Jean Marc von der Weid
Tsunami de direita! Massacre antipetista! Fim dos tempos! Como foi possível o povo votar contra seus interesses?
Este é um pequeno resumo das manchetes dos jornais e das mensagens nos meus múltiplos grupos de zap.
Começo por dizer que sou dos poucos, pelo visto, que não está surpreso. Meu último artigo no G68, publicado em dois pedaços no A Terra é Redonda e em vários outros sites, tinha um título inicial mais condizente com o seu conteúdo – “Como perder uma eleição”. Decidi mudá-lo para “Na última trincheira”, introduzindo um parágrafo que poderia ser resumido com a consigna de “lutar até o fim”, para não dar um banho de água fria nos leitores na hora do combate.
Não vou repetir aqui os argumentos que, a meu ver, explicam o que veio a acontecer no dia 4. Tratei da economia (emprego, renda, benefícios sociais, endividamento, juros, custo de vida). Tratei dos temas que preocupam o eleitorado e das políticas do governo Lula para os mesmos, dos escândalos de corrupção de um e de outro lado e da estratégia de relação do governo e do PT com o Congresso. Tratei até de temas que não foram importantes na campanha como o meio ambiente. E ainda sinalizei o desaparecimento do tema da soberania (tarifaços e intervenções de Trump) durante a campanha. Em outro artigo tratei da “guerra santa” contra a padroeira e a proibição dos BETs.
O que quero fazer agora é um balanço de perdas e ganhos e olhar para o que se pode tentar para o segundo turno.
Começo por discutir se as pesquisas falharam em identificar a tendência revelada pela votação. A meu ver não foi o caso, pelo menos na eleição para presidente. Se tomarmos as últimas pesquisas da Quaest e do DataFolha no sábado, vemos que elas indicaram um empate técnico, dentro da margem de erro, entre Flávio e Lula. Os números davam Lula à frente com 1% de vantagem ou empatado, no primeiro turno e Lula atrás com 2% de desvantagem ou empatado no segundo turno. As urnas mostraram Lula em desvantagem de 1,85%. Dentro da margem de erro indicada pelas duas pesquisas.
Por que a surpresa com este resultado? Acho que ela advém do fato de que torcemos pelos números indicados e subestimamos a possibilidade estatística em que eles se apresentavam. Também ficou desprezada a informação de que havia um número substancial de votos indefinidos. Quando os pesquisadores pedem a preferência dos eleitores entrevistados sem mostrar a lista de candidatos, perto de 20% se diziam ainda sem escolha dias antes da votação. Por outro lado, toda pesquisa indica em quem os entrevistados pretendem votar, mas não pode prever quantos deles de fato vão votar. A abstenção é um imponderável que as pesquisas não podem medir.
Ao que tudo indica, a abstenção não foi responsável pelos números saídos das urnas. Como medir este possível impacto? Se comparamos esta eleição com a de 2022 notamos que a abstenção foi apenas 0,13% maior em 2026. E se dissecamos este índice por regiões percebe-se que a abstenção aumentou 0,11% no Sul, 0,74% no Sudeste, 0,36 no Centro Oeste (regiões onde predominou a votação bolsonarista em 2022) e diminuiu 1,50% no Norte e 1,13 no Nordeste (regiões onde Lula ganhou em 2022). Em princípio, as diferentes abstenções regionais deveriam favorecer Lula.
Se olharmos para os Estados onde ocorreram as maiores abstenções verificamos que nos três maiores colégios eleitorais, em São Paulo (22,54%), Minas Gerais (22,81%) e Rio de Janeiro 23,32%) verificamos que no primeiro e terceiro eles eram redutos de Bolsonaro em 2022, enquanto no terceiro ocorreu uma apertadíssima vitória de Lula. A maior abstenção no país ocorreu no Mato Grosso do Sul (23,87%), também uma área bolsonarista em 2022, mas com um colégio eleitoral pequeno.
Já as menores abstenções ocorreram no Ceará (15,52%), Roraima (17,12%) e Piauí (17,15%). O primeiro e terceiro são estados de forte votação em Lula e o segundo é bolsonarista, mas também com pequeno colégio eleitoral.
Várias pesquisas em múltiplas eleições indicam que os setores sociais que são mais propensos à abstenção são os mais pobres e nordestinos/nortistas, os acima de 60 anos e os menores de 18. Historicamente estes são setores que votam majoritariamente em Lula, mas não há indicação de que tenha havido uma maior abstenção destes eleitores nesta eleição e, portanto, isto não deve ter contribuído para os números da derrota.
A derrota de Lula começa a se explicar nos números comparativos da votação nesta eleição e na de 2022. Sinteticamente, Lula perde 3,4 milhões de votos e Flávio ganha 5 milhões de votos, invertendo as posições de Jair e de Lula em 2022.
