Lígia Bacarin
O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro à frente: 47,03% contra 45,16% de Lula, com 100% das urnas apuradas. As pesquisas da véspera, que em média davam vantagem a Lula, erraram, e desde a redemocratização nenhum candidato que terminou o primeiro turno atrás venceu o segundo. Diante disso, a pergunta que a esquerda precisa fazer não é “por que o povo votou assim?”, mas que condições materiais tornam esse voto compreensível. Enquanto a resposta for “ignorância” ou “manipulação”, seguiremos perdendo.
A cada eleição reaparece o mesmo lamento liberal: o escândalo de corrupção vai derrubar o candidato. A premissa é antimaterialista, porque supõe que o eleitor vota como quem julga a conduta moral de um indivíduo. Na vida do trabalhador precarizado, a corrupção não é desvio de alguém, é traço de todo o sistema político. Por isso o bolsonarismo se apresenta como “antissistema” embora seja uma de suas expressões mais acabadas, e por isso o escândalo, sozinho, não move o voto.
Os recordes de votação mostram onde a direita avança. Nikolas Ferreira (PL-MG) recebeu aproximadamente 3,1 milhões de votos e Lucas Pavanato (PL-SP), 3,04 milhões, ambos acima dos 1,84 milhão de Eduardo Bolsonaro em 2018. Nikolas, filho de pastor evangélico, entrou na política como vereador com pouco mais de 29 mil votos e tem hoje 22,4 milhões de seguidores no Instagram. Pavanato foi o vereador mais votado de São Paulo em 2024, com 160 mil votos, e dois anos depois chegou a 3 milhões. Não é trajetória de partido, é de audiência. A plataforma funciona como meio de produção de capital político, e o vínculo direto e diário com um perfil digital ocupa o lugar que partidos de base, sindicatos e associações deixaram vago. O PL elegeu cerca de 121 deputados, acima até do teto que o DIAP projetava antes da eleição.
O enfraquecimento da representação sindical mostra o outro lado desse deslocamento. De um recorde de 74 sindicalistas eleitos em 2002, a bancada sindical caiu pela metade já em 2014, três anos antes da reforma trabalhista, que ao acabar com o imposto sindical retirou a base material da máquina capaz de lançar e eleger quadros. Somam-se o desgaste do sindicalismo ligado ao PT e a fragmentação do próprio trabalho, que reduz o número de trabalhadores sindicalizáveis. A organização de base perde peso e o capital de atenção ganha. É o mesmo mecanismo que projeta Nikolas, só que em campos opostos, e que também faz crescer, na esquerda, figuras construídas nas redes. Nada disso é defeito moral de quem se elege, é a forma política que corresponde a um mundo em que o coletivo foi desfeito. As exceções confirmam a regra: Erika Hilton e Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Glauber Braga (PSOL-RJ), Elias Jabbour (PCdoB-RJ), Jones Manoel (PSOL-PE), Duda Salabert (PSOL -MG), Pastor Henrique Vieira (PSOL – REDE/RJ), Fábio Felix (PSOL-DF) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) se elegem sustentados por mandatos e militâncias com raízes em movimentos e territórios. Usam as plataformas, como todos, mas o alcance digital deles se ancora em organização. Ainda assim, a diferença de escala é reveladora: a maior votação da esquerda em São Paulo, 1,6 milhão, é pouco mais da metade da de Pavanato.
Esse vazio também é preenchido de outras maneiras. A Frente Parlamentar Evangélica reúne 219 deputados e 26 senadores, embora não funcione como bloco único. Mais importante que o número é o que as igrejas fazem no território: oferecem comunidade, rede de apoio, acolhimento e sentido a quem encontra o mundo do trabalho fragmentado. Muitas despolitizam, individualizam o sofrimento e extraem renda dos fiéis, e parte delas militariza a fé com a linguagem da guerra espiritual e da disciplina. Mas a pergunta materialista é outra: por que o povo vai para lá? Porque ali encontra uma necessidade real atendida. Explicar isso não é defender essas igrejas, é entender o que precisamos disputar. A militarização escolar caminha no mesmo sentido, só que como aparelho de Estado: coerção e consenso juntos, naturalizando a disciplina como resposta aos problemas sociais.
Nada disso se separa da transformação do trabalho. A uberização, a informalidade e a figura do “empreendedor de si” produzem uma atividade sem coletivo, sem sindicato e sem direitos. Pensando com Vigotski e Leontiev, a consciência se forma na atividade concreta. Quando a atividade é individualizada, a explicação mais plausível da própria vida passa a ser a meritocracia: o trabalhador não se vê como explorado, mas como alguém que “investe em si”. A consciência de classe, que nasce de atividade compartilhada, fica bloqueada.
