumes predomina desde a eleição de Bolsonaro em 2018 e os que repetem a famosa observação do assessor de Bill Clinton em sua primeira eleição nos EUA – “é a economia, estúpido”.

Pois bem, as pesquisas para esta eleição sequer arrolam os temas culturais entre os 10 mais citados pelos entrevistados e a economia aparece em um terceiro lugar, partilhado com saúde e educação, mas atrás da segurança e da corrupção.

Os temas ligados ao meio ambiente, tanto em conjunto ou em subtemas como secas, tempestades e inundações, poluição, desmatamento ou queimadas simplesmente não são mencionados e não se sabe se é porque não foram escolhidos ou porque os questionários não os propõem. Entretanto, pesquisas do Observatório do Clima apontam 81% de entrevistados manifestando preocupação com a crise ambiental, mas sem mostrar como esta posição se reflete nas intenções de voto.

4.1 – Como são avaliadas as políticas do governo para o tema da segurança? Os entrevistados veem o governo como o principal responsável pela verdadeira guerra civil em que vivemos, com o cidadão ameaçado entre a ação da bandidagem e a da polícia. É uma percepção absurda (mas muito comum), já que o controle das polícias não está na mão do Governo Federal e sim dos Estaduais.

A opinião corrente aponta para o judiciário como corresponsável, “soltando os bandidos que a polícia prende”. Há muito medo da polícia nas comunidades mais pobres das periferias, mas prevalece a consigna “bandido bom é bandido morto” e a proposta de maior liberdade de atuação das forças de repressão. Massacres de bandidos, como visto no Rio de Janeiro no ano passado, geram picos de popularidade para as autoridades, no caso as estaduais.

De modo geral o público considera que a esquerda e Lula são “lenientes com a bandidagem”. Isto tem a ver com as opiniões (corretas) de especialistas, vistos como de esquerda embora muitos não o sejam, criticando a violência policial e as violações dos direitos humanos, considerando (corretamente) que a brutalidade policial, além de criminosa é ineficiente para conter a bandidagem. O discurso de Lula e da esquerda sobre o tema está correto, mas pega mal para uma população sujeita ao controle de amplos territórios das cidades pelas gangues do tráfico ou pelas milícias e que sente a falta de medidas concretas.

O governo Lula decididamente não soube o que fazer com este tema. Começou por propor a criação de um Ministério da Segurança para logo abandoná-lo para voltar, discretamente, a propô-lo nestas eleições. Lula propagandeia a excelente atuação da Polícia Federal no controle dos mecanismos de lavagem de dinheiro das gangues e no aprimoramento dos serviços de inteligência, mas o público parece considerar a PF como algo distinto do governo e não passa para este último o crédito pela atuação da primeira. A proposta de um programa integrando as várias forças da ordem, de federais a municipais foi torpedeada pelos governadores de direita e parou no Congresso, mas o governo não conseguiu capitalizar a sua iniciativa nem denunciar seus oponentes.

4.2 – No tema da corrupção o governo e o PT carregam uma carga pesada de descrédito que tem origem nos escândalos e processos do mensalão e petrolão. Para 55% dos eleitores Lula mereceu ser condenado à prisão e o desmonte da Lava Jato que levou à sua libertação é visto como pizza.

A novidade é que o governo Bolsonaro gerou um grande número de denúncias contra o presidente e seus aliados, embora não tenha havido condenação, sequer no caso da apropriação indébita das joias das arábias. E agora temos nada mais nada menos do que uma investigação na PF e no STF em que Flávio é o alvo, suspeito de receber 60 milhões de reais (com promessa de mais 70) do banqueiro corruptor mor da república, Daniel Vorcaro, supostamente para financiar um filme sobre a vida de seu paipai. Flávio é o primeiro candidato a presidente na nossa história que é investigado por corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

O curioso é que o bolsonarismo se apresenta como a corrente política das “pessoas de bem” e estas, é sabido, se posicionam pesadamente contra a falta de ética na política, leia-se a corrupção, seja por serem sinceramente moralistas seja por cinismo político.

No ponto de partida da crise do processo contra o banco Master parecia que o PT e o governo iam nadar de braçada pois as denúncias iniciais pegavam Flávio e outros bolsonaristas do Congresso como Ciro Nogueira. Era a hora de se chamar uma CPI e fazer um banzé, aproveitando que o alvo era a direita. Não rolou. O PT juntou-se com outros partidos de “esquerda” (PSB e PDT), centro (MDB, União Brasil e PSD) e direita (Republicanos, PL, outros) para matar a CPI no nascedouro.