Em 2022 Lula recebeu 48,43% dos votos no primeiro turno e nesta última 45,16, enquanto Bolsonaro pai recebeu 43,20% e o zero um 47,03%. Em números absolutos e arredondados, Lula conseguiu 57.260 mil votos em 2022 e 53.870 mil votos em 2026 enquanto os bolsonaros conseguiram 51.070 mil votos e 56.100 mil votos. Em 2022 Lula tinha uma vantagem de 6,2 milhões de votos sobre Jair Bolsonaro enquanto agora Flávio Bolsonaro tem uma vantagem de 2,2 milhões de votos.
De onde vem esta perda de votos de Lula entre as duas eleições?
A maior perda foi na região sudeste (53% do total), 1,8 milhões de votos. Segue-se a região Sul (29%), com 970 mil votos; Centro Oeste (11%) com 390 mil votos; Nordeste (7,6%) com 290 mil votos e Norte ((0,1%) com 4.028 votos.
Como se vê, Lula perde votos em toda as regiões, sendo que apenas no Norte ele praticamente repete a votação de 2022. No Nordeste ele perde votos em 6 Estados, com maior peso na Bahia e no Maranhão e ganha votos apenas em 3 e em pequena quantidade. Nas outras regiões ele perde em todos os Estados, com forte concentração em São Paulo no Sudeste, Rio Grande do Sul no Sul, e Goiás no Centro Oeste. No Distrito Federal Lula ganhou 26.093 votos em relação à campanha de 2022.
Em um outro recorte dos votos, Lula manteve praticamente idêntica a sua votação no total das capitais dos Estados, embora com vitórias mais apertadas neste último domingo. Nas cidades com mais de 500 mil habitantes ele perde apenas 1,1% dos votos recebidos em 2002. Quanto menores as cidades e municípios os índices de perda vão aumentando sistematicamente, produzindo vitorias cada vez mais amplas para Flávio, “abrindo a boca do jacaré”. Nos municípios rurais sob influência do agronegócio ocorreram os maiores percentuais de perdas de votos para Lula.
Por outro lado, Flávio ganha votos 5 milhões de votos em comparação com os recebidos por Jair Bolsonaro. Estes ganhos vieram do Nordeste (1,6 Milhões), Sudeste (1,45 milhões), Sul (950 mil), Norte (600 mil) e Centro Oeste (400 mil), em números arredondados.
No computo geral, o avanço do bolsonarismo (ou do antipetismo que com ele se confunde) foi mais importante do que as perdas de voto de Lula, mas foi a combinação dos dois que levou Flávio ao primeiro lugar na corrida eleitoral. Se Lula tivesse mantido a sua votação de 2022 ele ainda estaria à frente de Flávio por 1,1 milhão de votos.
No segundo turno Lula vai ter que recuperar os votos que perdeu em relação à eleição de 2022 (3,4 milhões), mas vai precisar de mais, já que os votos da “terceira via” (Cury, Caiado e Renan) somam 8,7 milhões (7,3%) e tendem a ir majoritariamente para Bolsonaro filho.
Nem todos seguirão este caminho pois estes eleitores são os que resistiram aos apelos do voto útil em Bolsonaro. Todos estes candidatos desidrataram sistematicamente ao longo da campanha e as pesquisas do sábado indicavam intenções de voto entre 3 e 4%, quando eles estiveram, cada um no seu auge, entre 6 e 12% em algumas pesquisas. Na hora agá os três receberam 6,32%: Cury 2,89%, Renan 2,24% e Caiado 2,18%, indicando que o voto útil de última hora foi reduzido. 1% dos votos restantes (Zema e outros) devem se pulverizar entre Flávio, Lula, abstenção, nulo e branco.
A migração dos votos destes dos outros candidatos mais pontuados já aparece na primeira pesquisa do DataFolha na quinta feira, entregando 2% de sufrágios extras para Flávio, menos de um terço dos 6,32% que receberam e inclusive com uma parcela nada desprezível indo para Lula (0,88%).
Com este primeiro aporte de votos da “terceira via” (mais para via auxiliar ou quinta coluna) Bolsonaro filho chega a 49% de intenção de voto. Cury, a partir da recente declaração de apoio a Flávio, pode talvez aportar alguns votos a mais, não captados nesta pesquisa, mas desconfio que o grosso dos inclinados a apoiá-lo já devem ter migrado e estão incluídos nos 2% detectados pela Datafolha. Especulativamente, podemos supor que Bolsonaro obterá 33% dos votos da terceira via ou 2,9 milhões de votos. Esta suposição leva Bolsonaro filho para 59 milhões de votos.