Há aqui um paradoxo que a explicação puramente midiática não resolve. O desemprego caiu a 5,4% no segundo trimestre de 2026, contra 9,3% em igual período de 2022, a renda real atingiu patamares recordes e o país saiu do Mapa da Fome. Ainda assim, a melhora material não se converteu em adesão política. Ela chega ao trabalhador como transferência do Estado ou como oscilação do mercado, e não como conquista de uma atividade coletiva. Sem coletivo que lhe dê sentido, é vivida como sorte individual, ou nem chega a ser percebida. É aí que a linguagem da direita opera. Para Vigotski, os signos são instrumentos que mediam e reorganizam o psiquismo, e a direita dominou esse instrumento: constrói representações que explicam a vida cotidiana, do púlpito ao feed, opondo a comunidade aos professores e o trabalhador a quem o representa. Mas essa linguagem só pega porque se ancora numa experiência real de insegurança, solidão e ressentimento. Sem base material de organização, a linguagem da esquerda soa como propaganda de governo, e a da direita como explicação de vida.
Seria determinismo, porém, atribuir tudo às condições objetivas, e seria ingenuidade culpar apenas o Executivo. O Congresso impõe limites reais ao que a política pública consegue entregar, e a esquerda nunca governou de fato. Mas esses limites não explicam por que a organização de base, a formação política e a presença no território e no local de trabalho se esvaziaram: nada disso depende de emenda ou de maioria parlamentar. E a composição do Congresso não é um dado, é expressão da correlação de forças entre as classes e da hegemonia que a direita constrói. O fim da escala 6×1 mostra o ponto. A Câmara aprovou a PEC em dois turnos, por 472 a 22 e 461 a 19, mas a transição foi incluída após acordo do governo com o presidente da Câmara. Foi vitória de gabinete, sem mobilização de massa que a convertesse em organização. Conquista que não vira práxis coletiva vira apenas dado de pesquisa. Tratar o eleitor como “alienado” repete a individualização que criticamos, mas trocar “a culpa é do povo” por “a culpa é do governo” é o mesmo voluntarismo em sentido inverso.
A frase que circula nas redes, “acordamos em 2026 e vamos dormir em 1964”, capta o medo, mas erra a forma. O risco hoje não é o tanque na rua, é a erosão por dentro: eleições mantidas enquanto se esvaziam os contrapesos. A tentativa de golpe de 2022-23 fracassou e seu líder foi condenado e preso, o que mostra instituições que resistem. Mas o PL passa de 15 para 28 senadores, a maior bancada de um partido desde 1988, e a base aliada de Lula cai de 38 para 26. A direita soma entre 43 e 50 senadores, conforme o critério de cada levantamento, abaixo dos 54 necessários para condenar um ministro do STF. Porém, quem decide sozinho se um pedido de impeachment avança é o presidente do Senado, e a primeira disputa será a eleição da Mesa, em fevereiro de 2027. Há elementos fascistizantes no movimento (culto ao líder, inimigo interno, militarização do cotidiano), mas chamar o regime de fascista nos distrai do essencial: a disputa se ganha organizando a base, não só denunciando o perigo.
A conta do segundo turno é dura, mas não impossível. A diferença é de cerca de 1,9 ponto percentual, algo como 2,2 milhões de votos. Os demais candidatos somam cerca de 7,8%, e Lula precisaria de perto de 62% deles, num eleitorado que vem em boa parte de campos mais próximos da direita. Alianças de cúpula trazem pouco e podem custar a mobilização da base. A fonte plausível desses votos é a abstenção: foram 33,5 milhões de ausentes, a maior taxa de um primeiro turno na série, e a margem equivale a cerca de 7% deles. É o mesmo trabalhador sem coletivo que tentamos compreender, jovem, de periferia, sem sindicato. Até 25 de outubro, só se chega a ele com presença no território, na escola, no transporte e no mundo dos aplicativos, e com pauta concreta, como a 6×1, não com bronca nem discurso de governo.
Voto não é ignorância, é a vida concreta votando. Quem trabalha sozinho, sem direitos e sem coletivo, vota em quem oferece pertencimento. Para ganhar essa disputa, a esquerda precisa voltar para onde o povo vive.
Lígia Bacarin

Professora de História da rede pública e Doutora em Educação. Especialista em Neuropsicologia, Neuroeducação, Terapia Cognitiva-Comportamental e ABA. Militante do PSOL-PR, colaboradora nas mídias sociais da Geração 68 e colunista mensal do Canal Pororoca.




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