As denúncias contra Jacques Wagner e Rui Costa e depois Marcola, embora pesadas até agora só para o primeiro, mostraram que o ecumênico Vorcaro não tinha preferências ideológicas. Ele só não foi atrás do PSOL ou do PSTU porque estes partidos não tinham importância suficiente para serem alvo de tentativa de corrupção, já que a “ética” de Vorcaro admite apenas um princípio: todo mundo é comprável, tudo depende do tamanho da propina.

Com uma estratégia de negar até batom na cueca, Flávio vem se mantendo estável em uma disputa cada vez mais acirrada em que o tema da corrupção se mostra capital. O espantoso é a incapacidade de Lula e do PT de acabarem com esta candidatura do filhote do energúmeno por todas as evidencias que a comprometem. Pior ainda, Lula deu duas escorregadas que lhe custaram milhões de likes nas redes bolsonaristas que denunciaram a sua defesa de Wagner e de Alexandre de Moraes.

Foi com algum esforço e muito tardiamente que Lula se posicionou sobre as acusações feitas a Moraes, que ele se recusa a nomear na sua proposta de que sejam todos investigados no STF. A proposta é correta, mas no contexto em que foi feita deu margem para a leitura de uma tentativa de melar a investigação sobre Xandão e o bolsonarismo aproveitou.

A dez dias das eleições continuam repercutindo novas denúncias a partir do dossier do celular de Vorcaro e só no STF já são cinco os comprometidos pelo noticiário. Pela ordem dos valores envolvidos nas denúncias surgem Moraes, Toffoli, Nunes Marques (ou KN), Mendonça e Fux. Metade da atual Corte. E sobram denúncias para outros como o PGR Gonet, membros da Comissão de Valores Mobiliários e do BACEN e mais deputados e senadores, inclusive os presidentes das duas casas.

As pesquisas tendem derrubar as intenções de voto no denunciado da vez para depois ele voltar ao ponto em que estava anteriormente, uma vez passado o choque inicial. Aparentemente, se não houver alguma denúncia muito espetacular, na forma e no conteúdo, chegaremos ao dia 4 com cada bolha votando no “seu corrupto” contra o “corrupto da outra”.

Entretanto, a pequena minoria que escapa das bolhas pode ser influenciada e ser decisiva e isto deveria orientar a campanha do Lula, sobretudo se houver um debate direto com Flávio antes do segundo turno. Creio mesmo que o desespero de Flávio em atrair o voto útil da direita para arrancar uma improvável vitória no primeiro turno tem a ver com o seu pavor em ter que enfrentar um debate com Lula e se explicar sobre o Dark Horse. Até agora, cada vez que foi desafiado fora da sua bolha ele meteu os pés pelas mãos e levou uns tantos coices do pangaré que arrisca de derrubá-lo.

4.3 – O tema da saúde aparece como uma queixa contra as precariedades do Sistema Único de Saúde. Embora aplaudido e valorizado pelos políticos de esquerda ou progressistas o SUS é ao mesmo tempo uma proposta de atendimento público de saúde das mais amplamente executadas em todo o mundo e uma das mais precárias.

Sim, nos EUA quem fica doente ou acidentado morre sem tratamento ou morre de trabalhar para pagá-los enquanto aqui eles são de graça e acessíveis, em tese. Na realidade a expressão “morrer na fila do SUS” não é um exagero. Faltam médicos e enfermeiras, faltam hospitais e enfermarias, meios de transporte especializados, aparelhagem, medicamentos. Operações urgentes levam até um ano de espera por uma vaga. Ou seja, a metade da população que não tem acesso ao seguro de saúde privado sofre um bocado.

Já os que tem seguro privado sofrem pelos preços mais do que abusivos, que fazem das empresas atuando no Brasil algumas das mais lucrativas no mundo.

E falta uma política de saúde preventiva que passa em primeiro lugar pela adoção de uma dieta correta do ponto de vista nutricional e dos meios para fazê-la adotar pela população.

O governo Lula pouco fez para melhorar este estado de coisas, quer melhorando a estrutura e funcionamento existente no SUS quer formulando uma política de saúde pública integral. A falta de recursos no orçamento apertado é uma explicação parcial pois sempre pode ser comparada com a generosidade governamental para as demandas dos militares. Não há propostas de qualquer dos candidatos para este tema tão mencionado entre as prioridades dos entrevistados nas pesquisas de opinião.

4.4 – O quarto tema mais mencionado é o da educação. Neste quesito o governo se limitou ao programa “Pé de meia”, uma novidade acertada, e à renovação dos programas pré-existentes nos governos populares anteriores. No entanto, a falta de recursos levou todas as universidades públicas a uma crise existencial, com dificuldades para pagar serviços básicos como eletricidade e saneamento, manutenção das infraestruturas e equipamentos e as bolsas para mestrados e doutorados. Além disso, os beneficiados pelas medidas de expansão de vagas e de facilitação de acesso pelos mais pobres (pelo financiamento) e pelos negros (pelas quotas), tem encontrado dificuldades para pagar os empréstimos e se decepcionam com o mercado limitado para os novos formados. A sensação é de um sistema em crise e joga contra o governo.