Ou seja, Lula vai precisar cobrir a atual diferença em relação a Bolsonaro que chega a um total de 5,130 milhões.
O problema está que o volume de votos necessários para Bolsonaro alcançar a maioria é de 1%, na avaliação do Datafolha ou 1,25 milhão de votos, mantidos os números de votos válidos do primeiro turno. Isto indica que o caminho para uma eventual vitória de Lula passa por recuperar seus votos perdidos entre as duas eleições (3,4 milhões) e conquistar a diferença residual com Bolsonaro (1,73 milhões) atraindo quem anulou ou votou em branco. Ou ainda convencer quem se absteve a ir votar em Lula no segundo turno.
Não sabemos para onde foram os votos perdidos de Lula entre as duas eleições. Uma pesquisa indicou que uma parcela de eleitores de Lula votou em Flávio no dia 4. A maioria deve ter engrossado a abstenção, os nulos e os brancos ou ainda a “terceira via”. Este voto decepcionado que foi para Flávio deve ser mais difícil de convencer do que os outros enquanto os votos da ‘terceira via” já se definiram, na sua maioria. O alvo, portanto, serão os votos em branco e nulos, que somaram 4% dos votos válidos ou 5 milhões de votos.
Os votos em branco e nulos foram numerosos em áreas de predominância eleitoral de Lula e um esforço especial para trazê-los deveria ser feito, principalmente no Nordeste. A meta de 2 milhões de votos a serem conquistados deveria ser adotada pela campanha.
Os outros 3,130 milhões de votos deverão ser garimpados no esforço de diminuir a abstenção. O alvo dos jovens, que tiveram alto grau de abstenção e que agora se mobilizam de forma impressionante nos dá esperança de que metade dos votos em disputa pode vir daí. Outra parcela pode vir de outro esforço, dirigido aos maiores de 60 anos que também foram numerosos a deixar de comparecer às urnas. Finalmente, uma terceira frente são os últimos indecisos que ainda aparecem na pesquisa Datafolha. Teríamos que que ganha-los todos para deixar Bolsonaro com apenas os 49% de votos que já alcançou.
Para dificultar mais o jogo as estatísticas eleitorais mostram que a abstenção no segundo turno tende a subir, o que diminui o número de votos válidos e, em consequência, o patamar de votos que darão a vitória a Bolsonaro.
O que é que a campanha do Lula pode fazer para alcançar sucesso neste esforço que pode ser comparado aos mitológicos Doze Trabalhos de Hércules?
O herói grego precisou matar a hidra de Lerna, o leão da Nemeia, capturar o touro de Creta, o cão dos infernos (Cérbero), o javali de Erimanto e a corça de Cerineia. Além disso precisou limpar as cavalariças de Áugias e outros trabalhos mais que me fogem à memória. O nosso herói tem um fôlego de luta digno do seu antecessor grego, mas a vitória dependerá de um esforço coletivo onde o papel da sociedade civil organizada será fundamental, assim como da montagem de um super rede de comunicação virtual militante.
Lula está reformulando sua campanha e mexendo no seu time. Está orientando seus seguidores para mostrar os resultados positivos dos seus três governos e os negativos do governo de Bolsonaro. Por outro lado, está buscando denunciar a enxurrada de maldades e descalabros previstos no programa do filhote do energúmeno. Estas orientações já estavam no script do primeiro turno, mas foram mal executadas. A “novidade” é a tática de produzir material para TikTok , facebook, e outras mídias com linguagem mais ajustada, curta e direta. O próprio Lula inaugurou esta linha com um podcast que foi visto em dois dias por mais de 15 milhões de pessoas. Antes tarde do que nunca.
Lula chamou gente do ramo para a coordenação da campanha e endossou a iniciativa de Janones de criar um exército de comunicadores digitais para fazer circular este novo material amplamente nas redes e já estão recrutados mais de três milhões de voluntários. A ver como a campanha se adapta aos novos tempos, mas a iniciativa é muito bem-vinda.
A dificuldade maior, a meu ver, é que tudo isto fica longe do principal instrumento de uma campanha, que é mostrar o que Lula pretende fazer no próximo governo, já que tanto neste terceiro como na campanha do primeiro turno ele não fez outra coisa do que prometer mais do mesmo e isto não conquistou a sua aprovação enquanto presidente nem enquanto candidato.
É urgente elencar um conjunto de propostas para enfrentar os problemas mais graves e que mais preocupam os eleitores e isto não se faz sem a participação de gente do ramo em todos os temas pertinentes. Vou elencar alguns mais adiante.
