O exterminador do futuro

Jean Marc von der Weid

O Bolsonaro versão zero um, se ganhar esta eleição, vai representar um desastre de proporções incalculáveis para o povo brasileiro e para as instituições democráticas, promovendo um desmonte das políticas sociais, desnacionalizando ainda mais as nossas riquezas, rasgando a Constituição de 1988 e outras, muitas outras, tragédias. Mas é o impacto ambiental de um governo bolsonarista, que goza de apoio no Congresso e força para submeter o judiciário, (a começar pelo STF) que quero examinar.

A proposta (declarada por Flávio ontem no Pará) de suspender qualquer restrição de tipo ambiental para os empreendimentos na Amazônia terá efeitos devastadores a curto, médio e longo prazo, tanto para os amazonenses quanto para os brasileiros como um todo. Mais do que isso, os impactos chegarão ao planeta e poderão ser decisivos para tornar a vida na terra um inferno sem volta.

Vamos por partes.

Quem são os “empreendedores” para quem Flávio dirigiu suas promessas de governo para a Amazônia? São quatro as categorias de atividade econômica que irão se beneficiar de uma política de vale tudo (anti) ambiental naquele bioma: os grileiros, o agronegócio, os madeireiros e os garimpeiros. Eles foram responsáveis pelo desmatamento, queimadas, poluição de rios por mercúrio e degradação de solos em larga escala, sem controle no governo de Jair e contra os controles nos governos de Lula.

Nos anos Bolsonaro no governo, o desmatamento na Amazônia (não vou tratar dos outros biomas, que também foram profundamente afetados, sobretudo o Cerrado e o Pantanal) destruiu 6,6 milhões de hectares de floresta primária pelo corte raso, 50% a mais do que seu antecessor Temer. Ao mesmo tempo, uma área maior do que o dobro da desmatada foi degradada pela ação do fogo. O fogo atingiu também outras áreas de floresta já degradada anteriormente ou de floresta secundária em diferentes níveis de recuperação, além de pastagens e outros tipos de vegetação, num total de 27,6 milhões de hectares.

80% destas áreas eram de propriedade do Estado, inclusive importantes áreas de reservas florestais ou ainda terras indígenas e quilombolas.

Qual o objetivo de desmatamentos e queimadas? A ocupação de áreas devolutas ou protegidas é feita por grileiros para posterior venda a agricultores e, sobretudo, criadores de gado. Ou pelos próprios fazendeiros, criadores de gado ou plantadores de soja, em permanente processo de expansão de suas propriedades.

Poderia parecer que o contínuo e gigantesco processo de desbravamento de novas áreas para pastagens e culturas significasse apenas uma desmedida ambição destes fazendeiros, mas a motivação é outra. Para manter seus rebanhos e áreas de cultura os produtores têm que ocupar novas áreas devido ao desgaste das que estão em uso.

Isto se explica pela natureza do bioma amazônico, cujos solos são pobres em nutrientes e só mantém a extraordinária pujança da cobertura vegetal pela reciclagem de matéria orgânica da própria floresta. Ao derrubar e queimar as árvores e arbustos o solo pobre é fertilizado pelas cinzas durante alguns (poucos) anos e depois pastos e culturas vão se tornando improdutivos, a não ser que sejam fertilizados por adubos químicos, mas é mais rentável deixar de lado estas áreas degradadas e abrir novas áreas de mata. O resultado deste processo contínuo é a existência de 26,7 milhões de hectares de pastagens degradadas, quase a metade da área total de pastos, que ocupam 70% das áreas desmatadas. Outros 7 milhões são plantações de soja.

Tradicionalmente, a destruição da floresta se dá por etapas e conta com a ação de diferentes atores econômicos

Primeiro surgem os madeireiros, que abrem estradas na mata com tratores para alcançar e extrair as árvores de grande porte (mogno, castanheira, Maçaranduba, outras) e de grande valor. Esta ação deixa rastros de destruição significativos, desequilibrando a mata localmente e tornando-as mais vulnerável à ação do fogo.

Em segundo lugar, aparecem grileiros ou fazendeiros que fazem o corte raso das áreas com tratores de esteira de grande porte, deixando a vegetação no solo para secar até o momento em que fica a ponto de ser queimada. Frequentemente estes incêndios afetam áreas vizinhas de floresta primária, o que também ocorre quando criadores de gado queimam os restos de pastagem de um ano para outro para fertilizar o solo. Quanto mais as áreas vizinhas estão degradadas pelos madeireiros mais elas ficam suscetíveis de queimar descontroladamente.

Embora aparentemente este sistema seja um verdadeiro suicídio para os produtores, a fartura de áreas de mata os estimula a aplicá-lo pois esta é a raiz da competitividade da carne brasileira no mercado internacional. A destruição da mata é mais rentável economicamente do que manejar pastos racionalmente.

Esta lógica infernal não é privilégio da Amazônia nem do atual agronegócio brasileiro, ela dominou a ocupação do território brasileiro desde a colônia e já foi responsável pela redução da gigantesca Mata Atlântica a meros 5% da sua área original.

No contexto atual do mercado internacional de carne e de soja esta lógica está sendo ameaçada pelas decisões dos países importadores de não mais comprarem produtos de áreas desmatadas depois de 2020, posição colocada para a entrada em vigor do Acordo Mercosul/União Europeia. Os europeus estão cobrando o estabelecimento pelo Brasil de um sistema rigoroso de rastreamento do gado abatido.