No ensino básico a única intervenção do governo (a única possível, reconheçamos) foi retomar o Programa Nacional de Alimentação Escolar e ajustá-lo aos custos atuais e isto não foi pouco. No entanto, como a merenda escolar é distribuída por municípios ou Estados, nem todo mundo se dá conta de que sem os recursos federais as crianças não teriam o que comer nas escolas.

  • Soberania.

Este tema não aparece em qualquer pesquisa como uma preocupação do eleitorado. Quando Donald Trump aplicou os seus tarifaços nas exportações brasileiras as pesquisas identificaram uma forte rejeição às medidas, muito embora elas não tivessem maior impacto sobre o quotidiano das pessoas. Trump politizou as primeiras tarifas, condicionando a sua retirada à libertação de Bolsonaro e dos golpistas do badernaço de oito de janeiro. Eduardo Bolsonaro bravateou os tarifaços atribuindo-se a paternidade de uma agressão à economia nacional. O bolsonarismo cometeu uma extraordinária estupidez desfraldando uma imensa bandeira americana e aplaudindo Trump na avenida Paulista. Tudo isso entregou de presente para o presidente Lula o tema da defesa da soberania nacional.

Foi o melhor momento da presidência de Lula em termos de popularidade, embora a linguagem usada desde então para tratar do tema esteja longe de ser um conceito claro para o povão: soberania é um conceito abstrato. A dupla Lula/Alckmin tratou a crise com maestria e esvaziou a narrativa bolsonarista de que o tarifaço veio pela hostilidade “esquerdista” de Lula à Trump. Mas estranhamente, a campanha de Lula não explorou o tema e ele parece ter sido esquecido pelo eleitorado. Flávio falou mais no assunto, afirmando que vai negociar com Trump a revogação, apesar de uma espetacular gafe com o pedido de adiamento das últimas tarifadas … para depois das eleições.

Os tarifaços não provocaram impactos significativos para a economia brasileira no seu conjunto, embora tenham sido severos para alguns setores como os exportadores de etanol, móveis, artigos de couro, entre outros. Por outro lado, o governo adotou políticas compensatórias para os setores prejudicados, o que calou a boca do agronegócio muito embora não signifique uma mudança na postura ferozmente bolsonarista deste setor.

Se não houver outra intervenção desastrada de Trump até o dia 4 o tema não deve definir opções de voto.

Lula fez uma defesa enfática da soberania no seu discurso na ONU e cunhou uma frase de efeito que parecia sob medida para a campanha eleitoral: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Resta saber se o público em geral está ciente dos pronunciamentos de Trump e Marco Rúbio reivindicando a América Latina como quintal dos Estados Unidos. A soberania segue fora dos holofotes do eleitorado.

  • Meio ambiente.

Este tema é o grande ausente dos debates eleitorais a não ser pelas manifestações de Flávio, imitando seu pai, propondo liberar o agronegócio das restrições (já muito reduzidas pelo Congresso) da legislação ambiental. Lula pretendia sair da COP 30 como um paladino da ecologia, mas as políticas contraditórias do seu governo, festejando a queda nos desmatamentos e queimadas por um lado e forçando a barra para a exploração de petróleo na margem equatorial, liberando a pavimentação da estrada BR 319 (Manaus-Porto Velho) segurando os preços dos combustíveis fósseis e estimulando a indústria automobilista derrubaram esta pretensão.

Apesar dos primeiros impactos do Super El Niño terem sido significativos, com o sul do país submetido a chuvas e tornados com vários casos de inundações nos três estados e a estiagem muito antecipada no nordeste semiárido e no norte, afetando mais de mil municípios, os efeitos maiores devem ocorrer depois das eleições e nas campanhas ninguém toca na crise climática.

Não é um tema que vá representar uma diferença significativa nas eleições. Os ambientalistas não têm muito voto e vão preferir votar em Lula para evitar o mal maior de um outro Bolsonaro negacionista no governo.

  • Balanço geral.

A campanha de Lula está, essencialmente, propondo mais do mesmo, tentando mostrar que este terceiro governo repetiu o sucesso econômico dos dois primeiros (sempre esquecendo Dilma), dos quais Lula saiu com 80% de aprovação. Além disto não ser percebido pelo eleitorado, uma parte significativa dos votantes não se lembra dos sucessos do passado, ou por memória curta ou por serem muito jovens. 

Por outro lado, os programas sociais reativados e os poucos que foram criados neste governo não tiveram impacto significativo na percepção do eleitorado. Ou seja, as duas armas eleitorais mais significativas da estratégia do governo (economia e programas sociais) não lhe deram segurança de vitória.