No tempo escasso até o dia 25 Lula terá que se dedicar a produzir podcasts em série, tematicamente e todos os dias, com o exército de Janones divulgando-os sem descanso. Por mais que a esquerda (eu incluído) adore uma manifestação de massa, nos dias que correm elas serão de grande estímulo para a militância se entusiasmar enquanto os ou as que sabem lidar com as redes devem voltar rápido das ruas para operar seus computadores e celulares.
No entanto, as ruas têm este papel de estímulo que é, sobretudo neste momento, dar um pique de esperança nos militantes abalados com o resultado do primeiro turno.
O ato dos estudantes secundaristas quarta-feira, no Rio de Janeiro, encheu a avenida Rio Branco e parte da Presidente Vargas com algo entorno de 50 mil pessoas altamente combativas e isto provocou uma explosão de comunicações repercutindo o ato nas redes. Esta manifestação foi ainda mais espetacular por ter sido convocada de um dia para outro pelas redes sociais, indicando o rumo do futuro, juntar as ruas com a comunicação virtual.
Não acho que Lula tenha que viajar pelo Brasil no estilo antigo, beijando bebês e senhoras e apertando as mãos dos barbados e deve dosar as participações em comícios e passeatas, reduzindo-a aos momentos de apoteose, já nas vésperas do retorno às urnas. Embora ele tenha um poder de convocatória muito maior do que qualquer um, dentro ou fora da esquerda o tempo é curto e a prioridade é o virtual.
Vai ser muito bom se houver debate antes do voto, mas duvido muito. Flávio sabe que não é páreo para Lula nem que ele esteja afônico e arrisca desmaiar ao vivo na frente das telas. Ele deve fugir do debate, mesmo com as TVs operando a seu favor, como fez a Globo desarmando um enfrentamento entre ele e Renan e interrogando Lula na sua entrevista como se ele estivesse frente a um tribunal da inquisição, enquanto deixavam Flávio contar suas mentiras deslavadas sem pressioná-lo. Não creio que Flávio irá se arriscar e vai ser uma pena. Daria um grande impulso na campanha, apesar de eu achar (desculpem a iconoclastia) que ele não é um grande debatedor.
A campanha e o governo estão tentando forçar a votação do projeto do 5×2, mas acho que ela vai ser impedida pela negação do quórum pelos bolsonaristas e a direita em geral. Sempre se pode explorar a denúncia desta manobra, mas terá menos efeito do que expor os bolsonaristas nos debates no Congresso, mesmo que não haja uma decisão final a tempo.
Se for possível fazer uma manifestação monstro pelo voto no Congresso do projeto 5×2 Lula deveria ir pois trata-se de um público estratégico com grande potencial de irradiação. Igualmente, uma manifestação de aposentados contra as medidas infames propostas por Flávio para arrancar direitos históricos deveria contar com a participação de Lula, mas como é um público menos afeito a movimentos de massa sua presença deveria ser bem calculada.
Finalmente, a campanha deveria convocar a sociedade civil, em seus múltiplos temas organizadores, a tomarem a iniciativa de organizar tanto manifestações de rua como ações nas mídias sociais defendendo propostas para o novo governo. Por uma questão de tempo elas deveriam ser descentralizadas na sua expressão, eventualmente unificadas em dias nacionais de luta por temas como direitos das mulheres, meio ambiente, contra a carestia, etc.
Finalmente, o tema da defesa da democracia deveria ser retomado, aproveitando a rata de Flávio propondo “redemocratizar o Brasil”.
A meu ver, se conseguirmos fazer um combate constante, nas ruas e nas redes até o dia 25 já teremos conseguido algo importante para o futuro, que é, no caso de derrota, preparar a resistência contra o descalabro de um governo do energúmeno através do seu filho zero um, apelido perfeito para um zero à esquerda.
A questão da corrupção não vai sair das manchetes e espero que a Polícia Federal e o STF abram as caixas pretas de Vorcaro trazendo os bolsonaristas para o pelourinho e torcendo para que não apareçam novas denúncias comprometendo gente do governo ou do PT. Lula está se demarcando (embora tardiamente) dos personagens comprometidos e vistos como próximos a ele no STF e ele deve parar de dar ombro para Jacques Wagner e Marcola. Deve valer para estes o que ele adotou para o seu filho, também acusado de malfeitos: que respondam pelo que são acusados, sem prejulgar da culpabilidade.
Em outro artigo vou levantar propostas sobre a política de segurança alimentar e sobre o meio ambiente. Aqui ficaria muito longo. Também em outro artigo vou tratar da situação provocada pela eleição do pior congresso da nossa história e como lidar com ele, ganhando ou perdendo o segundo turno.
Como diziam os revolucionários franceses em 1989:
À LUTA, CIDADÃOS!
Jean Marc von der Weid

Presidente da UNE entre 1969 e 1971
Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983
Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016
Militante do movimento Geração 68 Sempre na luta




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