Mesmo antes desta exigência formal os compradores europeus, pressionados pela opinião pública de seus países, adotaram uma fórmula de só comprar carne de bovinos criados em propriedades com data de desmatamento anterior a 2020. Entretanto, os nossos “espertos” frigoríficos passaram a certificar sua carne, fazendo o gado passear das áreas mais recentemente desmatadas para propriedades certificadas como desmatadas antes da data fatídica para poderem apresentar seu produto como “verde”. Os europeus fizeram vista grossa até recentemente, mas agora querem a implantação de um rastreamento para cada res abatida. Até agora a bancada do agronegócio impediu o voto de uma lei obrigando este rastreamento, mas isto não pode durar e está retendo a entrada em vigor do acordo com o Mercosul.

Não vou me estender sobre os outros atores econômicos que participam da orgia destruidora da Amazônia. Os mais importantes são os garimpeiros, sobretudo os que devastam os rios com suas máquinas e mercúrio, buscando ouro, na maior parte de forma ilegal. Calcula-se que este exército de destruição conta com mais de 300 mil soldados, muitos armados e enquadrados pelo crime organizado (PCC), que controla a venda e distribuição para o mercado nacional e internacional. Dada a natureza deste negócio é difícil de mensurar o seu impacto ambiental, mas em algumas regiões ele é intenso, sobretudo na contaminação de rios e igarapés, com mortandade de peixes e enfermidade de ribeirinhos e indígenas. Este quadro é mais preocupante ainda pelo fato de que esta atividade goza de apoios políticos que envolvem prefeitos, vereadores, delegados, juízes, policiais e governadores, criando um verdadeiro território de foras da lei.

O que se pode esperar de um governo (Deus nos livre) de Bolsonaro bis?

O candidato já repetiu as promessas feitas por seu pai e em grande parte cumpridas durante o seu mandato: eliminar as normativas que limitam a autonomia dos produtores do agronegócio para fazerem “o que quiserem” (nas palavras do candidato) em suas propriedades.

Sem o controle do Ibama e do ICMbio (que já é precário desde o desmonte feito por Bolsonaro pai) e com a colaboração do mundo político que emergiu das eleições de 2024 e 2026 na Amazônia, podemos contar com um forte aumento do desmatamento e das queimadas em relação ao mandato de Jair. Se a degradação e o desmatamento dobrarem em relação ao período 2019/2022, a floresta vai perder uma área de até 13 milhões hectares, sem falar nas áreas de floresta secundária.

Há quem ache que esta devastação é pouco importante frente ao tamanho da floresta ainda em pé. Isto é ignorar a evidência científica que indica que o desmatamento e degradação já efetuados chegam a quase 25% da área total da Amazônia e que o limite a partir do qual a floresta perde a capacidade de se regenerar está entorno de exatamente 22%. Já se sabe que em muitas áreas da floresta isto que se chama no meio científico de tiping point ou ponto de virada já foi alcançado e que uma parte significativa da perda já é definitiva. Em outros lugares a degradação mais pontual via extração de madeira e mineração já leva a uma forte perda de capacidade de absorção de CO2 atmosférico, inclusive, em alguns deles, a floresta já está emitindo mais CO2 do que absorve.

Este ponto é crucial. A floresta amazônica é a maior fonte de absorção natural de CO2 em terra firme, só perdendo para os oceanos. A sua desestabilização levará, no imediato, a uma diminuição da retirada deste gás de efeito estufa e, em alguns anos, passará a ser uma emissora, contribuindo para uma aceleração do aquecimento global.

Por outro lado, a floresta amazônica tem um papel fundamental no ciclo da água. Em condições de equilíbrio ela é capaz de emitir vapor de forma a suprir a metade do necessário para gerar as chuvas que garantem a sua sobrevivência. A outra metade vem da humidade oceânica trazida por ventos. Além disso, a humidade produzida pela Amazônia é levada pelos chamados “rios voadores”, para as regiões Oeste, Sudeste e Sul, garantindo chuva para a agricultura das regiões mais produtivas do agronegócio.

O desequilíbrio já em curso no fluxo de umidade tem provocado secas catastróficas no Norte, com os grandes rios da região minguando a níveis nunca vistos e cada vez com mais frequência. A tendência de médio prazo (dez a quinze anos) é a conversão daquela extensa bacia em uma área de savana e, a longo prazo (até o fim do século), em deserto como o Saara na África ou o Atacama no Peru, os dois na mesma latitude da Amazônia.

Bolsonaro me lembra um filme antigo sobre um “efeito borboleta”. O enredo trata de um suposto fenômeno probabilístico, indicando que um evento localizado em um ponto do globo (como o bater de asas de uma borboleta na Califórnia) pode provocar um vendaval catastrófico na China. No nosso caso, e não é uma hipótese probabilística, a borboleta Bolsonaro, ao devastar a Amazônia no seu reinado, vai provocar o derradeiro fator de desestabilização do planeta, acelerando o aquecimento global e ajudando a levar a temperatura média até o fim do século para 4 ou 5 graus Celsius acima dos níveis do século 18. Estas temperaturas, segundo o IPCC, levarão a humanidade ao borde da extinção. O energúmeno vai se acabar, provavelmente sem se dar conta do seu papel no desastre, mas vai levar nossos filhos e netos com ele.

Jean Marc von der Weid

Presidente da UNE entre 1969 e 1971

Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983

Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016

Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta


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