Nos temas de maior preocupação para os eleitores o governo saiu-se ou mal ou com pouca repercussão, como apontado acima para saúde, educação e segurança.

Finalmente, no tema da corrupção, que ressurgiu com toda força este ano e acrescentando escândalo sobre escândalo nos últimos meses, o governo saiu-se mal. Pior ainda, a crise do STF deu um mote de mobilização para o bolsonarismo, que estava nas cordas desde a revelação das conversas de Flávio com Vorcaro.

A defesa de Alexandre de Moraes pela esquerda, o longo silencio de Lula, seu abraço de afogado em Jacques Wagner, as acusações contra seu filho e seu chefe de gabinete e a postura de dois dos ministros do STF mais identificados com o presidente protegendo Moraes tiraram a atenção do público para o comprometimento de Flávio e dos ministros bolsonaristas do STF em casos de corrupção.

A guerra de narrativas nas redes sociais tem mostrado vantagens para a campanha de Flávio que passou a mobilizar suas hostes (até então desanimadas) com a consigna de “limpar a corrupção no executivo e no STF”, elegendo o filhote do energúmeno e os candidatos bolsonaristas para o Senado visando uma intervenção na corte suprema . Como escrevi em outro artigo, Dino pode ter salvado Moraes por algum tempo, mas ferrou a campanha de Lula.

As benesses sociais de última hora, com um reajuste no PBF de 10% são uma demonstração da insegurança da campanha de Lula, que perdeu a chance de dar uma tacada com a votação da jornada 5×2 no Congresso e ele pode “agradecer” Alcolumbre por esta furada.

Finalmente, a última medida do governo buscando virar votos nos últimos dias da campanha, a MP proibindo a jogatina das BETs, parece ser um forte sintoma de desespero.

A medida é sem dúvida correta, mas tomada de supetão sem um debate na sociedade pode ser um tiro no pé. A reação dos clubes de futebol e de suas torcidas já está sendo feroz e a confiança nas pesquisas que apontam para 70% de opiniões contrárias às BETs pode ser enganosa. A pergunta sobre a proibição deste sistema de apostas na pesquisa da Quaest teve apoio de 56% apenas. Isto pode indicar que o apoio, muito forte entre as mulheres (que já são majoritariamente pró Lula), pode ser compensado por um voto contrário, sobretudo dentro de um eleitorado (também majoritariamente pró Lula) de apostadores pobres, beneficiários do PBF.

Aparentemente, a posição (vaga) de manter as BETs, “sob controle”, adotada por Flávio, aparece como mais palatável para o eleitorado e isto pode ser a pá de cal na campanha de Lula, que está para ganhar ou perder por um focinho no fotochart.

Para terminar esta avaliação lembro de um elemento das pesquisas que variou pouco ao longo da campanha: a avaliação de Lula e de seu governo é negativa (embora tenha melhorado um pouco) e 55% dos entrevistados acham que ele não merece governar uma quarta vez. É verdade que a porcentagem dos que tem mais medo de um governo de Flávio é maior do que a dos que temem um governo de Lula e este dado é a última esperança para um desfecho feliz, pelo menos para a eleição presidencial.

Nem estou levando em conta o que podem estar fazendo os serviços de bombardeio de mensagens fake de Trump, tal como já foi feito com muito sucesso nas eleições no Chile, Colômbia, Peru, Honduras e Argentina. Nem as medidas de Nunes Marques na condução das ações do TSE. Tudo isso soma contra, mas não é possível avaliar o tamanho do estrago. 

Nunca torci tanto para estar errado, mas a meu ver a probabilidade de uma derrota de Lula e outra, pior ainda, nas proporcionais é muito real. Nesta hora fatídica tudo o que cada um de nós pode fazer é lutar até a boca de urna para ganhar os votinhos que somados poderão fechar, mais uma vez, as portas do inferno.

A possibilidade deste desastre já estava inscrita nos 8 artigos que escrevi entre março e maio de 2023, intitulados “A armadilha”. Agora constato que um ciclo se esgotou com uma esquerda que envelheceu e se esterilizou no governo gerindo os interesses do capital.

Temos que pensar em como buscar a superação deste momento de enfraquecimento pela renovação da esquerda. Este quadro não é diferente daquele após a vitória apertada em 2022 e estes quatro anos não foram aproveitados para gestar alternativas adequadas para enfrentarmos as crises que se acumulam aqui e no planeta e que só tendem a se radicalizar. A hora de acordar já passou há muito.

Jean Marc von der Weid

Presidente da UNE entre 1969 e 1971

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983

Membro do CONDRAF/MDA entre 2024 e 2016

Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta


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